ESTEFAN RADOVICZ/AGÊNCIA O DIA
ESTEFAN RADOVICZ/AGÊNCIA O DIA

Com sete casos por dia, latrocínios aumentam 58% no País em sete anos

Dados inéditos mostram que assassinatos cometidos durante roubos cresceram em 19 Estados, como Rio e Pará, entre 2015 e 2016; para especialistas, fenômeno está ligado à crise econômica e ao enfraquecimento de ações de combate à criminalidade

Marco Antônio Carvalho e Carlos Mendes, Impresso

30 Outubro 2017 | 03h00

BELÉM - O estudante Raphael Souza, de 19 anos, estava nas margens do canal de São Joaquim, na zona norte de Belém, quando foi abordado por dois homens que pediam o seu celular. Negou-se a entregar o aparelho e foi atingido com um tiro no peito, o que causou pânico no seu irmão, testemunha do crime. “É uma sensação ruim lembrar disso. Vi meu irmão morrer e nada pude fazer, porque também morreria se reagisse”, disse o parente, que prefere esconder a identidade e ainda vive com medo.

Duas pessoas chegaram a ser presas pela morte de Souza em setembro do ano passado, mas hoje estão soltas. Um adolescente de 17 anos foi liberado sem cumprimento de medida socioeducativa. O seu suposto parceiro, Júlio Oliveira, de 25 anos, disse à Justiça que foi o rapaz quem fez o disparo, conseguindo pouco tempo depois também sair da prisão. Em 2016, o Pará foi o Estado que teve a mais alta taxa desse tipo de crime, o latrocínio, no País: 2,4 por 100 mil habitantes.

+++ ‘Eu choro todos os dias’, diz mãe de vítima de latrocínio no Rio

Dados inéditos do 11.º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que será divulgado nesta segunda-feira, 30, mostram que esse crime subiu 57,8% no País entre 2010 e o ano passado, quando houve 2,5 mil registros ou sete casos por dia. A análise do Fórum, que reúne números oficiais, é a mais relevante do setor. A organização reúne pesquisadores e policiais no debate de políticas públicas.

+++ Latrocínio é o crime que mais interage com o medo da população

No total, foram 13,8 mil assassinatos durante roubos desde 2010. De acordo com especialistas, a crise econômica associada a problemas em programas estaduais de redução de criminalidade – que perderam investimentos – é um dos fatores para entender os indicadores. Com a recessão, em muitos Estados houve queda tanto da capacidade de policiamento nas ruas quanto de investigação.

O latrocínio tem punição pesada prevista no artigo 157 do Código Penal. A pena de prisão é de 20 a 30 anos, o máximo permitido pela lei brasileira.

Ainda assim, os bandidos não têm se desencorajado. No Rio, a situação é especialmente preocupante (mais informações na pág. A14). Pernambuco (cujo número de casos saltou de 114 para 167) e Espírito Santo (de 35 para 53) são outros que tiveram altas proporcionais relevantes. Pernambuco teve um programa considerado modelo em redução de mortes violentas, que perdeu força nos últimos anos.

A liderança é do Pará, que subiu uma posição em relação a 2016. Rondônia passou da 20.ª para a 7.ª posição; Pernambuco pulou nove posições, sendo agora o 8.º. Assassinatos cometidos durante roubos cresceram em 19 Estados, como Rio e Pará, entre 2015 e 2016.

A Secretaria de Segurança do Pará disse que esclareceu vários latrocínios e que o resultado disso já está no Judiciário. A pasta contesta os dados do anuário, afirmando que seu levantamento não bate com o resultado da pesquisa, mas não apresentou seus dados. O Ministério da Justiça e da Segurança Pública não comentou os dados.

Causas

O diretor executivo do Instituto Sou da Paz, Ivan Marques, associa o fenômeno ao crescimento dos crimes patrimoniais. “O latrocínio é um tipo de crime contra o patrimônio, não à toa as polícias falam que é o roubo que deu errado. Aumentando o roubo, como vimos em 2016, o latrocínio também vai crescer, gerando esses dados espantosos.”

