Raimundo Pacco/EFE
Raimundo Pacco/EFE

Com alta nos casos de covid-19, Belém suspende aulas nas escolas públicas e particulares

Reabertura de escolas na rede estadual será apenas em 2021; capital paraense restringe horário de bares e restaurantes

João Ker e Roberta Paraense, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2020 | 05h00
Atualizado 30 de outubro de 2020 | 18h58

Após Belém registrar aumento na taxa de contágio e de novas infecções pelo coronavírus, o prefeito da capital paraense Zenaldo Coutinho (PSDB) anunciou mais medidas restritivas no município. Em transmissão online feita nas redes sociais nesta quinta-feira, 29, ele afirmou que vai suspender as aulas nas rede municipal e nas escolas privadas durante todo o mês de novembro. 

"Nosso objetivo principal é garantir proteção de forma uniforme a toda comunidade escolar", anunciou Coutinho. Na terça-feira, 27, ele também reduziu o horário de funcionamento para bares, restaurantes e casas de show, que só podem funcionar agora com 50% da capacidade e até meia-noite.

As aulas na rede privada estavam autorizadas pelo governo do Pará desde 1º de setembro e, na rede municipal, elas retornaram no dia 14 do mesmo mês. Ainda nesta semana, o governador Helder Barbalho (MDB) afirmou que as aulas presenciais da rede estadual só serão retomadas em 2021. As escolas do Pará estão fechadas desde 18 de março.

"Pensando em saúde e em proteger nossos alunos, a decisão acertada é de que não haja o retorno das aulas presenciais, para que as escolas não venham a ser um ambiente de transmissão viral e que isto possa potencializar a circulação do vírus, colocando em risco a vida das pessoas e, eventualmente, colapsando o sistema de saúde."

Em nota, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) afirmou que o Estado fez várias tentativas no sentido de retomar as aulas presenciais, mas em todas elas, foi obrigado a recuar por causa da firmeza da categoria em manter a posição quanto a um não retorno sem condições sanitárias. “Oportunamente, a categoria avaliou como sensato o recuo do governo do Estado de suspender a retomada das aulas presenciais que estavam marcadas para recomeçarem no próximo dia 3 de novembro”. A entidade aponta que ao menos 44 escolas estão com casos confirmados de covid-19.

Aumento de casos

Um dos Estados mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus, o Pará volta a registrar um aumento no número de casos da covid-19, nos últimos dias. Apenas nesta quinta-feira, 29, mais de 1.097 pessoas entraram no registro de infectados da Secretaria de Saúde do Pará (Sespa) e mais dois óbitos foram registrados, em função da doença. Agora, são 252.389 casos e 6.738 mortes no Estado. O alerta tem pressionado as autoridades a tomar decisões que, mais uma vez, impõe limitações nas atividades econômicas, além da ampliação ao atendimento aos serviços de saúde pública.

"A Secretaria Municipal de Saúde informa que tem registrado um aumento nos novos casos de Covid-19 em Belém, o que não significa que haja um novo pico ou segunda onda, apenas uma oscilação no número de casos que está sendo acompanhada pela equipe da saúde. Em outubro (até o dia 29), foram contabilizados 2.518 casos confirmados. Já no mês de setembro, este número foi de 2.094. Ainda estamos vivendo a pandemia e portando essas oscilações podem ocorrer. A Sesma ressalta que no período foi aumentada a oferta de testes o que pode ter contribuído para a captação de um número maior de casos tanto em estabelecimentos públicos como privados. De qualquer forma, é necessário que medidas de controle sejam adotadas para evitar a dispersão do vírus e aumento de casos", disse a prefeitura em nota.

A partir deste sábado, 31, por exemplo, as pessoas com sintomas gripais leves e moderados poderão buscar assistência médica na Policlínica Itinerante, ao lado do Hangar (hospital de campanha), em Belém, que será reativada, devido ao aumento dos casos. A medida preventiva contra o novo coronavírus foi adotada pelo Governo do Estado na tarde dessa quinta, após reunião do comitê que analisa as estratégias de enfrentamento à covid-19 no Pará. Na unidade, serão disponibilizados exames, consultas e medicamentos. Para casos mais graves da doença ou pessoas com falta de ar ou insuficiências respiratórias, a recomendação das autoridades de saúde é buscar Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Pronto Socorros do Estado que, segundo a Sespa, está com a ocupação de leitos clínicos na rede estadual, de 27,02% e 54% nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ainda de acordo com a Secretaria, já foram realizados 406.899 testes rápidos e 56.748 testes de PCR para covid-19.

