JF Diorio
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Com mobilidade reduzida, moradores preferem ficar em área de risco

Em Barão de Cocais, o risco de rompimento de uma barragem motivou uma rede de apoio para quem tem dificuldade de andar e permaneceu na cidade; 'Deus cuida de nós', diz aposentada

Felipe Resk, enviado especial a Barão de Cocais

24 de maio de 2019 | 04h00

Sem conseguir se levantar sozinha de uma cama de solteiro, o lençol cobrindo do pescoço à ponta dos pés, a aposentada Efigênia Quirino Fonseca, de 88 anos, faz todos os dias a mesma pergunta à sobrinha: "A lama já desceu?".

Efigênia é uma senhorinha de cabelos brancos e nariz proeminente, que precisa de ajuda para executar tarefas simples, como andar ou tomar banho. Moradora de uma área inundável, às margens do Rio São João, em Barão de Cocais (MG), no entanto, ela faz parte de um grupo de pessoas com mobilidade reduzida que preferiu permanecer em suas casas, mesmo com risco de rompimento da barragem Sul Superior, na mina de Gongo Soco.

Casos como o dela têm inspirado familiares e vizinhos a prestar ajuda aos afetados pelo possível desmoronamento – que tem previsão de atingir quatro povoados e chegar, 1 hora e 12 minutos depois –, a outros nove bairros da cidade, atuando como uma espécie de "padrinho". A eles cabem, por exemplo, o compromisso de acompanhar o grupo de perto, caso seja necessário evacuar as áreas alagáveis.

"Eu cuido dela há 22 anos, ela chegou a ser levada para outra área mas achei que não estava recebendo a ajuda necessária", diz a sobrinha Elizabete Andrade, de 67 anos. A tia também prefere: "Quero ficar aqui. Deus cuida de nós" 

Na casa, também vive um irmão, um filho adotivo e dois vira-latas. Nascida no bairro de Vila São Geraldo, onde vive até hoje, Elizabete não esconde o medo de a barragem romper. "Agora mesmo bebi um copão de água com açúcar", conta. "Se for preciso, eu carrego ela nas costas."

Desde que a suspeita sobre a barragem se espalhou, a aposentada Marlene Castro, de 63 anos, não sai da casa dos pais, ambos idosos e hipertensos. "Meu pai não quer sair de jeito nenhum. Minha mãe fica preocupada, não dorme direito, mas diz que, se ele não vai, ela também nao vai", afirma. "Não sou eu que vou deixá-los sozinho."

Embora a calçada de casa tenha sido pintada de laranja, sinal de área de risco, o pai, Raimundo de Castro, de 88 anos, diz não acreditar que o mar de lama avance contra o centro de Barão de Cocais. "Se chegar aqui, eu subo naquele barranco", diz, apontando para um montinho do outro lado da rua.

A Defesa Civil de Minas mapeou residências com pessoas mobilidade reduzida, a prefeitura fez cadastros e a Vale pagou para transferir os interessados para hotéis ou casas alugadas. Treze cadeirantes foram removidos, além de moradores idosos ou doentes. 

Aos 80 anos, a aposentada Edna Braga achou melhor nem procurar ajuda. "Tô tranquila, minha sacolinha já está pronta com roupa, documentação e um álbum de foto", diz. Viúva, ela teve três filhos, mas só um continua vivo – a última perda foi no ano passado. "Minha filha foi embora e a vida depois ficou assim, né, moço... A gente aceita as coisas como Deus quer."

Uma vizinha tem telefonado todos os dias para saber se Edna está informada sobre a barragem e em condições de seguir alguma rota de fuga, se for preciso. "Ela está cuidando muito bem de mim", diz.

Por causa dos "resistentes", a prefeitura criou um programa de "apadrinhamento" entre os moradores. Até o momento, há 17 inscritos, segundo a administração municipal. "Essas pessoas que não quiseram sair foram procuradas uma a uma", afirmou o prefeito Décio Geraldo dos Santos (PV). "Então, em caso de rompimento, há pessoas específicas – um parente, por exemplo – que vai sair à procura dessa pessoa."

"Eu estou preparado para sair de carro", diz o aposentado Irineu Rosa, de 86 anos, morador de uma rua alagável. Em casa, mantém roupas encaixotadas para a hipótese de precisar abandonar tudo às pressas.

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