Com motocicletas, médicos temem ganhar problema

Para representantes da categoria, atenção da equipe deve estar focada na realização do salvamento

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2008 | 00h00

Médicos repetem a frase "rapidez é essencial" como se fosse um mantra. Na parada cardíaca, por exemplo, a pessoa precisa ser atendida em até quatro minutos - cada minuto que ultrapasse isso reduz em 10% a chance de ela sair com vida. Não é por menos que, segundo estudo da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, a taxa de sobrevivência de uma pessoa com parada cardíaca na capital gira em torno de 1% e 2%. Ainda assim, apesar dos números nada favoráveis e da possibilidade de ganhar preciosos minutos em cima de uma moto, os mesmos médicos que prezam a velocidade do atendimento demonstram um pé atrás com a idéia da "motolância"."Esse projeto do Ministério da Saúde é absolutamente contestável, não temos certeza de que dará o resultado esperado", diz o médico endocrinologista Otelo Chino Junior, secretário-geral do Sindicato dos Médicos de São Paulo. "É uma faca de dois gumes, pois com certeza vai trazer risco aos profissionais. O médico precisar estar 100% focado no salvamento. Por que o médico não dirige a ambulância? Porque ele precisa prestar atenção no trabalho dele. Isso vale para médico, paramédico, enfermeiro, o que seja. Acho até válido fazer um plano piloto, testar essas motos por cerca de um mês, e depois decidir se realmente vale a pena continuar."GPS NAS AMBULÂNCIASO próprio coordenador de Regulação Médica do Samu de São Paulo, Domingos Guilherme Napoli, vê o projeto com ressalvas. "É muito fácil ter a idéia e distribuir motos, o difícil é implantar", diz. "Fizemos uma pesquisa e menos de meia dúzia de médicos disseram que pilotariam motos de resgate. Napoli afirma que há outras maneiras de diminuir o tempo de resgate sem apelar às motolâncias, mas que exigem mais verba. Uma delas é aumentar o número de bases espalhadas pela cidade. Outra sai do papel na semana que vem - será aberta licitação para equipar as 137 ambulâncias com GPS, laptop e um sistema online para facilitar a vida da central e dos motoristas. Enquanto as telefonistas poderão ver na tela do computador onde estão todas as unidades, os motoristas terão indicações do caminho e poderão saber quais ruas estão congestionadas. "Com isso, acredito que iremos diminuir o tempo de atendimento pela metade", diz Napoli. Sem motos ou GPS, o tempo médio de atendimento do Samu caiu de 35 para 18 minutos de 2005 para 2008. Ainda assim, a recomendação internacional é de que as ambulâncias demorem no máximo de 10 a 12 minutos. "Tudo é válido e importante para tentar chegar mais rápido. Se quiserem me dar motos, ótimo, vou aceitar, claro. Mas é preciso estudar os passos com cuidado para não termos um problema ainda maior em nossas mãos." NÚMEROS137 ambulâncias fazem o atendimento do Samu em São Paulo55 ambulâncias atendem o 193 dos Bombeiros10% é a redução de chance de sobrevivência a cada minuto que passa de uma pessoa com parada cardíaca18 minutos é o tempo médio de atendimento do Samu em 2008. Em 2005, o tempo médio era de 35 minutos. Ainda assim, a recomendação internacional é de que as ambulâncias devam demorar, no máximo, de 10 a 12 minutos7 minutos é a demora média de uma ambulância dos bombeiros no trânsito em São Paulo. Nos horários de rush, esse tempo salta para até 40 minutos 1% a 2% é a taxa de sobrevivência de uma pessoa com parada cardíaca na capital, segundo a Sociedade de Cardiologia do Estado

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