“Neste momento, em face às informações epidemiológicas e por alguns hospitais privados terem tido a necessidade da abertura de leitos, nós estamos tomando a medida de retomar a policlínica, que foi uma das principais estratégias de atendimento de triagem e, acima de tudo, de atendimento precoce à população”, afirmou o governador do Estado, Helder Barbalho (MDB), ao anunciar a retomada do serviço, em pronunciamento oficial. Barbalho esclareceu que essa seria uma medida preventiva “para não ter risco de qualquer cidadão que necessite de um atendimento clínico, de um diagnóstico, fique desassistido. Isso não é motivo de alarde, é apenas uma medida que o governo do estado, na sua obrigação de agir, toma para atender a população”, continuou o governador.

O secretário adjunto de Saúde, Sipriano Ferraz, explicou que o Estado está acompanhando os casos novos da covid-19, no entanto, ele ressalta que as medidas também são adotadas devido ao período de chuvas na região, que ocasiona, tradicionalmente, o número de pessoas com viroses. “Estamos nos antecipando e abrindo novamente uma porta da policlínica no Hangar, para que haja mais uma referência no atendimento e orientação da população”, defendeu Ferraz. Vale lembrar que, em março e abril, quando a capital registrou um número considerado de casos da covid, o período de chuvas também entrou nas justificativas das autoridades de saúde.

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) informou que nesta sexta-feira, 30, o levantamento epidemiológico registrou uma redução de 60% da média móvel quando comparada com 14 dias atrás. "A média de pessoas contaminadas no dia 16/10 era de 296 novos casos por dia, enquanto que no dia 29/10, a média móvel foi de 117,6 novos casos. Até o momento, o Pará registra 252.389 casos confirmados de covid-19, 6.738 óbitos e 235.322 recuperados. A taxa de ocupação de leitos do Estado exclusivo para Covid-19 é de 27,2% nos leitos clínicos e de 54,1% nos leitos de UTI", disse, em nota.

"Como medida preventiva contra a Covid-19, o Governo do Estado vai retomar os atendimentos para pacientes com sintomas leves e moderados da doença na Policlínica Itinerante montada ao lado do Hangar, em Belém, a partir deste sábado (31). O Estado também garante assistência à população do interior do Estado, com o funcionamento por mais 30 dias do Hospital de Campanha em Marabá para atender a região Sul e Sudeste paraense; consolidando estratégias em Santarém, para a mudança de perfil de algumas alas do Hospital Regional de Santarém para atender a região do Baixo Amazonas; o suporte do Hospital Regional de Itaituba e com isso garantindo o atendimento hospitalar", continuou.

Por outro lado, o reitor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Marcel do Nascimento Botelho, alertou sobre os riscos do vírus e garantiu ainda que, todas as medidas de prevenção devem continuar sendo adotadas para que se mantenha a estabilidade da doença até que haja vacina. Ele recomendou o não relaxamento do uso de máscaras, o distanciamento social e a higienização das mãos. “Tivemos ações assertivas, que resultaram na redução do número de casos e internações e para continuarmos com essa tendência de queda não podemos relaxar. O retorno de algumas atividades é necessário também para que a população sobreviva, mas isso não pode vir com o descuido da saúde”, avaliou o reitor.

Mesmo com as medidas adotadas, o Estado ainda diz que há queda nos registros do vírus. “Mesmo tendo um leve aumento no número de casos no setor privado da Grande Belém, o que se nota, a partir dos dados repassados pelos municípios, é que o coronavírus continua estável no Pará, e continuamos registrando queda ao comparar com o momento que vivemos em maio, no pico da pandemia. Também permanece o mesmo bandeiramento já estabelecido”, disse à Agência Pará o diretor de desenvolvimento de sistemas da Prodepa, Gustavo Costa, órgão que gere o portal de monitoramento da covid-19.  

Universidade descarta segunda onda

Mesmo com as atividades econômicas funcionando a todo vapor e o ritmo frenético, sobretudo, nas campanhas eleitorais para o pleito municipal do dia 15 de novembro, que geram aglomerações  em eventos presenciais, o reitor da Universidade Estadual do Pará (UEPA), Rubens Cardoso, descartou a possibilidade de uma segunda onda da doença, com base nas indicações das pesquisas realizadas pela instituição.  “Os estudos e levantamentos feitos pela UEPA sobre o novo coronavírus tem como objetivo tornar as informações públicas para que não haja alarmismo, pois todas as decisões governamentais são tomadas baseadas nas pesquisas da UEPA, da UFRA, que alcançaram 114 municípios, testando cerca de 27 mil paraenses nas mais diferentes localidades do Pará. E esse levantamento indica que realmente vivemos uma estabilidade, entretanto, como o vírus ainda está presente é necessário manter as precauções”, frisou.

