Reuters/Kai Pfaffenbach
Reuters/Kai Pfaffenbach

Com os crimes de ódio em alta, ensino meus filhos a serem bondosos

'Às vezes a bondade tem o poder de vencer o ódio e o medo - e não apenas em contos de fadas'

Rachel Peachman, The Washington Post

21 Março 2017 | 07h00

A ameaça de bomba a nosso Centro Comunitário Judaico em New Jersey foi em janeiro, em meio a uma erupção de ameaças semelhantes em todo o país. Minha filha de 5 anos estava no prédio, em sua sala de aulas bem iluminada, quando um funcionário da recepção recebeu o telefonema de um terrorista anônimo. 

Eu soube primeiro da ameaça primeiro pela mensagem de texto de uma amiga que estava no estacionamento do CCJ. Ela perguntou se eu queria que pegasse minha filha, Anikka, e a deixasse em casa, por segurança. Antes que eu tivesse tempo de responder, outro texto me informava, e a centenas de outros pais da escola, que um esquadrão antibomba inspecionara as instalações e determinara que estavam seguras. "Disseram que tudo estava bem e as atividades já haviam sido retomadas", escreveu outra amiga. 

Mas aquilo não era absolutamente normal. 

Eu tinha confiança nas providências do CCJ para proteger as crianças. Nossos administradores haviam sido devidamente alertados do aumento sem precedentes de antissemitismo que o país vem experimentando. Estavam, portanto, preparados. (Desde janeiro, houve mais de cem ameaças de bomba a instituições judaicas, e isso continua.)

Mas o que mais me preocupava era qual seria a reação de Annika. Estaria assustada?

Até onde eu sabia, Annika ainda vivia em sua realidade dos 5 anos, e eu queria que ela continuasse assim. Passei grande parte da vidinha dela cobrindo seus olhos e ouvidos quando os vilões de mentirinha apareciam em histórias e contos de fadas. Não estava a fim de deixar que um bandido de verdade mostrasse sua feiura em plena escola. 

No carro, à tarde, após pegar Annika na escola, perguntei a ela se alguma coisa especial havia acontecido naquele dia. Annika pensou um pouco, olhando pela janela, e anunciou: "Disseram que vai haver novos jogos de matemática". Os professores e demais funcionários tinham permanecido calmos e blindaram as crianças, fazendo-as achar que a agitação fora apenas um treinamento de segurança. 

Quando passou o perigo, a classe de minha filha voltou às ocupações diárias - leitura, desenho e ensaio para a peça que encenaria. Por enquanto, a inocência de Annika continuava intacta. 

Antes de Annika nascer, meu marido e eu decidimos mandar Lena, nossa filha de 9 anos, para a pré-escola no CCJ por motivos que ainda considero válidos: gostávamos da filosofia de ensino e achávamos os professores capacitados e gentis. Mas, sobretudo, esperávamos que o CCJ - com suas celebrações do Purim e do Hanucá, as cantorias semanais do Shabbat e a ênfase em valores humanitários - ajudariam a instilar uma forte identidade judaica em nossa filha. Temíamos que essa identidade fosse ameaçada pela apatia ou falta de ensinamentos sobre nossa história. O que não imaginávamos era que essa identidade judaica pudesse ser ameaçada por crimes de ódio. 

No outro dia, Lena me perguntou distraidamente: "Você sabe o que é campo de concentração?". Olhei para ela, sentada no tapete e rodeada de roupas de boneca, e disse: "Sei. E você, sabe?".

Meu marido e eu adiamos uma explicação a Lena sobre os horrores do Holocausto porque queríamos que ela se orgulhasse de sua herança judaica antes de se assustar com ela. Lena não sabia que seus bisavós (e tataravós) vieram para os Estados Unidos para não serem mortos em seus países durante surtos de ataques a judeus. Não contamos dos parentes que não sobreviveram. E também não havíamos ainda contado que seu nome do meio era em homenagem a uma querida tia-avó que sobreviveu ao campo de concentração. 

"É um lugar onde judeus eram mortos", respondeu Lena, e contou que estava lendo uma pequena biografia de Anne Frank na escola. Ao contrário do que fiz com a ameaça de bomba no CCJ, com a suástica desenhada na parede do salão de uma escola básica em nossa cidade, com o crescente número de crimes de ódio contra o CCJ e outras escolas, sinagogas e cemitérios judaicos nos últimos dois meses, eu não podia blindar minha filha contra a verdade. 

Compreendi que tinha a escolha de educar minha filha e dizer a ela "nunca mais", ou poderia tentar disfarçar nosso passado e nosso presente, esperando que a história não se repita. 

Então, meu marido e eu nos sentamos com Lena e decidimos parar de nos enganarmos. Com um grande esforço e o máximo de ternura possível, afastamos a redoma de inocência que tão cuidadosamente erguêramos em volta dela e lhe contamos estas verdades: 

- Verdade: Anne Frank teve uma vida tão curta porque foi assassinada com outros 6 milhões de judeus no Holocausto.

- Verdade: Anne Frank viveu em uma época em que pessoas e seus líderes culpavam os judeus e outras minorias pelos problemas em seu país. 

- Verdade: Anne Franke era pouco mais velha que Lena quando seus pais não puderam mais protegê-la do que estava ocorrendo em volta deles.

Explicamos que pessoas costumam atacar outras em períodos de grande tensão, e são capazes de fazer coisas horríveis e odiosas. Mas enfatizamos que podemos ser mais fortes e mais bondosos que isso. Podemos nos orgulhar de ser quem somos e de nossa capacidade de superar o ódio. 

Uma semana depois, Lena terminou de ler o livro sobre Anne Frank. Perguntei-lhe se havia ficado assustada. "Um pouco", respondeu. 

"Você sabe que isso não vai acontecer de novo, não?", perguntei. "Não sei", disse ela. "Talvez apareça outro cara mau e faça a mesma coisa."

Dessa vez eu não lhe contei toda a verdade. Não contei que, apesar do que eu dissera sobre "nunca mais", atrocidades continuam acontecendo. Há genocídios pelo mundo, e os primeiros sinais dessas tragédias vêm com frequência em forma de ódio pelos que são tidos como diferentes. Agora mesmo, em nosso país, estamos vendo um grau de ódio - a judeus, muçulmanos, negros, LGBTs e outros grupos marginalizados - que nunca pensei em ver na vida, e também estou assustada. 

Na semana passada, mamãe e eu fomos ao CCJ assistir a Annika na peça Bony Legs, uma história russa clássica sobre uma horrenda bruxa que tenta devorar uma menina boazinha chamada Sasha quando ela chega a sua casa no meio da floresta. 

Alerta de spoiler: Sasha consegue escapar antes que a bruxa possa fazer-lhe mal. Sabem por quê? Porque todas as criaturas com as quais a menina se encontrou na caminhada através da floresta gostavam dela, pela bondade com que as tratava e pelo que já as ajudara. Assim, essas criaturas se uniram contra a bruxa e ajudaram Sasha a chegar em segurança à casa. 

Moral da história: às vezes a bondade tem o poder de vencer o ódio e o medo - e não apenas em contos de fadas. É uma moral que eu gostaria que todas as nossas crianças, e nós adultos, também, aprendêssemos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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