''Colocaria meu filho no lugar da Nayara''

Comandante do Gate afirma que nada de errado foi feito no resgate

Camilla Haddad, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Por que não invadir antes? Por que não dopar o seqüestrador? Por que não dar ordem para atirar? Acuado pela imprensa e várias vezes indagado sobre o fato de ter assumido o risco de colocar uma refém de volta no cativeiro, que acabou baleada, o comandante de uma operação de 100 horas que terminou em tragédia tentava ontem de manhã, de todas as maneiras, explicar o resultado. "Eu assumo toda a responsabilidade e não vejo erro nessa ocorrência. O final, com lesão corporal, com as duas reféns feridas, foi provocado pelo agressor. Nós fizemos de tudo para preservar a vida dos três", afirmou o coronel José Eduardo Félix de Oliveira. "A ação foi totalmente estudada. Ninguém tomou decisão sozinho ou despreparado." Ele rebateu as críticas do Conselho Tutelar e de organizações de direitos humanos por ter colocado a jovem Nayara, que acabou ferida com um tiro na cabeça, em risco. "Eu colocaria meu filho no lugar dela naquele momento. Ela é uma menina muito responsável e equilibrada", afirmou o coronel Félix, que tem três filhos. Segundo ele, ninguém esperava que Nayara entrasse no apartamento. "A negociação era para que ela se aproximasse, porque após os depoimentos percebemos que era um ponto de equilíbrio." Quando Nayara entrou no apartamento, a mãe dela teria falado que não sabia se "batia na filha ou se chorava". "Todos ficaram surpresos. Não queiram agora colocar a culpa na equipe do Gate, que lidou com uma situação de crise por mais de 100 horas." Para ele, se a Polícia Militar tivesse atirado em Alves, que esteve por seis vezes na mira dos atiradores, também estaria sendo questionada. "Inevitavelmente, os senhores da imprensa estariam questionando o Gate do mesmo jeito. Era um garoto de 22 anos, sem antecedentes criminais, que estava passando por uma crise nervosa", ressaltou. Félix ressaltou ainda que, em muitos momentos, nada indicava um fim trágico. Durante os quatro dias, a polícia fez escutas e ouviu diálogos normais de amigos, sobre baladas, relacionamentos, comportamentos, vizinhança. "Conversavam sobre tudo. E a gente pensava: não dá para invadir, são três crianças." "Quando ele dormia, prendia as garotas num quarto ou as deixava amarradas e ligava a TV", afirmou o comandante. "Para despistar, Nayara contou que ele pedia a elas para andarem com a vela pelo apartamento, quando faltava luz." DESEQUILÍBRIO O comandante ainda relatou que o mais difícil era lidar com o comportamento inconstante do seqüestrador. "Tratávamos com uma pessoa com desequilíbrio e picos de humor. Ele ameaçava adiantar o fim, ou seja, matar as reféns e se matar posteriormente. Depois, ficava tranqüilo e negociava. De repente voltava atrás e falava que tinha muito a discutir com Eloá ainda." Confrontado com esse comportamento do agressor, também se questionou se não seria ideal utilizar um sonífero ou jogar gás no apartamento. "Sonífero demora até 15 minutos para fazer efeito e o Lindembergue poderia perceber que colocaram alguma coisa na comida, ia se sentir traído. Mesmo sonolento, poderia ter efetuado os disparos. Além disso, sonífero pode até matar, pois não se sabe se uma pessoa é alérgica ou não", rebateu o responsável pelo Gate. "Já o gás podia tumultuar a ocorrência e não é muito utilizado." Os agentes do Gate também consideraram que uma invasão pela manhã, quando se ouviu um disparo no apartamento, seria precipitada. "Com as escutas ambientais, é possível diferenciar um disparo dado contra um corpo de um disparo dado para cima, como provavelmente ocorreu pela manhã", afirmou o comandante do batalhão do Gate, tenente-coronel Flávio Jari Depieri. Anteontem, Félix havia considerado a possibilidade de o disparo dado contra a região pubiana de Eloá ter sido executado pela manhã. De acordo com Félix, a negociação não tinha prazo para ser encerrada. "Poderíamos esperar por muitos dias", afirmou, descartando que uma coletiva convocada dez minutos antes do fim do seqüestro tivesse a finalidade de distrair Alves e possibilitar uma invasão. "No momento da rendição, todas as exigências do seqüestrador foram atendidas, quando ele ia se entregar voltou atrás", afirmou. "A equipe estava na porta, porque ele havia afirmado que ia se entregar. De repente, ele afirma novamente que tinha muito a resolver ainda e se ouve um tiro."

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