Urgências

O infectologista Thiago Lopes garante que houve um aumento pela procura de pessoas com sintomas gripais na capital. “A procura tem sido maior neste mês de outubro em relação a setembro. Por exemplo, atendo na urgência de um plano de saúde, durante a manhã, estamos recebendo, em média, 35 pessoas com as queixas, sendo que em setembro, a média era de 20. As pessoas estão sem medo, já que tudo está aberto e voltou a normalidade na vida de todos”, observou.

A dona de casa Cristina Souza, de 45 anos, procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Terra Firme, em Belém, na manhã de dessa quinta. No local, ela teve de esperar mais de três horas para ser atendida. “Mês passado estive com a minha mãe, foi super rápido, mas agora está lotado. Muita gente com os sintomas de gripe. Eu fiz a chapa, não peguei o laudo, mas o médico disse que pode ser covid, pois há lesão no meu pulmão. Ele receitou três medicamentos e isolamento”, comentou Cristina que, atualmente, precisa se expor na rua. “Não consigo usar máscaras, vou à feira com frequência e passei a sair mais. Há uma semana estou gripada, com dor no peito, nas costas, sem comer”, disse, por telefone, a paciente que está em isolamento.  

Prefeito reconhece o aumento de casos  

O aumento dos casos já vem sendo apontado pelo prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), desde a semana passada. No dia 21, ele apresentou um panorama da doença na capital. De acordo com o prefeito, a maior ocorrência de casos está entre pessoas da classe média e o aumento pode ser atribuído ao "retorno às aglomerações em bares, festas e reuniões em casa". Os três bairros de Belém com maior número de casos confirmados de covid-19 são, pela ordem, Marco, Guamá e Pedreira.

"Em relação à demanda de leitos, a Sesma informa que a taxa de ocupação hoje, 30 de outubro, é de 62,5% para UTI e de 56,6% para clínicos. Estes leitos são referentes ao Hospital de Retaguarda Municipal Dom Vicente Zico, serviço de referência às UPAs e Prontos-socorros de Belém para a Covid-19. De acordo com dados disponíveis no Painel da Covid-19, os bairros com maior incidência da doença são Marco (2.845), Guamá (2.536) Pedreira (2.431) e Jurunas (2.284). Sobre os óbitos, a Sesma informa que a taxa de letalidade do município está em 5,10%. A média móvel de óbitos dos últimos sete dias é 0,6. Em outubro (até o dia 29), foram registrados 23 óbitos. Já em setembro, foram 64 mortes durante o mês inteiro", afirmou a prefeitura de Belém.

Em Belém, também paira a expectativa da publicação de um decreto com restrições nas campanhas eleitorais nas ruas devido ao aumento de casos de covid-19 na capital do Pará, o anúncio também foi feito pelo próprio Zenaldo Coutinho. O documento estava previsto para publicação no Diário Oficial Municipal de Belém de quinta, mas, até o fim da manhã desta sexta, não  havia sido publicado. A medida foi anunciada por Coutinho, que disse também que deve tratar sobre novas regras no funcionamento de restaurantes e bares na cidade.

Justiça  

Sem medidas de fato mais efetivas, o Ministério Público Federal (MPF) requisitou, nessa quinta, um relatório sobre as providências que serão tomadas para evitar uma segunda onda da doença no Estado. O MPF questionou ao Governo do Estado e a Prefeitura de Belém, a reanálise do bandeiramento de risco dos municípios e quando será implantada a fiscalização efetiva das regras sanitárias e do distanciamento social.

Além disso, o MPF cobrou informações sobre quais providências foram tomadas para buscar a punição do proprietário da rede de lojas Havan. A aglomeração na inauguração de loja em Belém, no último dia 10, foi apontada pelo MPF como cena de barbárie.

Como justificativa, os ofícios do MPF registram as notícias de que unidades de saúde da capital paraense tiveram este mês aumento de 110% no número de casos suspeitos da doença, e que a elevação também foi constatada por hospitais particulares e foi citada pelo prefeito.

"A Secretaria Municipal de Saúde de Belém ressalta que a cada novo cenário da pandemia, segue adotando as medidas necessárias para evitar a proliferação da covid-19 na cidade. Para tanto, tem um comitê que integra diversos profissionais de distintas áreas técnicas, que monitoram e elaboram os protocolos para a Covid-19 na capital, o que inclui fluxo de atendimento nas unidades básicas e de urgência e emergência, regulação de leitos, administração de medicações, telemedicina, central telefônica para notificações e esclarecimento da população, pontos para testagem entre outros", concluiu a prefeitura de Belém.

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