Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Com imigração venezuelana, Boa Vista vive problemas de metrópole

Imigrantes passaram a morar em praças sem acesso a banheiros nem água potável, lotar semáforos pedindo esmola ou vendendo alimentos e tomar calçadas com barracas

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Cidade com a segunda menor população entre as capitais brasileiras, Boa Vista não estava acostumada, até pouco tempo, a cenas comuns das grandes metrópoles. Município pacato de 332 mil habitantes, arborizado, com bairros planejados e avenidas amplas, a capital de Roraima viu essa realidade começar a mudar no ano passado, com a chegada de milhares de venezuelanos que fugiam da crise econômica no país vizinho.

O resultado desse movimento, intensificado em 2018, foi o aumento relâmpago de 10% na população de Boa Vista em apenas um ano. Se os cerca de 40 mil imigrantes que vivem atualmente na capital roraimense formassem uma cidade, ela já seria a segunda maior do Estado.

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Sem condições de comportar tal fluxo migratório, Boa Vista não tem conseguido dar tratamento digno aos vizinhos sul-americanos. Com dificuldades para obter um emprego, os venezuelanos passaram a morar em praças públicas sem acesso a banheiros nem água potável, lotar semáforos pedindo esmola ou vendendo alimentos e tomar calçadas com barracas ou comércios improvisados – todas situações até então raras no município. Uma minoria também começou a se prostituir ou praticar crimes, trazendo degradação e insegurança a alguns bairros.

Vítimas da falta de alimentos e remédios em seu país, os venezuelanos protagonizam ainda disputa por restos de comida em restaurantes de Boa Vista e lotam hospitais e postos de saúde em busca de tratamento médico. O quadro dramático divide a opinião de moradores da cidade. Parte defende que a fronteira seja fechada, como solicitado pelo governo do Estado ao Supremo Tribunal Federal. Outros alertam que os estrangeiros estão sendo as maiores vítimas da falta de estrutura já existente nos serviços públicos. 

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“É verdade que em Boa Vista a gente não via mendigo em sinal, não via gente parando os carros para limpar para-brisas, não tinha tanto assalto. Mas os venezuelanos também estão sendo bodes expiatórios”, diz o taxista Edmilson Machado Gusmão, de 55 anos, que mora na cidade há 25. “A maioria deles só quer comida e um emprego. São poucos os que fazem coisa errada e todos levam a fama. É uma situação difícil porque eles saíram de lá para não morrer de fome.

Fronteira. A governadora de Roraima, Suely Campos (PP), se encontrou na quinta-feira com a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), relatora da ação em que o Estado pede o fechamento temporário da fronteira. "A nossa audiência teve uma preocupação em relatar pessoalmente à ministra as condições em que Roraima se encontra”, disse ao Estado.

Em despacho do dia anterior, Rosa deu 30 dias para a União se manifestar sobre a ação e para um eventual encaminhamento à Câmara de Conciliação e Arbitragem Federal da Advocacia-Geral da União (AGU). O presidente Michel Temer, porém, já veio a público para afirmar que o bloqueio da fronteira é “incogitável”. Dentro do governo, várias autoridades também consideram qualquer negociação inviável, por violar uma série de tratados internacionais. 

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Em barraca ou abrigo, rotina de venezuelanos em Roraima é de abandono

Com os cinco abrigos de Boa Vista superlotados, imigrantes foram montando, nos últimos meses, barracas improvisadas nas praças, mas não contaram com a ajuda do poder público

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Na entrada da Praça Simon Bolívar, uma placa traz, em espanhol, a mensagem aos visitantes: Bienvenidos a Boa Vista. Para os mais de mil venezuelanos alojados no local, porém, a sensação não é de acolhimento. Com os cinco abrigos da cidade superlotados, os imigrantes foram montando, nos últimos meses, barracas improvisadas nas praças, mas não contaram com a ajuda do poder público.

Com o crescimento da ocupação nas últimas semanas, a Prefeitura de Boa Vista decidiu, no início de abril, instalar tapumes ao redor da praça para separar os venezuelanos dos que passam nas avenidas vizinhas. Não viu necessidade, no entanto, de instalar banheiros químicos ou oferecer água aos refugiados.

