Com 137 mortes em oito dias, Espírito Santo apura execuções em meio a motim

Entre as vítimas, há casos de homicídio por encapuzados e relacionados à disputa de tráfico, conforme policiais civis e testemunhas; existe receio de grupos de extermínio. Secretaria também investigará participação de policiais

Vinicius Rangel, Especial para o Estado

12 Fevereiro 2017 | 03h00

VITÓRIA - Com uma média diária de 17 assassinatos nos últimos oito dias, o Espírito Santo terá o desafio de investigar execuções e a atuação de grupos de extermínio no período em que policiais militares, em motim, se aquartelaram. Há, entre as vítimas, casos de assassinatos orquestrados por grupos encapuzados e relacionados à disputa de tráfico de drogas, segundo policiais civis e testemunhas. 

O secretário de Segurança Pública capixaba, André Garcia, confirmou anteontem que o serviço de inteligência vai apurar a participação de policiais militares e civis, ativos e aposentados, nas mortes. Segundo ele, se confirmado o envolvimento, o responsável será tratado como um “bandido”. A ação de esquadrões de extermínio na Grande Vitória é investigada.

Na década de 1990, o grupo Le Cocq – que tinha como membros policiais, políticos, advogados e empresários – foi acusado pelo Ministério Público de ser responsável por execuções no Espírito Santo. Para fonte da Polícia Civil ouvida pelo Estado, é baixa a possibilidade as mortes recentes serem de autoria do Le Cocq. Para o investigador, porém, é grande a chance de militares estarem por trás das execuções. Nos últimos anos, a polícia tem investigado e capturado integrantes de novos esquadrões da morte no Estado. 

Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis capixaba, Jorge Emílio, grande parte dos homicídios é motivada por disputa pelo tráfico de drogas e acertos de contas. A maioria é de execuções, em que a arma usada é a de fogo, seguida por facas e pedaços de madeiras. 

“Grande parte (das vítimas) já possui registro na polícia e tem envolvimento com tráfico de drogas ou com a criminalidade nesses bairros”, afirmou Jorge Emílio. No Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, já superlotado, a maioria dos cadáveres é de homens. 

Jovens alvejados. Na noite de quarta-feira, por exemplo, quatro jovens foram alvo de tiros em Vila Velha, na Grande Vitória. Segundo testemunhas ouvidas pela polícia, encapuzados cercaram o grupo e mandaram que todos se deitassem, para depois atirar. Os quatro teriam envolvimento com o tráfico e seriam de gangue rival. 

Outro caso é o do porteiro Paulo Victor Ramalhete, de 33 anos. A família foi avisada por vizinhos que ele estava com amigos em uma praça em Vila Velha quando atiradores o mataram. “Ele nunca recebeu ameaças, mas sei que ele tinha envolvimento com o tráfico. Já chegou a ser preso, mas não deve nada à Justiça agora”, disse o pai da vítima, que pediu anonimato. “Nossa família está desamparada.” 

Em Linhares, Dies Gomes, de 27 anos, estava em um bar quando foi chamado e morto a tiros por um desconhecido, de moto. Já Raimundo de Jesus, de 28, foi executado na mesma cidade, supostamente após ter cobrado dívidas de criminosos locais.

Em São Mateus, o corpo de um jovem foi achado no porta-malas de um carro roubado, com três tiros e marcas de pauladas. Em Guarapari, outro morreu com quatro disparos nas costas e um na boca. 

Na tentativa de salvar o filho, uma mulher de 55 anos foi atingida na cabeça durante troca de tiros entre traficantes em um supermercado de Cariacica, na Grande Vitória, segundo a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa. Ela teria se colocado na frente do filho de 14 anos, depois de o rapaz ser atingido. Há suspeitas de que já estivesse sob ameaças de criminosos. O adolescente está desaparecido. 

O major Rogério Fernando Lima, do Clube dos Oficiais, informou que as associações de PMs se pronunciarão somente depois que forem concluídas as investigações formais.

Outros crimes. Entre as 137 mortes registradas em oito dias – número superior aos 122 homicídios observados em todo fevereiro de 2016, há vítimas de latrocínio, como Almir Chrizostomo, de 62 anos, em Cariacica. O idoso foi morto ao reagir a um assalto. Na mesma cidade, um adolescente de 17 anos morreu a pauladas. O jovem era deficiente mental e pode ter sido confundido com um ladrão que assaltava o comércio na região.

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"A polícia está extremamente envolvida no crime organizado"

Sociólogo que elaborou tese sobre a violência na região fala sobre grupos de extermínio e risco de disseminação do caos

Entrevista com

Marco Aurélio Borges

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 03h00

Vítimas que choram é o nome do livro lançado no ano passado pelo professor Marco Aurélio Borges, com base na pesquisa feita para sua tese de doutorado. O estudo, que tem o subtítulo de “acumulação social e empreendedorismo violento no Espírito Santo”, resgata o passado de violência do Estado e aborda as peculiaridades capixabas. Ao Estado, ele falou sobre a realidade de insegurança atual na região e o risco de o movimento grevistas dos policiais se espalhar.

Como a população sentia a eficiência do aparato de segurança capixaba antes da paralisação?

O histórico do Espírito Santo não é o de um Estado que de repente se torna violento. É um Estado que sempre foi violento. Nos anos 1980, houve um aumento vertiginoso dos homicídios e, no fim dos anos 1990, nos aproximamos de uma intervenção federal por causa do envolvimento de atores institucionais extremamente importantes no crime organizado. A famigerada Scuderie Le Cocq, que nasceu no Rio, tinha fortes ramificações aqui. Já desde os anos 1960 e 1970, se tem no Espírito Santo, nos modelos do Rio, grupos de extermínio atuando. Assim, a polícia está extremamente envolvida no crime organizado, não a polícia como instituição, mas muito atores extremamente relevantes da corporação eram envolvidos com grupos de extermínio e com atos criminosos.

Há uma queda de homicídios recente, porém...

É fato que nos últimos anos tem havido uma queda nos homicídios ainda que não entendamos muito bem porque eles estão caindo. Existem muitas variáveis que podem ser desde uma mudança de faixa etária até também a eficácia da melhoria do serviço de segurança. É um dilema parecido com São Paulo nesse aspecto. Mas essa queda ocorreu em paralelo a um sucateamento da estrutura de segurança, o que reforça o paradoxo.

Assim, havia motivos para protesto dos policiais?

É complicado um servidor estadual, como o policial militar, não poder fazer greve porque está submetido a um regimento militar, enquanto médico pode fazer greve, desde que respeite as leis relativas a essa questão. E isso vai produzindo no servidor público policial uma angústia muito grande. Ele vê os salários se defasando, vê suas condições de trabalho se precarizando, as estruturas se deteriorando, mas ele não tem um instrumento legal, que seria a greve, para fazer a pressão. Envolveram, então, os familiares e amigos aqui no que foi uma opção mal sucedida porque ficou claro que era uma estratégia para driblar a ilegalidade. As reações a nível federal estão sendo muito duras pelo risco de esse modelo de manifestação se espalhar.

Que fator explica o cenário? 

O fator nacional é que vivemos uma crise institucionalizada no País. Há poucos dias, as tropas federais estavam no Rio Grande do Norte e em outros Estados controlando presídios. No caso específico, há a grande preocupação em manter o equilíbrio fiscal. Por outro lado, manter os pagamentos em dia tem seu custo, que é não dar aumento, cortar nos servidores. São muitos ingredientes nessa receita, que acabou se mostrando bombástica

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