Com fim do gatonet no Batam, maior queixa é não ter canais de sexo e futebol

Ficar livre do tráfico ou das milícias tem seu preço e os moradores da Favela do Batam, na zona oeste do Rio, estão dispostos a pagar. "O pobre tem orgulho de ter o nome limpo. Ele gosta de pagar suas contas como qualquer cidadão", diz Wolney Francisco de Paula, tenente do Bope que assumiu a Associação de Moradores depois que a milícia foi expulsa, em julho.Wolney mora ali há 26 anos. Foi alçado ao cargo com apoio do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, que virou o anjo protetor dos 40 mil moradores do lugar. Foi no Batam que uma equipe do jornal O Dia foi torturada por sete horas, em maio de 2008. Os milicianos foram presos e, desde então, a polícia mantém ali 50 policiais, 24 horas por dia.O primeiro sinal de que a comunidade queria viver na legalidade veio quando a milícia ainda mandava por lá. Ao estourar o cativeiro dos jornalistas, a polícia destruiu a central clandestina da TV a cabo. A milícia ainda tentou reorganizar o serviço, mas os moradores se recusaram a aderir. "Naquela hora, eles optaram pela legalidade", orgulha-se Wolney. Logo depois, a NET foi convidada a fornecer o serviço. Surgiu então o primeiro problema. No gatonet eram 34 canais por R$ 25. O sinal chegava a todos os cantos da comunidade. No pacote NET para o Batam são 25 canais por R$ 29,90 e a transmissão só atinge as ruas principais. Moradores nem reclamaram do preço, mas acharam um absurdo perderem o direito ao Telecine Pipoca, ao SporTV e ao Sexy Hot. "Tentamos negociar, mas não teve jeito", lamenta Wolney. A estimativa era de que 500 moradores assinariam o pacote, mas só houve 200 inscrições. Sem os canais campeões de audiência na favela, o número caiu para 175. Wolney continua negociando com a NET e tenta incluir banda larga no pacote.Por enquanto, moradores e lan houses utilizam o veloxgato (R$ 40 mensais). "Eu queria pagar para a Oi, mas eles disseram que aqui no Batam não têm condições de oferecer o serviço", lamenta Vagner Soares.Quem paga o maior preço pela legalidade no Batam é Wolney. É obrigado a ouvir reclamações de moradores insatisfeitos com a TV a cabo e, pior, recebeu ameaças de morte de grupos ligados aos milicianos. Agora, anda com segurança 24 horas por dia. Mas é recompensado aqui e ali pelos moradores. "Pela primeira vez tivemos um Natal e um réveillon sem tiros", conta, orgulhoso.

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