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Ao mesmo tempo, os comércios vizinhos à praça passaram a impedir o uso do vaso sanitário aos imigrantes ou cobrar até R$ 3 para cada utilização. Também fecharam o registro das torneiras para que os venezuelanos não peguem água para tomar banho ou lavar roupas. “Se a gente não tem dinheiro nem para comer, imagina pagar R$ 3 cada vez que precisarmos ir ao banheiro”, diz a cabeleireira Luiziana Milagros Medina, de 31 anos, que vive com o marido e o filho de 4 anos no local.

Diante da situação, os venezuelanos procuram matagais próximos para urinar ou defecar e andam mais de dois quilômetros até o Rio Branco para tomar banho ou lavar roupas. “A gente vem (ao rio) porque não tem outra opção, mas aqui é sujo. Estamos tomando banho ao lado até de animais mortos”, conta o mecânico Luiz Henrique Marques, de 29 anos, apontando para o esqueleto de um cachorro na margem do rio, a poucos metros de onde um grupo de venezuelanos tomava banho e enchia garrafas para levar para a praça onde vivem.

O medo dos imigrantes agora é que a situação de moradia se agrave ainda mais com a chegada das chuvas. No inverno de Roraima, os temporais são severos. Na segunda-feira, uma chuva forte deixou a praça e as barracas alagadas. “Na Venezuela, estávamos morrendo de fome. Mas também não dá para morar desse jeito aqui. Com a chuva e a sujeira em que vivemos, eu, meu  marido e meus filhos estamos com gripe, diarreia, vômitos. Estamos até pensando em voltar para nosso país”, diz Eudinelis Guzman, de 32 anos.

De acordo com a prefeitura de Boa Vista, a presença de imigrantes nas praças é “uma situação provisória até que eles sejam deslocados para abrigos”. Destacou que vistoria diariamente os locais e, por serem espaços abertos e públicos, não é possível fazer “qualquer intervenção no momento”.

Exército. Nos cinco abrigos da cidade, todos sob coordenação do Exército, a oferta de barracas, refeições e banheiros torna a situação dos imigrantes um pouco melhor, mas isso não significa comodidade. Os locais também têm problemas. A pior situação é a do abrigo do bairro Pintolândia, que acolhe apenas venezuelanos indígenas.

O local tem capacidade para 370 pessoas, mas recebe atualmente 715 indígenas. No local, onde centenas de redes e barracas disputam espaço, crianças brincam em um terreno de terra com sujeira e restos de alimentos. Muitos chegam da Venezuela doentes. Na última semana, oito crianças moradoras do abrigo estavam internadas em Boa Vista com quadros de desnutrição ou problemas respiratórios. “Aqui pelo menos a gente vive um pouco melhor do que na Venezuela. Lá não tem comida, remédios, fraldas”, diz a indígena Glady Moreno, de 29 anos. O Exército informou que abrirá outros quatro abrigos na cidade.

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Trabalho informal avança em Boa Vista e cria 'feira' de imigrantes

Ruas do entorno de abrigo para venezuelanos viraram uma espécie de feira ao ar livre, com venda de alimentos e cigarros e prestação de serviços.

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Ao som de salsa e reggaeton, o cabeleireiro venezuelano Leonardo Vivas, de 27 anos, corta o cabelo de um conterrâneo em uma barbearia improvisada montada na calçada do abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista. As ruas do entorno viraram uma espécie de feira ao ar livre de venezuelanos, com venda de alimentos e cigarros e prestação de serviços.

O trabalho autônomo foi a opção encontrada por imigrantes que não conseguem emprego na capital de Roraima. Alguns vendem os poucos itens que trouxeram da Venezuela, como cigarro, farinha e biscoitos. Outros, como Vivas, reproduzem o ofício que tinham no país de origem. “Trabalhava desde os 15 anos como cabeleireiro em Caracas. Trouxe os equipamentos e estou aqui fazendo o mesmo: corte, sobrancelha, tintura”, conta ele, que cobra R$ 7 pelo corte, mas, diante da necessidade de sobreviver no Brasil, aceita fazer o serviço em troca de produtos. “Já aceitei camisas e outros itens”, conta. A clientela é formada pelos próprios imigrantes, que, com baixa renda, buscam serviços com preços mais acessíveis.

