Com ameaça de depoimento-bomba, Assembleia articula fim de investigação

Nome de Teresa Barbosa, dirigente de uma ONG, foi apresentado ao Conselho de Ética por deputado; ela teria detalhes do esquema

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2011 | 03h03

Diante do surgimento de uma nova testemunha do suposto esquema de venda de emendas, deputados da base governista e membros do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo apressam-se para finalizar os trabalhos de investigação na semana que vem e evitar o que pode vir a ser um depoimento-bomba. A testemunha, Teresa Barbosa, é presidente da ONG Centro Cultural Educacional Santa Terezinha e foi citada ontem publicamente pelo deputado Major Olímpio (PDT).

Apesar de Olímpio assegurar que ela está disposta a falar no Conselho de Ética, o Estado apurou que os parlamentares tentam um acordo para evitar que ela deponha. O líder do PTB, Campos Machado, apresentou questão de ordem ontem para que os trabalhos de apuração sejam encerrados e um relatório seja enviado ao Ministério Público.

Única pessoa a depor pessoalmente no Conselho de Ética após cinco reuniões, Major Olímpio reafirmou o que havia dito anteontem ao Estado: que dona Teresinha - como a presidente da entidade é chamada - conhece detalhes do esquema. Segundo o deputado, ela é pessoa "bastante humilde" e de "extrema confiança" do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

"Em determinado momento, dona Teresinha me relatou que alguns deputados - no plural - usavam como estratégia, para ter algum retorno nas emendas, dizendo (sic), 'olha, eu ajudo a sua entidade, mas também tenho algumas entidades que não estão completamente regularizadas e que também são carentes e precisam de ajuda'", relatou Olímpio. "Eu disse: 'Isso é uma forma de extorsão'. "

O deputado afirmou que ela não quis dar nenhum nome, por segurança. E teria lhe dito: "Filho, não quero acordar com a boca cheia de formiga".

Olímpio propôs que o conselho convide Teresa para depor. "Ela tem muitas informações. Tem muito trânsito na Casa Civil e pode relatar muitas coisas sobre às emendas." O Estado apurou que Teresa está disposta a falar.

Enterro. "Os limites do Conselho de Ética já se romperam. Não se trata mais de um Conselho de Ética, se trata de uma investigação mais profunda. Nós não temos condições de convocar, de prender, de intimar. Não temos condições de fazer acareações. Não temos nem competência para isso", disse Campos Machado.

Outro governista do conselho, José Bittencourt (PDT) concordou com a proposta de Campos Machado pelo fim dos trabalhos. A ideia teve apoio também do líder do PSDB, Orlando Morando. "Até agora foi apresentado um pacote de fumaça. Denúncia vazia não chega a lugar nenhum. Acusar sem nomes fica difícil."

"Estão temperando a pizza", provocou o deputado João Paulo Rillo (PT). A comissão, em reuniões anteriores, derrubou vários requerimentos para convocar depoentes. A sugestão de Campos Machado para dar fim à apuração deve ir a voto na semana que vem.

Outro nome. Olímpio relatou ainda que o presidente de outra entidade, Maurício Pacheco Chagas, lhe teria dito, em março de 2009, que poderia lhe dar uma "participação política" se ele concedesse uma emenda para um evento cultural esportivo. O deputado diz não ter revelado o caso antes por não ter testemunhas - mas achou relevante relatá-lo ao conselho. Chagas, ex-subprefeito de Santana, não foi localizado para comentar o caso.

Até agora, tudo de que o conselho dispõe se resume ao depoimento de ontem de Olímpio e de dois documentos enviados pelo deputado Roque Barbiere (PTB) - primeiro a denunciar a cobrança de propina em troca de emendas - e pelo secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas (PSDB), que em entrevista ao Estado mencionou que um prefeito lhe ofereceu R$ 5 mil por uma emenda. Posteriormente, negou que se tratava de fato real. Nenhum deles apontou nomes.

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