Marques diz que há um conjunto de fatores que influenciam, entre eles o “momento econômico”. “O roubo produz uma sensação de insegurança ligada ao cerceamento da liberdade de ir e vir, levando as pessoas a mudarem hábitos. Com o latrocínio, esse sentimento é agravado, pois há violência letal.”

O Fórum divulgará nesta segunda os dados completos do anuário. O principal número esperado é o de homicídios totais de 2016. O balanço deve mostrar crescimento da violência, segundo apurou a reportagem.

Em relação a 2017, o Estado mostrou em agosto que o País já havia registrado 28 mil homicídios no primeiro semestre.

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‘Eu choro todos os dias’, diz mãe de vítima de latrocínio no Rio

Número de latrocínios subiu 70% em um ano no Estado, imerso em crise de segurança; secretaria destaca apoio federal nas investigações

Marco Antônio Carvalho e Roberta Pennafort, Impresso

30 Outubro 2017 | 03h00

RIO - Foi no Rio que houve a alta mais relevante nos latrocínios em todo o País, segundo o 11.º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que será divulgado nesta segunda-feira, 30. O número passou de 131 ocorrências em 2015 para 225 no ano seguinte, com crescimento de 70% e a maior elevação absoluta entre os Estados. O fenômeno ocorre em meio à crise fiscal do Estado, com atrasos no pagamento do salário dos servidores e dificuldades de manter políticas públicas, como o sistema de gratificações para agentes de segurança e das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

O cenário fez com que o presidente Michel Temer autorizasse há um mês o uso de militares das Forças Armadas em áreas como a Favela da Rocinha, na zona sul, onde facções rivais disputam o comando do tráfico. Os militares também têm apoiado as polícias em operações para localizar traficantes e armas.

Diretor do Instituto Igarapé, Robert Muggah vê “aumento dramático da violência” no Rio como resultado de uma “ressaca” após os grandes eventos sediados lá, como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada no ano passado. “O Estado enfrentou cortes orçamentários na segurança justamente quando o que precisava era aumentar investimentos”, afirma.

Muggah vê o uso das tropas só como uma anestesia. “Representa um alívio temporário, mas não lida com os fatores estruturais que levaram o Estado a essa situação.” Para ele, o Rio precisa retomar seu programa de metas, criado em 2009, com pagamento de gratificações extras para as áreas que atingiam os objetivos traçados. O Estado tem tido dificuldades para manter o sistema de bônus. “O programa foi extremamente eficaz para mobilizar os policiais na redução dos homicídios.”

Luto

Os 34 meses que separam a data da morte do seu filho para hoje não diminuíram a dor da jornalista Mausy Schomaker, de 66 anos, mãe de Alex Schomaker Bastos. Aos 24 anos, a poucos dias da colação de grau no curso de Biologia, ele foi assassinado com seis tiros em ponto de ônibus próximo ao câmpus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em Botafogo, na zona sul, por bandidos que queriam seu celular. Era a noite de 8 de janeiro de 2015.

Em casa, Mausy havia recebido uma mensagem do filho: ele já estava saindo da faculdade, onde tinha ido acertar detalhes da formatura. O trajeto até o Flamengo, onde morava, não levaria mais do que vinte minutos naquele horário, às 21h30. Mausy já pensava na comida que iria esquentar para o jantar.

Mas quem chegou não foi Alex, mas a polícia, com a notícia do crime. Dois homens haviam aparecido em duas motos e avistaram Alex com o celular na mão. O rapaz se assustou. Foi jogado no chão e alvejado quando um determinou ao parceiro: “Mata logo”.