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Do outro lado da rua onde Vivas trabalha é possível encontrar outra barbearia, mais barracas vendendo alimentos e um ponto de conserto de celulares e computadores. “Tenho carteira de trabalho desde o ano passado, mas não consigo emprego. O jeito é trabalhar por conta”, afirma Juan Hernandez, de 25 anos.

Outra mudança no mercado de trabalho de Boa Vista trazida pela imigração foi a redução no valor das diárias pagas a profissionais autônomos. Com muita mão de obra barata disponível, empregadores estão oferecendo condições precárias de trabalho, com valores de R$ 10 para um dia de trabalho em fazenda ou de R$ 20 a R$ 30 para a diária de um pedreiro – quando a média para esse tipo de serviço entre brasileiros é de cerca de R$ 100.

Outro problema é a demora na emissão de documentos, com a chegada de um grande contingente de imigrantes. “Solicitei residência em fevereiro e só consegui agendar para maio a emissão da Carteira de Trabalho”, afirma Osvaldo Mendoza, de 35 anos.

 

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Prostituição vira opção para imigrantes venezuelanas em Roraima

Na Venezuela, elas deixaram família e trabalho; nas ruas de Boa Vista, usam agora o sexo como sustento

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Com dois filhos pequenos para criar e grávida do terceiro, a atendente de loja Silvia (nome fictício), de 24 anos, viajou da Venezuela para o Brasil no mês passado em busca de um emprego e de uma fonte de renda que permitisse a ela enviar dinheiro à família. Ao chegar a Boa Vista, o que encontrou foram milhares de conterrâneos desempregados e nenhuma oportunidade. Foi então que passou a fazer parte do grupo de centenas de jovens venezuelanas que, sem emprego, começaram em 2017 a se prostituir nas ruas da capital de Roraima.

As garotas de programa estrangeiras se concentram no bairro Caimbé, principalmente na Rua Leôncio Barbosa, que passou a ser chamada pelos moradores da cidade de Rua Ochenta (oitenta, em espanhol), em referência ao valor médio cobrado por uma hora de programa com as venezuelanas. Há, porém, aquelas que, por desespero, cobram de R$ 30 a R$ 50.

Nas duas visitas que fez ao local, uma no período da noite e outra de dia, a reportagem do Estado contou dezenas de mulheres. A maioria aparentava 20 e poucos anos e estava distribuída pelas diversas esquinas.

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Moradores contam que a presença de garotas de programa nas calçadas se intensificou com o aumento da imigração venezuelana na cidade. Antes, dizem eles, duas ou três casas noturnas do bairro reuniam garotas de programa brasileiras, mas elas trabalhavam apenas dentro dos estabelecimentos. “Agora são dez quarteirões tomados. Tem gente que faz sexo ao ar livre, tem tráfico de drogas. Minha mulher e minhas filhas não podem sair na rua porque são confundidas com prostitutas. A gente está preso dentro da própria casa”, diz um servidor público de 48 anos que mora no bairro há 12.

Medo. Amiga de Silvia, Jessica (nome fictício), de 29 anos, confirma que praticamente todas as jovens que trabalham na rua são venezuelanas, mas conta que a condição de imigrante traz mais insegurança a elas. “Tem clientes que são agressivos, que nos xingam, que não querem pagar. Sabem que estamos com menos direitos aqui”, comenta ela, que era professora na Venezuela. Assim como muitas jovens, Silvia deixou uma criança em seu país.

Diante da insegurança, as venezuelanas tentam criar uma rede de proteção. Silvia e Jessica moram em uma casa alugada com outras oito garotas de programa. Cada uma paga cerca de R$ 100 por mês por uma cama em quartos coletivos. Elas também têm uma espécie de convênio com uma pousada do bairro para onde costumam ir com os clientes. “A gente nunca aceita ir para a casa deles, é muito perigoso. E na pousada, os donos conhecem a gente e brigam com os clientes que não querem pagar”, diz Silvia.

