Com prazo de validade

As disputas entre e dentro dos partidos aliados que retardam a composição do ministério Dilma Rousseff refletem não só a complexidade da base política que a elegeu, como projetam um governo de dificílima administração de interesses. Dilma governará com dois partidos principais de uma aliança que seu mentor, o presidente Lula, rejeitou para si no primeiro mandato. Não quis ficar refém do partido amplamente majoritário, o PMDB, com poder de dar as cartas no Congresso. Preferiu a cooptação das legendas menores, processo que está na origem do mensalão.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Hoje, impasses envolvendo PSB, PC do B e PT retardam o fechamento do ministério. Enquanto o PSB quer três pastas - seus deputados não têm Ciro Gomes "na cota" do partido -, o PC do B não se conforma com a saída de Orlando Silva do Ministério dos Esportes. Já os petistas duelam pelas pastas do Desenvolvimento Social e Agrário - este último ocupado pelo critério da cota feminina.

Nada indica que as feridas abertas na guerra de cargos no ministério cicatrizem com seu anúncio formal.

O que, somado ao fato de que a autonomia de Dilma ficou restrita a uma cota pessoal, o torna um ministério com prazo de validade, sacudido aqui e ali por denúncias disparadas pelo chamado "fogo amigo". Mais danoso ao governo do que a oposição que se anuncia.

2 é bom, 3 é demais

O PSB reivindica dois ministérios, além do já garantido a Ciro Gomes: um indicado pela bancada e outro pelo governador Eduardo Campos, de Pernambuco, Estado onde Dilma massacrou a oposição. O partido argumenta que cresceu em número (elegeu seis governadores e 34 deputados) e importância. Além do governo, o PMDB combate a pretensão. "O PMDB elegeu 79 deputados contra os 34 deles e a maior bancada do Senado - 20 senadores - contra 3 do PSB", rebate o futuro presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), lembrando o poder de fogo do partido nas votações.

Sem perdão

Está longe de ser digerida pelo PMDB a nomeação de Ciro Gomes para o ministério. O partido não o perdoa por chamar a legenda de "um ajuntamento de assaltantes". O senador Valdir Raupp (RO), que assume em janeiro a presidência do PMDB, reflete a crise: "Ele não tem moral para falar do PMDB. É bom medir as palavras se quiser ser governo."

Plano adiado

Por trás da resistência do governo em conceder três ministérios ao PSB está a meta ainda não abandonada de fazer do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) titular do futuro ministério da Pequena e Microempresa, dando assento no Senado ao seu suplente, José Eduardo Dutra. Se a estratégia vingar e o PSB for atendido, seriam quatro as pastas para a legenda. O mais irônico é que Valadares, único garantido até o final do governo, recusou a proposta.

Face política

Sucessor de Henrique Meirelles no Banco Central, Alexandre Tombini tem o aval do mercado que o considera tecnicamente à altura do cargo. Mas repetir o êxito do antecessor dependerá, dizem especialistas, de seu desempenho político nos embates internos, ainda uma incógnita.

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