Com onda de assaltos, Morumbi está sob toque de recolher informal

Moradores do bairro estão acuados pela ação freqüente de ladrões

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

21 Agosto 2008 | 00h00

Toque de recolher informal, tiros nas ruas, moradores baleados, média de uma casa assaltada a cada dois dias, taxistas que não entram no bairro, população refém do medo. O cenário não é de periferia, mas do Morumbi. Esse cenário fez com que a Secretaria da Segurança Pública se reunisse, em caráter de emergência, com os moradores. Procurada pela reportagem, a pasta disse que está levantando as ocorrências no bairro e irá se pronunciar hoje. Dos 6,4 quilômetros quadrados do distrito do Morumbi, os focos de violência estão concentrados em duas áreas. Uma delas fica entre a Rua Clementine Brenne e a Avenida Giovanni Gronchi, onde estimam-se 40 assaltos neste ano - boa parte sem registro de queixa. Só em maio, teriam sido 22. Quatro roubos e uma tentativa frustrada de assalto ocorreram numa mesma rua. Um morador foi morto a um quarteirão dali, e outro escapou de um disparo - mas a marca da bala ainda pode ser vista no muro. A casa do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, também foi assaltada. As ruas não foram identificadas a pedido dos moradores. Desde sexta-feira, uma viatura da PM está nessa área. É o resultado da reunião com a secretaria. "Depois disso, não tivemos ocorrência, mas sabemos que essa viatura não vai ficar lá para sempre", reclama um morador. Eles querem que a Polícia Civil investigue os assaltos, para desmantelar as quadrilhas, e faça blitze em motoqueiros que trafegam na região. "Estamos vivendo sob o toque de recolher, já que todo mundo tem medo de andar nas ruas e de chegar tarde. Com os bandidos circulando pelo bairro, nos sentimos acuados e mudamos a rotina", diz um empresário. "Passeava mais com os meus cachorros e agora tenho evitado fazê-lo", afirma um morador. "Aqui não é mais o Morumbi, onde vivo há 29 anos. Isso aqui é o Rio de Janeiro. Me fale qual a diferença entre nós e eles? Estamos reféns", define uma moradora. A síndica de um condomínio diz que os moradores discutem a contratação de segurança armada. "Quando as pessoas querem isso, mesmo sabendo dos riscos dessa atitude, é porque estão se sentindo muito acuadas." Há poucos dias, os assaltantes colocaram uma escada em um muro e destruíram a iluminação recém-instalada. Outro ponto crítico é o Real Parque, onde predominam grandes edifícios. Os moradores estão sendo rendidos quando entram e saem da garagem. Os assaltantes, segundo eles, são motoqueiros. Em um dos condomínios, com guarita à prova de bala, está a marca de um tiro, disparado no mês passado. O Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Ação Local Real Parque distribuiu cerca de 200 cartas aos edifícios, descrevendo as últimas ocorrências. A idéia é criar um plano de segurança integrado. Moradores do Morumbi e do Real Parque dizem que, nos últimos três meses, os assaltos - que ocorriam de maneira esporádica desde o início do ano - se intensificaram. Os moradores contam que, em conversas informais, a polícia diz que o comando do crime organizado que "gerencia" as quatro favelas da região foi mudado. "Antes, a determinação era não assaltar nem mexer conosco. Sempre convivemos em paz com as comunidades (Paraisópolis, Jardim Colombo e Porto Seguro), e nossos empregados moram nelas. Agora, o novo comando determinou os assaltos, para fortalecer o tráfico", diz um morador. Segundo a PM, há 13 viaturas para fazer a ronda em uma área de 17 km², que engloba o Morumbi, sendo que 6 delas fazem ronda escolar. A Polícia Civil não soube informar quantos crimes aconteceram no bairro. OUSADIA São casas que valem, em média, R$ 800 mil, mas algumas ultrapassam R$ 1 milhão. Na frente delas, além dos vigias de rua, empresas de segurança encostam seus carros nos portões para proteger a entrada e saída dos moradores. Mas nada disso tem impedido a ação dos bandidos. Em um dos assaltos, bandidos renderam o guarda de rua, tiraram suas roupas e o colocaram no porta-malas de um veículo. De manhã, quando os funcionários chegaram para trabalhar, o ladrão, com o uniforme do vigilante, saiu da guarita e os rendeu. O bando levou jóias, objetos de arte e bebidas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.