No caso dela, a condição de imigrante ainda trouxe outro receio: o de ser deportada caso busque um serviço de saúde para o acompanhamento da gravidez. “Preciso começar o pré-natal porque não fiz nenhum exame ainda, mas tenho medo de procurar um hospital e descobrirem que não tenho documentação correta”, diz ela. Os postos de saúde brasileiros, porém, estão prestando atendimento independentemente da condição do imigrante.

Silvia e Jessica fazem companhia uma a outra durante as cerca de 12 horas que passam na rua à espera de clientes. O movimento de carros, embora intenso, não indica muita oferta de trabalho. Com a grande concorrência de profissionais na rua, as jovens contam que fazem no máximo dois programas por dia. Elas dizem que pretendem, assim que possível, encontrar outro tipo de trabalho, para poder deixar as ruas de Boa Vista. “A verdade é que me sinto horrível fazendo isso, mas quando vejo que aquele dinheiro vai comprar comida para o meu filho na Venezuela, a sensação é um pouco melhor”, conclui Jessica.

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Imigrantes venezuelanos disputam até restos de comida em Roraima

Pelo menos três restaurantes de Boa Vista distribuem marmitas com sobras do almoço para distribuir a estrangeiros

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Por volta das 15 horas, a maioria dos restaurantes de Boa Vista que têm serviço de self-service já está fechada, mas, nas últimas semanas, filas de até 50 pessoas se formam na porta dos estabelecimentos perto desse horário. Não são clientes comuns, mas sim venezuelanos famintos à espera de sobras.

Com a chegada de mais refugiados à cidade e a falta de vagas em abrigos, os que vivem em praças começaram a buscar alternativas para comer. Inicialmente, ONGs e igrejas entregavam refeições nos espaços, mas, com o aumento do fluxo migratório, a oferta não tem sido suficiente para todos.

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Pelo menos três restaurantes da cidade passaram, então, a fazer marmitas com as sobras do almoço para distribuir aos estrangeiros. Assim que os comércios abrem as portas para entregar os restos, dezenas de imigrantes, alguns com crianças de colo, se espremem para conseguir pegar uma marmita. “É triste porque na Venezuela tínhamos profissão, casa, carro. Vir para outro país e passar por isso é humilhante. A gente só queria um trabalho para poder pagar pela nossa comida”, diz Alfredo Rafael, de 43 anos.

 

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Crime cresce em Boa Vista e imigração de venezuelanos leva a culpa

Entre 2015 e 2017, o número de boletins registrados na capital de Roraima passou de 7.929 para 15.266, dos quais apenas 63 tiveram os imigrantes como autores

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Com o aumento da população, Boa Vista viu o número de ocorrências criminais dobrar. Mas apenas 0,5% dos crimes foi cometido por venezuelanos, segundo a Polícia Civil. Entre 2015 e 2017, o número de boletins registrados na capital de Roraima passou de 7.929 para 15.266, dos quais 63 tiveram os imigrantes como autores. Os crimes mais comuns foram lesão corporal, furto e roubo.

A impressão entre a população de Boa Vista, no entanto, é de que são os venezuelanos que estão trazendo mais criminalidade à cidade. A crença é reforçada por crimes violentos praticados por imigrantes, como a tentativa de assalto e esfaqueamento da comerciante Damiana Marques, de 59 anos.

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Um venezuelano que frequentava seu mercadinho para fazer recargas de celular um dia tentou roubá-la. Mesmo sem reagir, a mulher foi esfaqueada no braço e nas costas e ficou em estado gravíssimo por causa dos ferimentos. “Perdi muito sangue, fiquei três dias na UTI e ainda vivo com medo até hoje porque ele nunca foi preso”, afirma ela, que instalou grade na porta do comércio após o episódio, ocorrido em junho do ano passado.

Agora, os clientes só podem fazer compras por meio de uma janelinha. “Não sou contra ajudar os imigrantes, mas nós, brasileiros, não podemos ficar esquecidos.”