Desde então Mausy e o marido, o também jornalista Andrei Bastos, ouvem o elogio: “Nossa, como vocês são fortes e corajosos!” Isso porque, mesmo abalado, o casal se mobilizou para transformar o espaço onde fica o ponto de ônibus numa praça, com apoio da prefeitura do Rio. Com o nome de Alex, o local tem brinquedos para crianças e um armário cheio de livros doados, para quem quiser pegar. Antes abandonada, a praça passou a ter as árvores podadas. O ponto de ônibus, pintado de branco pela família, agora está mais iluminado.

“Não sou forte nem corajosa”, rebate Mausy, que antes da missa de sétimo dia correu a um tatuador, com o marido, para gravarem na pele cópias de tatuagens que o filho tinha. “Eu choro todos os dias, quando ando na bicicleta dele, quando vou ao supermercado e, por segundos, penso em comprar o xampu que ele gostava”, conta. “Mas desde o início vi que não podia ficar na cama. Não posso sair na rua dizendo o quão triste estou, da saudade horrorosa.”

Pelo local onde Alex morreu, porém, ela ainda não consegue passar. “Não passo pela praça. É muito difícil pisar onde seu filho caiu morto.”

Os dois assassinos foram localizados cinco meses depois do crime e condenados a 28 anos de prisão. Mausy não se sente reconfortada por saber que estão fora de circulação. “Cada vez que vejo uma mãe abraçada a um caixão penso que a morte do Alex não mudou nada. De lá para cá, só piorou”, lamenta. Os pais processam o Estado e a prefeitura por não terem garantido condições ao filho de andar de ônibus à noite.

“Ando de madrugada, às vezes torcendo para ser assaltada. Acho que vou bater, matar, morrer. A gente não tem medo mais, fica meio vazia mesmo.”

Integração

Em nota, a Secretaria de Segurança do Rio disse que tem trabalhado para reduzir os indicadores de violência. A pasta informou ainda que a criação de um grupo – que integra as inteligências do governo federal, as polícias Rodoviária Federal, Militar e Civil, além de órgão penitenciários – “vem ajudando na elucidação de crimes, como os latrocínios.”

Em 2017, a tendência continua sendo de alta nos latrocínios. Conforme o Instituto de Segurança Pública, que faz a compilação oficial dos índices da violência do Estado, foram 176 registros de janeiro a agosto. No mesmo período do ano passado, foram 143 casos. O aumento já é de 23%.

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Com maior índice em 3 anos, latrocínio preocupa polícia de SP

Entre as vítimas mais comuns, estão idosos e agentes de segurança; Secretaria de Segurança diz intensificar atuação contra o crime

Felipe Resk e Marco Antônio Carvalho, Impresso

30 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O latrocínio voltou a preocupar a polícia de São Paulo em 2017. Não se viam indicadores tão altos no primeiro semestre, com 237 ocorrências, desde 2003. Isso alertou a Secretaria da Segurança Pública (SSP), que conseguiu reduzir crimes do tipo nos últimos três meses. Ainda assim, o total de latrocínios entre janeiro e setembro (266) é maior do que no mesmo período do ano passado e de 2015.

Segundo o Anuário de Segurança Pública, São Paulo teve o maior número de latrocínios do País em 2016. O Estado, porém, é o mais populoso, com 45 milhões de pessoas, fazendo com que a taxa por 100 mil habitantes seja de 0,8, a terceira menor.Pesquisa do Instituto Sou da Paz com todos os registros de latrocínio de 2016 mostraram características das vítimas. Dois aspectos chamam a atenção: 20% delas eram idosas, e metade morreu em assaltos a residência. Outros 20% eram agentes de segurança, como policiais. Por andarem armados a maior parte do tempo e terem propensão a reagir a roubos, eles acabam sendo alvos.

Mensagem de voz

O cabo da PM Hiata Anderson, de 38 anos, estava de folga em 25 de novembro de 2016, seu aniversário de casamento. Como sempre fazia nessa data, saiu cedinho de casa para comprar flores para a auxiliar administrativo Lucinéia Gonçalves, de 42. Era uma sexta-feira. Por volta das 11h45, ele leu o parabéns enviado pela mulher e respondeu com uma mensagem de voz no Whatsapp. “Obrigado você, por me aguentar por 16 anos! A gente se vê mais tarde”, disse, minutos antes de ser morto em um assalto.

