Com retaliação, sem CPI

Ao final do recesso parlamentar não se colhem sinais nos congressistas de ânimo real para a instalação de uma CPI dos Transportes, contra a qual a oposição se mobiliza, dando ao processo político desenho contraditório. E é justamente o fato de ter origem na insatisfação da base aliada que a torna improvável.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2011 | 00h00

A aprovação ostensiva pela sociedade da faxina promovida na área dos transportes, constatada em pesquisas e nas manifestações de formadores de opinião, mantém o governo blindado para retaliações que tentem ir além da sabotagem em plenário ou de tiros isolados, como os que o PR tem desferido contra o casal de ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil).

Relatos de lideranças da base do governo indicam que o segundo semestre não poupará a presidente Dilma Rousseff, no entanto, do risco de revezes no Legislativo, onde a revolta do PR se junta à do PMDB, que aguarda cada vez mais irritado a nomeação de 48 indicados para cargos no segundo escalão, entre outras reivindicações.

Frustrados pelo silêncio do governo no recesso, alguns já falam em adotar a chamada "obstrução branca", que se materializa pela operação-tartaruga na discussão de matérias relevantes para o governo, no apoio seletivo a requerimentos da oposição e na negativa de quórum em plenário.

No limite, uma retaliação de peso, como definiu um líder pemedebista, que seria a derrubada do veto do ex-presidente Lula à emenda Ibsen, que mudou a regra de partilha dos royalties do petróleo impondo perdas aos Estados produtores.

Quero mais

No embalo do apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à faxina promovida pela presidente Dilma Rousseff nos Transportes, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) forma um grupo de proteção ao governo contra retaliações do PR. Segundo o senador, 15 parlamentares já aderiram ao movimento, alguns, inclusive, signatários da lista de criação da CPI dos Transportes - como Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Pedro Taques (PDT-MT) e Ana Amélia (PP-RS). O grupo defenderá a ação contra a corrupção e pedirá mais: a ampliação da faxina a outros órgãos. Cristovam, que assinou pedido de CPI contra Palocci, condena uma agora nos Transportes.

Em casa

Um poço de mágoas, o PR avalia na terça, em Brasília, os danos com a faxina nos Transportes. O partido perdeu uma máquina de financiar candidatos com a campanha de 2012 em curso. A prévia seria na sexta, em Salvador, no casamento do deputado João Bacelar (PR-BA) com Isabela Suarez, filha do ex-OAS Carlos Suarez. "Tudo em casa", ironizou um velho conhecedor do orçamento.

Blairo na linha

O governo identifica no senador Blairo Maggi (PR-MT) a origem das denúncias contra os ministros Paulo Bernardo, das Comunicações, e Gleisi Hoffmann, da Casa Civil. Mais: acha que Blairo finge empenho para conter o suposto ânimo de vingança do ex-diretor do Dnit, Luiz Antônio Pagot, enquanto ele próprio conspiraria contra o Planalto. Segundo fonte do PT, a denúncia de que a empreiteira Sanchez Tropoloni teria sido favorecida em obras do Dnit em Maringá por ser doadora da campanha de Gleisi Hoffmann ao Senado perde força porque ela foi doadora também do PSDB e do atual governador de Mato Grosso, Silval Barbosa, apoiado por Blairo.

Cautela

Pelo sim, pelo não, o governo trabalha para esvaziar a lista de adesões à CPI dos Transportes. Por isso, quer o ministro Paulo Sérgio Passos a postos para prestar explicações no Congresso sobre a corrupção na pasta.

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