Neto Lucena/Secom Acre
Neto Lucena/Secom Acre

Com enchente, surto de dengue e covid-19, Acre chega ao 6º dia em situação de emergência

Cheias afetaram mais de 130 mil pessoas; governo estadual teme isolamento por via terrestre com persistência da chuva nos próximos dias

Priscila Mengue e Leonardo Augusto, especial para o Estadão

21 de fevereiro de 2021 | 11h31
Atualizado 21 de fevereiro de 2021 | 11h59

O Acre chegou ao sexto dia do decreto de situação de emergência neste domingo, 21, em meio a um cenário de enchente recorde, surto de dengue, pandemia da covid-19 e crise migratória na fronteira com o Peru. Pelo menos 130 mil pessoas foram atingidas pelas cheias dos rios e, segundo a Defesa Civil.

A situação preocupa o governo diante da previsão de chuva intensa para a próxima semana em meio a um período de cheias, conhecido como “inverno amazônico”, o que poderia causar até mesmo o isolamento estadual por vias terrestres, especialmente na BR-364, que responsável pela ligação com Rondônia e o restante do País. Localmente, a situação já é considerada uma das mais graves da história do Acre. 

Em vídeo publicado pelo senador Marcio Bittar (MDB) em rede social neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que visitará o Acre na quarta-feira, 24. "Sabemos dos problemas, estamos agindo e, na próxima quarta-feira, se Deus quiser, estaremos lá", disse. 

No caso das cheias, ao menos dez municípios foram atingidos, incluindo a capital, Rio Branco. Os demais são: Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Tarauacá, Sena Madureira, Santa Rosa do Purus, Porto Walter, Feijó, Jordão e Rodrigues Alves. A enchente também afetou plantações ribeirinhas, causando prejuízos.

Na capital, o Rio Acre chegou a 15,77 metros na quarta-feira, 17, dois metros acima do nível de transbordamento, atingindo ao menos dez bairros. Em Tarauacá, estima-se que 90% do município foi afetado pela cheia do rio de mesmo nome. Já em Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves, o nível do rio Juruá é considerado o maior já registrado.

Em Cruzeiro do Sul, o total de famílias desalojadas na cidade é de 1.175. Outras 179 estão desabrigadas. As famílias atingidas direta ou indiretamente pela cheia do rio somam 28.335. Em Rio Branco, há pelo menos 93 desabrigados, que foram levados para estruturas no parque de exposições da cidade.

O governo do Acre afirma que a Defesa Civil do estado providenciou abrigos, tendas de acolhimentos, retirada de famílias das áreas atingidas, distribuição de alimentos, produtos de higiene e água potável e monitoramento do sistema elétrico. O governo afirma estar enfrentando "um dos maiores desafios de sua história", lidando "ao mesmo tempo, com o agravamento da pandemia do novo coronavírus, surto de dengue, crise migratória com o Peru e transbordamento de rios".

Em relação à pandemia, o Estado também está em nível de emergência (cuja classificação local é a cor vermelha) desde 1º de fevereiro, com reavaliação prevista para esta segunda-feira, 22. O governo Gladson Cameli (PP) já fala em temor por um possível colapso do sistema de saúde. 

No balanço de sábado, a Secretaria de Estado de Saúde registrou 181 novos casos de coronavírus em 24 horas, chegando a um total de 54.743, dos quais 24.552 estão concentrados na capital. Outros 680 estão em análise. No mesmo período, foram registrados seis novos óbitos, o que elevou para 957 o registro de mortes desde o início da pandemia.

No sábado, o Estado estava com 357 pacientes internados com Síndrome Respiratória Aguda Grave, dos quais 278 tinham teste positivo para covid-19. Na rede de referência do Sistema Único de Saúde (SUS), a ocupação é de 91,1% nas UTIs e de 85% nos leitos clínicos. A média é ainda mais alta em alguns hospitais de referência, como o Geral de Clínicas de Rio Branco, que estava com 96% de ocupação no último balanço.

Ainda no setor sanitário, o Acre enfrenta um surto de dengue. Segundo o governo, cerca de 80% dos atendidos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Rio Branco são de pacientes com a doença. Na capital, há 8,6 mil casos suspeitos e 1,5 mil confirmados.

O Acre enfrenta ainda uma crise migratória na fronteira com o Peru. Cerca de 450 imigrantes, a maioria do Haiti e da Venezuela, estão acampados nas proximidades da Ponte da Amizade desde o dia 13. Eles reivindicam o retorno para os países de origem, o que não é possível por causa do fechamento de fronteiras motivado pela pandemia. “A retenção dos estrangeiros em Assis Brasil preocupa autoridades e moradores do município com um possível aumento nos casos de coronavírus”, alertou o governo estadual.

No sábado, o Estado lançou uma campanha para pedir doações de itens essenciais, como colchões e cestas básicas, na qual destaca: "O Acre precisa agora de todo o Brasil". Nas redes sociais, a hashtag #SOSACRE chegou a ficar entre as mais compartilhadas nos últimos dias.

Em uma rede social, o governador  respondeu a publicação do DJ Alok, que perguntava sobre como poderia ajudar o estado. Cameli afirmou que há necessidade de "cestas básicas, colchões etc". "As pessoas perderam tudo", disse.

Técnicos da Defesa Civil Nacional estão no Acre para auxiliar autoridades na elaboração de pedidos de reconhecimento de situação de emergência e na solicitação de recursos federais para atendimento aos atingidos e recuperação de estruturas. Na sexta-feira, 19, o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Lucas, esteve em cidades do estado atingidas pelas inundações e classificou a situação como caótica.

"Os rios estão subindo e vários bairros estão completamente alagados, com pessoas sofrendo e fora das suas casas, precisando de apoio da Defesa Civil Nacional. Realmente, é uma situação muito caótica. Vamos auxiliar a população e as equipes do Acre a enfrentar essa situação", declarou, durante a visita.

 

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