Com corte de R$ 50 bi, Dilma avisa que não há ''clima'' para comprar caças

Quatro ministros confirmam ao 'Estado' que decisão sobre o negócio de R$ 13 bi só ocorrerá em 2012 por pressão da equipe econômica

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa / BRASÍLIA,

19 de fevereiro de 2011 | 00h39

O Planalto suspendeu a compra de 36 caças para integrar a Força Aérea Brasileira (FAB) enquanto estiver em vigor o período de austeridade fiscal. Após anunciar um corte no orçamento de R$ 50 bilhões, a presidente Dilma Rousseff avaliou que não há "clima" para se pensar em uma despesa militar da ordem de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 12 bilhões), relataram quatro ministros ao Estado.

O governo decidiu não estipular prazo para a suspensão do debate, mas, na prática, qualquer decisão importante só deve ocorrer a partir de 2012. O consenso na área econômica é que o ciclo de ajuste - contingenciamento orçamentário e subida dos juros - deve se estender por todo o ano de 2011. A compra dos caças é bombardeada especialmente pela equipe econômica.

Dilma Rousseff avalia que o assunto pode ficar para depois, disseram os auxiliares. Para a presidente, a compra dos caças, no atual momento, poderia ser vista como uma "incoerência" do governo. Ministros relataram que a presidente vai aproveitar a suspensão da compra para analisar com mais rigor pontos do acordo de compra dos caças.

Em um almoço no Planalto, ela disse ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que tem "muitas dúvidas técnicas" sobre o projeto de compra dos caças. A presidente não quer que a decisão de suspender a compra seja vista como um desprestígio do ministro da Defesa. "Jobim sabe que não é adequado comprar caças agora", disse um ministro.

Lobby francês. Ao receber em Brasília o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em setembro de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a prioridade era comprar caças Rafale, da francesa Dassault. A sueca Saab e a norte-americana Boeing estão na disputa para vender caças ao governo brasileiro.

O Planalto não está preocupado com uma reação de Sarkozy. A própria Dilma observa que a parceria com o governo francês vai além da compra dos caças e que o presidente tem de entender a atual conjuntura brasileira. "Nesta situação, um país respeita as decisões soberanas de outro", disse um ministro.

O projeto de compra dos caças se arrasta desde o governo Fernando Henrique e foi o primeiro a ser adiado pelo ex-presidente Lula quando assumiu em 2003. É dentro desta mesma perspectiva que ele vem sendo tratado por ministros como "um gasto", acrescentando que levá-lo adiante neste momento, afetaria as contas públicas, prejudicando a meta do governo para reduzir gastos e segurar a inflação.

No final do ano passado, Dilma recebeu de Lula um relatório da Defesa com avaliação dos modelos F-18, Rafale e Gripen e pediu ajuda na avaliação do tema a outros ministérios, sob a justificativa de que quer discutir melhor os benefícios deste projeto para o desenvolvimento não só para a aviação militar, mas também para a aviação civil. A Embraer, por exemplo, quer ser beneficiada com o projeto e trabalha no governo para isso.

Nos bastidores, Jobim tentou desvincular o projeto de compra dos caças do debate do corte orçamentário. Ele lembrou que, em 2016, começa a vencer o ciclo de vida útil dos Mirage-2000 e que para os novos caças terem chegado até lá, precisam ser encomendados o quanto antes.

Jobim argumentou ainda que o projeto FX-2 só terá impactos financeiros a partir de 2012. O Planalto, porém, entende que não é apropriado discutir compra de caças num momento em que ministros reclamam dos orçamentos cortados.

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