Com vara curta

É cedo e o material muito pouco para avaliações de desempenho. Na estreia do horário eleitoral na televisão ontem todos ainda apresentando credenciais, cada qual preocupado consigo deixando o vizinho quase de lado.

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Quase porque, premido pela necessidade, José Serra citou logo a fera pelo nome no sambinha-provocação "sai o Silva e entra o Zé". Cutucou a onça dentro da toca. Pode se dar bem ou muito mal, mas arriscou.

Foi o único diferencial, a indicar que talvez - por ora apenas talvez - pela falta de instrumental da envergadura do presidente Luiz Inácio da Silva o PSDB precise recorrer à criatividade e com isso leve o PT a reeditar seus melhores momentos de propaganda.

O primeiro programa não foi um deles. Obrigado a tratar logo do passado combativo de Dilma Rousseff (em versão mitigada que omitiu a participação na luta armada), a falar para as mulheres, a marcar um linguajar despojado cheio de "pra" "tô" "tá" e "ocê", a dizer-se estudiosa e competente administradora, o programa não teve margem para inovações ou surpresas.

De verdade nem pareceu ser essa a ideia. Ao que se propôs, cumpriu: suavizou a candidata, mostrou família, amigos, profissão, juventude, tarefas no governo Lula e principalmente o carimbo da "continuadora" com participação bem dosada do presidente.

Nem demais que escondesse a candidata nem tão pouco que deixasse de marcar bem a presença de Lula. Dilma esteve o tempo todo na condição de protagonista. Como deve ser se não quiser parecer teleguiada.

O melhor do horário do PSDB foi a trilha sonora, tanto o forró de abertura como o samba de encerramento, duas boas sacadas. Entre uma e outra, o já sabido e nessa agora reafirmado com ênfase: a infância de pobreza e superação pelo esforço, a juventude de política estudantil, a vida adulta de realizações administrativas entre uma e outra eleição a deputado, senador, prefeito e governador.

Sempre o Serra que "cuida", é "próximo" e "vive" o problema das pessoas para servir ao mesmo tempo de contraponto e antídoto à imagem distante e irascível que tem dele o senso comum.

Pelo menos no dia do credenciamento nenhum dos dois marqueteiros fez espetáculo de imagem, atendo-se ao necessário para mostrar as faces dos chefes.

Marina narrou em "off" um videoclipe sobre meio ambiente e apareceu apenas no fim numa representação da quintessência do básico: de pretinho, declarou "eu sou Marina Silva, candidata a presidente do Brasil" e encerrou.

Plínio de Arruda Sampaio simplesmente não apareceu, sendo apresentado por imagens e locução.

Quanto aos demais, os ditos nanicos, francamente, 55 segundos é tempo demais.

Como assim? Políticos e analistas podem ter discutido sobre o sexo dos anjos quando atribuíram às entrevistas do Jornal Nacional importância capital sobre o resultado das pesquisas.

Detalhe da pesquisa Ibope: a grande maioria (62%) não soube dizer se o desempenho de Dilma foi bom ou ruim. No caso de Serra deu-se o mesmo.

Homens cordiais. Lula e Ahmadinejad usaram termos e conceitos semelhantes para tratar em público do caso de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério.

O presidente brasileiro ofereceu asilo "à mulher que está causando incômodo por lá (no Irã)" e o iraniano recusou alegando não haver "necessidade de criar mais confusão para Lula".

Nem pressão de um lado nem reação de outro: só amizade e indiferença aos direitos humanos.

A conhecer. A Justiça Eleitoral exige que os candidatos a suplente de senador (dois para cada titular) sejam devidamente registrados.

De onde deveria ser obrigatório que fossem devidamente apresentados ao eleitorado. Durante a campanha, antes do fato consumado da substituição do gato por lebre.

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