 

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Sem dinheiro, venezuelanos percorrem 200 km a pé da fronteira até Boa Vista

Falta de recursos para comprar passagem de ônibus de Pacaraima até a capital de Roraima leva imigrantes a andarem por até cinco dias na BR-174 sob sol forte e dormirem no acostamento

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2018 | 05h00

PACARAIMA (RR) - O salário de ajudante de cozinha que Cristóbal Guerra recebia no fim do mês mal dava para garantir dois dias de comida para ele e os quatro filhos. Castigado pela hiperinflação e pelos preços exorbitantes que assolam seu país, o venezuelano de 38 anos juntou o pouco dinheiro que tinha e comprou, na última semana, uma passagem de ônibus para Pacaraima, município de Roraima que faz fronteira com a Venezuela. Sua intenção era chegar à capital do Estado, Boa Vista, a 215 quilômetros da fronteira, onde acreditava que teria mais chances de conseguir um emprego. 

Ao desembarcar no território brasileiro, depois de quase 24 horas de viagem, Guerra trocou os bolívares (moeda venezuelana) que ainda lhe restavam por reais para comprar o bilhete para Boa Vista. Descobriu que todo o patrimônio que tinha se transformara em R$ 24, insuficiente para pagar os R$ 30 da passagem.

Pegou, então, sua mala e decidiu fazer os 215 quilômetros a pé. “Não podia ficar parado esperando uma solução. Preciso logo de um emprego e a única saída era caminhar”, conta. O Estado o encontrou quando já havia percorrido 60 quilômetros na BR-174, que liga as duas cidades brasileiras. Ele já estava na estrada há um dia e meio. “Com sorte, consigo chegar à Boa Vista com mais dois dias de caminhada”, diz. 

Assim como Cristóbal, dezenas de venezuelanos faziam o percurso a pé na última quinta-feira, quando a reportagem esteve no local. Debaixo de uma temperatura de 34°C nos momentos mais quentes do dia, eles caminham somente com uma pequena mala ou mochila, sem comida na bagagem nem protetor solar na pele. Para agilizar o trajeto, alguns tentam uma carona, mas poucos eram atendidos. A viagem, que de carro leva três horas, costuma durar de quatro a cinco dias a pé.

No período da noite, os estrangeiros dormem em comunidades indígenas nas margens da estrada ou estendem um lençol no acostamento da rodovia. Em alguns trechos mais estreitos da BR-174, porém, nem acostamento existe e os imigrantes pernoitam no meio da mata.

Era em um desses cenários que o mecânico Francisco da Encarnación, de 31 anos, descansava com os dois irmãos, a mulher e a filha de 1 ano. Os cinco saíram da cidade de Barcelona, norte da Venezuela, para buscar uma chance de trabalho no Brasil, mas, ao chegarem aqui, também não conseguiram arcar com os custos da passagem de Pacaraima a Boa Vista.

“Sabíamos que R$ 1 valia 34 mil bolívares, mas, quando chegamos na fronteira, estavam cobrando 70 mil bolívares por R$ 1, então ficamos com pouco dinheiro”, conta. Na mala, a família havia trazido 6 milhões de bolívares, o que, no câmbio de moedas, transformou-se em R$ 85. Após comprarem comida só restaram R$ 20, insuficientes para a passagem. “Esperamos conseguir pelo menos uma carona para minha mulher e minha filha. Não é fácil fazer esse trajeto, imagina com uma criança no colo”, diz ele.

Fluxo. A cada dia, mais venezuelanos entram no País por Pacaraima. Às 7 horas de todas as manhãs, o posto da Polícia Federal no município já acumula mais de cem pessoas na fila. Segundo agentes da PF, mais de 700 imigrantes estão cruzando a fronteira diariamente, a maioria com destino a Boa Vista – ontem, o Estado mostrou que a capital já reúne mais de 40 mil refugiados. Com os centros de acolhida superlotados, a maioria vive em praças públicas sem acesso a água nem banheiros. 

A maioria dos venezuelanos que atravessa a fronteira, no entanto, tem pouca ideia do caos que está na capital de Roraima. Para eles, que nos últimos meses viram parentes morrerem de fome, chegar a um país onde é possível comer já é uma grande vitória.

 

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