“Foi a última vez que ouvi a voz dele. Pelo que dizem, foi abordado naquele momento”, conta Lucinéia que, em seguida, pede desculpa por não conseguir falar da perda sem se emocionar. “Ele saiu de manhã, avisando para eu me preparar porque a gente ia jantar fora…”, diz. “Fiquei sabendo do que aconteceu pelo Facebook. Tinha uma foto dele caído na rua, com o celular do lado.”

O cabo Hiata passava de motocicleta em um cruzamento de ruas em São Caetano, na Grande São Paulo, quando dois criminosos, também em uma moto, o surpreenderam. “Sem reagir! Sem reagir!”, teriam dito os bandidos. O policial, porém, tentou se defender, segundo a viúva. Os bandidos atiraram. Depois, a dupla fugiu sem levar o veículo, o celular e a carteira, que permaneceu no bolso da vítima.

Demitida cerca de 5 meses antes do crime, Lucinéia recebia auxílio-desemprego na época. Além da mulher, o cabo Hiata deixou duas filhas – a mais velha de 16 anos; a mais nova, de 6. “A falta que ele faz é muito grande. As meninas sempre falam do pai, que sentem o cheiro dele… Elas passam por psicólogo”, afirma a mãe. “Agora, vai fazer um ano: a gente já fica fragilizada de novo.”

Desde o crime, Lucinéia não conseguiu emprego porque precisa cuidar das filhas. “Graças a Deus, o pessoal do batalhão ajudou muito”, conta.

Combate

A SSP disse desenvolver políticas para combater os crimes contra o patrimônio. Em setembro, a redução de latrocínios foi de 65%, destaca a pasta, em comparação com o mesmo mês do ano passado. “O trabalho tem sido intensificado com operações para reforçar o patrulhamento das unidades territoriais. Nos nove meses deste ano as polícias paulistas prenderam 40 pessoas em flagrante e 163 por mandados judiciais, todas envolvidas em latrocínios”, diz a secretaria.

A SSP diz que o caso do policial é investigado pelo 1.º DP de São Caetano. Na ocasião, um dos autores foi baleado e morreu. “As investigações prosseguem visando identificar e prender o segundo suspeito.”

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Análise: O latrocínio é o crime que mais interage com o medo da população

O morrer é o absurdo do absurdo, e morrer durante um roubo é o que apavora a população. Não é um crime de rico. Todos correm risco

Renato Sérgio de Lima, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

Os dados reforçam que a violência ganhou contornos ascendentes no Brasil. Até 2014, tínhamos alguns índices criminais sob controle por causa, principalmente, dos programas de redução da violência implementados em oito Estados. Apesar disso, em um segundo momento, vemos as tentativas de integração entre as polícias serem diluídas. O que se associou a problemas de outros componentes da Justiça criminal, em um momento de crise econômica e político-institucional.

O esforço para estabelecer metas não conseguiu controlar aquele que é o tipo de crime que mais interage com o medo da população, o latrocínio. O morrer é o absurdo do absurdo, e morrer durante um roubo é o que apavora a população. Não é um crime de rico. Todos correm risco.

Há três caminhos para a redução: 1) melhorar a investigação policial para identificar por áreas as quadrilhas que estão atuando, verificando perfis e ajustando o padrão para agir baseado em análise criminal; 2) controle de armas e munições. É preciso tirá-las de circulação como São Paulo fez no início dos anos 2000 com blitze constantes – isso tem de voltar a ser feito; 3) fazer da redução da violência a grande solução para pensar o País. Uma sociedade atemorizada não consegue sair do lugar, pois está paralisada pelo medo.

* É DIRETOR-PRESIDENTE DO FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA

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