Com quintal e jardim, a casa continua preferida

Lar ideal do paulistano ainda é horizontal, mas opções estão ficando escassas na cidade; seguras e bem localizadas, vilas são alternativa

Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

A imagem clássica da casa com quintal e jardim, onde as crianças podem brincar ao ar livre com o cachorro ainda é o ideal de lar para a maioria dos paulistanos. "A casa é o desejo número um de compra", afirma o diretor de marketing do Sindicato das Empresas de Habitação (Secovi) e da imobiliária Itaplan, Fábio Rossi. "O apartamento é um consolo", diz.No entanto, as casas são minoria entre as novas moradias que surgem na cidade. "Hoje, o custo e o problema de segurança não favorecem mais a casa", explica Rossi. Segundo levantamento da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), de novembro de 2006 a outubro de 2007, foram lançados 111 condomínios horizontais na capital paulista, com 1.641 casas, contra 299 empreendimentos verticais, com 34.493 apartamentos. Mas quem não quer viver no alto dos novos espigões ainda encontra opções. As vilas, por exemplo, estão nos miolos dos centros nervosos e são mais seguras que as casas de rua. A procura é tanta que o produto ficou caro. Um sobradinho pode ser encontrado por até R$ 800 mil, conforme o bairro. A vantagem é que, diferente dos apartamentos, sua estrutura favorece as relações de vizinhança.?VILINHA SIMPÁTICA?Bem no meio de um quarteirão super movimentado da Barra Funda, na zona oeste, há um exemplar com 16 sobradinhos coloridos. Eles quase desaparecem entre os prédios, estação de metrô, universidade e bares ao redor, mas resistem bravamente ao tempo. A Vila Ângela é pequena, sim. Mas não anônima. Ali, todo mundo se conhece. Alguns, até, muito bem. E a relação entre os moradores, atípica para uma metrópole, remonta aos modos antigos de tratamento entre vizinhos: eles papeiam à noite na calçada, compartilham objetos e quitutes, organizam festas comunitárias e as crianças brincam de amarelinha. A vila, originalmente de uma família só, hoje é ocupada principalmente por inquilinos que pagam de R$ 700 a R$ 900 por mês. Um dos moradores mais antigos, Daniel Nunes, foi para lá há dez anos atraído por um anúncio no Estadão que dizia: "Vilinha simpática nas Perdizes", lembra. Logo, percebeu afinidade com a vizinha Carlota Joaquina, moradora há 11 anos. "Temos estilo de vida parecido, festeiro, de ter vários amigos, receber visitas. Quando a gente percebeu, já fazia almoço juntos", diz.Foi Carlota, aliás, que criou a tradição das festas comunitárias. "Fui numa festa junina da escola da minha filha e achei horrível. Resolvemos fazer outra aqui e foi muito mais legal", conta. Assim, as celebrações viraram anuais. Depois, foi a vez da festa da primavera entrar para o calendário, com direito a decoração especial, além dos aniversários, claro. Juntos, eles também já promoveram vários cursos dentro da vila: teatro, canto, sapateado e até djembê, um tambor africano. A "escola" da vila é a casa de Cristina Souto - a única que não tem parede separando a sala da cozinha, por isso, mais espaçosa. É lá também que o chefe de cozinha Sérgio Barbosa faz suas experimentações culinárias. É um comportamento que pode provocar duas reações opostas nos pretendentes a vizinhos. O primeiro: admiração. "Já tivemos amigos que lutaram para vir morar na vila", diz o morador Leonardo Raposo. E também estranheza: "Quando se muda alguém a gente pensa: ?Será que vai se adaptar??" Vários não conseguiram.É claro que, com o convívio tão próximo, também surgem conflitos. O maior deles até agora foi por causa do estacionamento. Como há poucas vagas, a vila começou a ficar congestionada. Apesar de simples, a decisão de estipular a permanência de apenas um carro por casa, foi desgastante. Mas nada que estrague a amizade.

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