Com tumulto e correria, Ibama remove animais de circo no DF

Le Cirque foi interditado por ter segurança falha e por maltratar bichos, 16 no total; houve protesto no local

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2008 | 17h14

Correria, agressões e tumulto marcaram nesta terça-feira, 12, a remoção de 16 animais, apreendidos no Circo Le Cirque, para o Zoológico de Brasília, como parte da Operação Arca de Noé. Um laudo do Ibama determinou a interdição do circo, por "falta de segurança" para o público e "maltrato" aos animais, entre os quais duas girafas, cinco elefantes, chimpanzés, pôneis, um rinoceronte e um hipopótamo. Dois chimpanzés e um hipopótamo já foram encaminhados para o Zoológico de Brasília.   Para evitar a apreensão dos animais, tratadores e funcionários do circo que haviam se acorrentado aos rebocadores tiveram as correntes arrebentadas e foram arrastados da frente dos veículos pela polícia. Artistas do circo, funcionários e até um menor de 13 anos que formavam uma barreira humana para resistir à operação também foram retirados à força. "É uma arbitrariedade", protestou o advogado Luiz Sabóia, que tentou em vão negociar uma trégua com os fiscais e policiais militares, requisitados para dar suporte à operação.   Tratadores se acorrentam na tentativa de impedir ação do Ibama contra o circo Foto:Wilson Pedrosa/AE   Sabóia exibia uma liminar da Justiça Cível de Brasília, concedida em 2 de agosto, que considerava as condições de alojamento dos animais satisfatórias e derrubava os efeitos da interdição anterior, emitida pelo Ibama no final de julho. Mas o Ibama fez nova inspeção e emitiu novo laudo. Para o advogado, foi uma "maneira esperta" do Ibama de não cumprir a decisão judicial. Enquanto os dois lados discutiam uma trégua, que acabou não ocorrendo, sob o sol do meio dia, a elefanta Madras, de 70 anos, tomava um refrescante banho.   Essa é a segunda vez que o circo é interditado quando vem se apresentar em Brasília, onde a Câmara Distrital aprovou leis rigorosas de proteção aos animais e praticamente inviabiliza sua exibição em circos. Nas duas, só foi possível à empresa usar os animais com amparo em liminar da justiça. A primeira vez, foi em outubro de 2006.   Tomando sol, a elefanta Madras acompanha a discussão entre agentes do Ibama e a defesa do circo Foto:Wilson Pedrosa/AE   De origem francesa, o Le Cirque está radicado no Brasil desde a década de 70, com sede em Santa Catarina. O espetáculo é eclético, mas a grande atração da criançada são os mais de 30 animais, das mais variadas espécies. Eles consomem duas toneladas de alimentos por dia e exigem uma logística sofisticada a cada deslocamento.   O circo instalou-se em Brasília em 24 de julho e foi imediatamente interditado pelo Ibama. No dia 2 de agosto, a direção do circo obteve liminar da Justiça local, que considerou que as condições de acomodação não traziam risco à integridade dos animais, nem à segurança pública. O Ibama então, expediu novo laudo e deflagrou nesta manhã a Operação Arca de Noé, em parceria com o instituto local de defesa ambiental, o Ibram.   Segundo o coordenador de Operações do Ibama, Roberto Cabral Borges, de fato não falta alimento e água fresca para os animais. Mas os espaços em que eles estavam confinados eram "muito aquém dos limites" previstos nas normas de proteção e o item conforto também "deixa muito a desejar". Além de pequeno, o alojamento das girafas, conforme o laudo, tem teto baixo. Com dez centímetros de altura a menos, o teto obriga os animais a ficarem com pescoço torcido na maior parte do alojamento.   Uma das girafas tenta lamber agente, dentro da jaula com teto baixo, segundo o Ibama Foto:Wilson Pedrosa/AE   Confinados numa jaula, com freqüência estressados, os chimpanzés tiveram os dentes extraídos para evitar acidentes com os tratadores ou populares. Quando bebês, chimpanzés são graciosos e afáveis, mas adultos adquirem a força de sete homens e dentes poderosos, capazes de decepar a mão de uma pessoa numa mordida.   Nascida em cativeiro e considerada dócil, a elefanta passa o dia solta, o que foi considerado um perigo pela fiscalização. O Ibama também constatou que os elefantes, os maiores mamíferos da terra, responsáveis por tragédias em várias cidades do mundo, estavam muito mal acomodados e podiam fugir a qualquer instante.   "Eles poderiam facilmente chegar à Esplanada dos Ministérios e causar graves acidentes com populares", disse Cabral. A Esplanada fica a menos de dois quilômetros do local onde está o circo, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha.

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