Com histórico de vítima, jovem reproduz as agressões no filho

Criança de 1 ano de idade foi encaminhada para abrigo

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

17 Fevereiro 2009 | 00h00

Conversar com a paulistana Luzia (nome fictício) é quase impossível. Ela recusa-se a olhar nos olhos e economiza palavras. "Não sei" e "sei lá" saem de sua boca aos montes. Aos 25 anos, Luzia tem quatro filhos - de três pais diferentes - e, há seis meses, mora em um abrigo para vítimas de violência, no bairro do Belém, zona leste, com outras 39 mulheres e 30 crianças. Dois dias antes de parar lá, após um conflito com a mãe - que terminou com a intervenção de policiais e um boletim de ocorrência -, apanhou o filho mais novo, de 1 ano, e fugiu de casa. Depois de uma noite na rua, foram encaminhados pelo Conselho Tutelar para o abrigo. O histórico era trágico. Os filhos mais velhos - de 6 e 12 anos - vivem com o pai, na Bahia. Ela se envolveu com outro homem e engravidou de mais um filho, hoje com 3 anos. Luzia apanhava, deixou o companheiro, voltou a viver com a mãe. Em casa, atritos permeavam o relacionamento. Nas discussões, descambavam para agressões físicas. Luzia decidiu abandonar filho e mãe. Foi para um albergue. Conheceu outro homem - o pai do caçula. Viveu com ele outra tragédia. Apanhava tanto que decidiu voltar a morar com a mãe, que não aceitou a ideia de ter a filha de volta com mais um bebê. Novas brigas resultaram na intervenção policial e numa noite dormida nas ruas de São Paulo. De acordo com os funcionários do abrigo, quando Luzia chegou - "toda machucada, de tanto que apanhava" - parecia ser amorosa com Pedro (nome fictício). Três meses depois, o menino apareceu com hematomas. "Ela disse que o menino tinha caído, mas os médicos diagnosticaram que isso não poderia ser verdade", diz uma assistente social. Os funcionários, então, ficaram atentos. Flagraram Luzia agredindo Pedro. "Ela batia com o que estivesse à mão", lembra a assistente. Há um mês, o menino foi encaminhado a um abrigo destinado exclusivamente a crianças. Luzia fala pouco - e muitas vezes de forma incoerente. Não tem contato com a família. Diz que "é chato" viver no abrigo. "Aqui só como, bebo e durmo", afirma. Deixou claro que não sente falta de nenhum dos filhos. Luzia recebe acompanhamento psicológico para tentar superar os traumas e, quem sabe, um dia reencontrar seu caminho, seus filhos, sua vida.

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