Comando da TAM evita críticas ao governo e à pista

Embora seja uma das poucas a saber quais eram as reais condições daquele pouso, a cúpula da empresa preferiu se calar a respeito. Bologna confirmou que parte da frota da empresa está equipada com o sistema Foqa (Garantia da Qualidade nas Operações Aéreas, sigla em inglês). Ele disse que o mecanismo mantém uma troca de dados, como velocidade e condições da aeronave, em tempo real com a empresa aérea, mas informou que a leitura só é feita após a realização do vôo. ''''Os dados ficam gravados no equipamento do avião. No momento, todas as mídias da aeronave estão em poder da Aeronáutica, pois ele que fará a leitura. A TAM ainda não teve acesso às leituras dos dados de vôo e dos dados de comunicação'''', declarou, confundindo o sistema da caixa preta com o do Foqa. Outras explicações não menos confusas se seguiram, mas na maior parte delas era possível entender que a responsabilidade poderia ser de qualquer um ou de ninguém. ''''Descartamos absolutamente problemas com a aeronave ou com a pista'''', afirmou Bologna, de forma taxativa. ''''A falta de grooving (ranhuras transversais) não deixa a pista inoperante, não interfere no grau de aderência. Toda pista tem restrições e a de Congonhas não é diferente'''', afirmou o executivo. ''''Fizemos 2.152 decolagens e 2.160 pousos com aviões desta família desde o fim da reforma da pista principal até a data de ontem (anteontem). É uma aeronave absolutamente homologada para aquela pista'''', declarou. Questionado, porém, sobre a velocidade do Airbus na hora do pouso, Bologna acusou indiretamente a Aeronáutica e a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). ''''A velocidade máxima permitida de uma aeronave no pouso varia de acordo com o tamanho da pista e as condições. Toda vez que um avião decola, ele tem um plano de vôo, que é completo e inclui o pouso'''', disse. ''''Congonhas sempre foi operada com restrições. Quando chovia, era interrompida.'''' Em outro momento, o executivo voltou a deixar mais clara a sua opinião: ''''A gente só pousa e decola em um aeroporto quando está devidamente autorizada pela Infraero.'''' O peso do Airbus foi outro momento tenso da entrevista. Bologna reiterou que a aeronave acidentada transportava 161 passageiros, 18 funcionários da companhia e 6 tripulantes. ''''Infelizmente, não há registro de sobreviventes'''', afirmou. Segundo o executivo, o Airbus decolou com 62,5 toneladas com destino a um aeroporto que opera com um limite de peso de 64,7 toneladas. ''''O avião estava absolutamente dentro dos requerimentos de despacho operacional, com plano de vôo aprovado pelo Cindacta da área''''. LOTAÇÃO A cúpula da TAM negou com veemência que o avião estivesse superlotado. O vice-presidente operacional da companhia, Aleberto Fajerman, disse que o Airbus estava configurado para 174 passageiros. Esclareceu, contudo, que existem também assentos para tripulantes em condições de uso, uma vez que dispõe de máscaras de oxigênio. ''''A capacidade máxima é de 185. Só havia 186 pessoas a bordo, pois existia uma criança de colo'''', esclareceu Fajerman. O presidente da empresa assegurou que esse detalhe não invalida o contrato firmado entre a TAM e as seguradoras. ''''A existência de um porcentual de crianças de colo dentro dos aviões já está previsto''''. Para sustentar a sua teoria, ele citou que há 29 fileiras de três poltronas com quatro máscaras de oxigênio cada uma, para dar conta de quantas crianças de colo forem necessárias. Bologna parecia estar orientado a evitar toda e qualquer hipótese sobre o acidente. Em quase duas de entrevista, esquivou-se de todas as perguntas a respeito das possíveis causas da tragédia. Ao admitir que o avião estava com um dos reversores travados - ''''pinados'''', no jargão usado pelos pilotos em entrevista ao Estado anteontem -, os executivos da empresa procuravam se apoiar explicações técnicas. ''''Tenho aqui o manual da aeronave e ele mostra que o reverso não é requisito obrigatório para esse tipo de pouso'''', assinalou o vice-presidente técnico da TAM, Ruy Amparo. ''''O Airbus é tão digital que, ao menor sinal de problemas para o piloto, existem uma série de procedimentos para inibir essas situações.'''' No momento mais emotivo da entrevista coletiva, os executivos da TAM esboçaram consternação ao comentarem sobre um dos pilotos a bordo, Kleyber Aguiar Lima, de 54 anos,funcionário da TAM desde 1987. ''''Não sabemos ainda quem estava no comando durante o pouso, mas ele conhecia a aeronave. Estava próximo de ser promovido e construiu sua trajetória na empresa.''''

Bruno Tavares e Sérgio Duran, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 05h15

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