Com poesia, Paulinho Nogueira defendeu o Parque da Água Branca

Compositor ajudou a criar associação de bairro para evitar que área verde fosse transformada em um shopping

Niza Souza, O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

O cantor, compositor e violonista Paulo Artur Mendes Pupo Nogueira, ou apenas Paulinho Nogueira, morreu em 2003, mas é lembrado com muito carinho até hoje, principalmente em Perdizes, na zona oeste, bairro onde morou por quase 40 anos. E não apenas por suas músicas. Quem freqüenta e conhece um pouco da história do Parque Dr. Fernando Costa, o Parque da Água Branca, sabe bem a importância e a influência do músico na luta para que o local não fosse transformado em um shopping. "Ele é um exemplo de alguém que dedicou parte de seu tempo para o coletivo. É um exemplo de cidadania", resume o diretor da Associação de Ambientalistas e Amigos do Parque da Água Branca (Assamapab), Paulo Meirelles. Tudo começou em 1980, quando a vizinhança viu o parque ser ameaçado. Um projeto do governo estadual pretendia transformar o Parque da Água Branca na sede do Fundo de Assistência Social do Palácio do Governo, além de construir um shopping, com choperia, lanchonete, um amplo estacionamento subterrâneo, pista de patinação ao redor dos lagos. Para isso, seria preciso derrubar grande parte das árvores, o que acabaria com as características do parque. "Paulinho Nogueira não se conformava com as intenções da Secretaria de Agricultura (o parque pertence ao governo do Estado). Na sua opinião, o projeto pecava pela base ao não considerar a própria natureza como atração", dizia uma reportagem da época, publicada no Estado em 7 de dezembro daquele ano. "Meu pai entrou em pânico. Ele sofreu muito com essa história, mas trabalhou muito pelo parque, mais que pela carreira dele", lembra Maria Elza Nogueira Carneiro, apelidada pelo pai de Bia, filha caçula do músico. Foi então que surgiu a idéia de criar uma associação para lutar contra a privatização do parque. Depois de participar de uma reunião com representantes do governo, um grupo de moradores reuniu-se e formou a Assamapab, liderada e presidida por Paulinho Nogueira. "Ele acionou toda a imprensa, televisão, jornais. Fazia reuniões em casa. Nem pela carreira ele foi tão incisivo", recorda a filha. Em 1981, a primeira vitória da associação: a secretaria cancelou as obras. Aliviado, o músico eternizou seu carinho pelo parque e compôs uma música em homenagem a Água Branca (leia ao lado). A partir de então, o parque ganhou um guardião oficial. E esse foi só o início de um período de muito trabalho, que duraria pelo resto da vida do compositor. Mesmo depois que deixou a presidência da associação, continuou sendo uma referência para os moradores e freqüentadores do parque. "As pessoas viam algo errado e ligavam pro meu pai. Daí ele ia lá conferir e ligava para as pessoas de volta. Até morrer ele resolvia problemas." TOMBAMENTO Todo o trabalho e brigas para manter as características do parque valeram a pena. Em 2 de junho de 1996, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) tombou, definitivamente, o Parque da Água Branca. "Neste dia foi uma festa lá em casa. Ele ficou numa alegria só. Ele disse que o parque estava garantido, independentemente dele", recorda a filha. Para o diretor da Assamapab, Paulo Meirelles, o músico é uma das principais figuras deste movimento em defesa do parque. "Ele teve uma atitude prática. Era um cidadão ativo, mesmo não sendo a cidade natal dele, mas foi a cidade que escolheu para viver." Meirelles conheceu o músico em 1995. "Foi quando ele me convidou para fazer parte da associação. Ele já estava cansado. As pessoas ligavam na casa dele até para perguntar se o parque ia funcionar", recorda Meirelles. "Quando regularizamos a associação, ele ficou como presidente de honra. Mas nunca deixou de se envolver, queria sempre saber como estavam as coisas." Recentemente, o ecossistema do parque foi novamente ameaçado. Em 2002, a construção de um prédio ao lado do parque abaixou o lençol freático e afetou uma mina que alimentava o tanque de carpas, que secou. A associação entrou com uma ação na promotoria do meio ambiente. "Houve um acordo com a construtora, que no mês passado começou a bombear água do subsolo do prédio para os taques do parque, que estão voltando a encher", comemora Meirelles. "Se estivesse vivo meu pai ficaria louco com esta história", admite Bia. Se a associação não tivesse lutado pelo tombamento, acredita Meirelles, talvez hoje no lugar dos cerca de 80 mil metros quadrados de área verde do parque os moradores tivessem um grande shopping para passear. AMOR AO VERDE Nascido em Campinas, interior do Estado, Paulinho Nogueira mudou-se para a capital ainda jovem, em 1952. O primeiro lugar onde morou foi um apartamento na Praça Marechal Deodoro, no centro. E desde esta época já era freqüentador assíduo do parque. "Ele levava meus irmãos (Artur e Maria Júlia) de ônibus, todos os dias pela manhã para passear e brincar no parque", conta Bia. Nesta época, ela ainda não era nascida. "Quando eu nasci ele passou a levar nós três, ia comigo no colo." O passeio com os filhos fazia parte do dia-a-dia do músico. Mesmo quando tocava na noite, fazia questão de levantar cedo para cumprir a rotina. "Ele desenvolveu uma relação muito forte com o bairro e com o parque. Era um ecologista. E passou essa consciência para nós. Conheço cada virada daquele parque. Até quando chovia ele fazia questão de ir e nos levar", recorda Bia. E não demorou para o músico mudar-se para Perdizes. Em 1964, Nogueira comprou um apartamento na Rua São Geraldo, a poucas quadras do seu local favorito. Daí podia ir caminhando, como gostava, até o parque. Alguns anos depois, no início da década de 1970, mudou-se novamente, mas só de apartamento. Desta vez, tornou-se definitivamente vizinho do parque. "Mudamos para a Rua Dr. Homem de Melo, onde ele morou até morrer. Nunca quis sair de lá." Em um dos passeios pelo parque, recorda a filha, o músico encontrou um caminho que havia sido coberto pelo mato. "Este caminho dava num bosque lindo. Daí a administração reabriu o caminho, que recebeu o nome de Paulinho Nogueira." Em outubro, o compositor completaria 80 anos. HOMENAGEM Trecho da música ?Parque da Água Branca?, de Paulinho Nogueira, 1983 "Esse bosque tão amigo Pedaço de São Paulo antigo Na saída pro interior É um pouco de poesia Na luta do dia-a-dia Em busca de paz e calor Em meio a tanta beleza As cores da natureza E o canto livre dos pardais Jovens casais namorados Arriscam carinhos ousados À sombra dos pinheirais No parque da Água Branca A esperança que a gente traz Na flor que não se arranca Na árvore mansa deixada em paz... HOMENAGEM Trecho da música ?Parque da Água Branca? ... Entre as lembranças que eu trago Os chorões à beira do lago O pombal por todo o jardim Eu lendo jornal na calçada E o riso da criançada Brincando ali perto de mim Mas um dia de sol quente Olhando os prédios em frente E a cidade doida a crescer Pensei na calma de outrora Nessa loucura de agora Um dia como há de ser"

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