Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Combate à intolerância religiosa pode começar pelo celular

Aplicativo recém-lançado registra denúncias de agressão e preconceito; leia a reportagem finalista do Prêmio Santander

Jheniffer Aparecida Corrêa Freitas, especial para o Estado

16 de dezembro de 2017 | 04h00

Após acompanhar uma série de ataques a terreiros e a praticantes de religiões de matizes africanas, o candomblecista Leonardo Akin, de 24 anos, decidiu tomar uma iniciativa. Nascia ali o Oro Orum-Axé Eu Respeito, aplicativo que registra denúncias de agressões e de preconceito. "Criei o aplicativo porque não dá mais para ver essa violência e retribuir apenas com mobilizações espalhadas e passeatas", conta Akin. 

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Na ferramenta, o usuário encontra informações sobre direitos e leis que garantem liberdade religiosa no País e o combate à discriminação. Além disso, há como fazer o cadastro de casas de matrizes africanas, um botão de SOS, atualmente funcionando apenas no Rio, e o formulário de denúncia. 

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As vítimas são orientadas a fazer notificações com testemunhas, provas, o máximo de informações sobre o agressor, além de vídeos, fotos e textos. A identidade do denunciante é preservada, por motivos de segurança. "Precisamos de políticas públicas, mas também de segurança para as vítimas denunciarem", disse Akin.

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Em 2016, o canal oficial de denúncias, o Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, recebeu 177 notificações de discriminação envolvendo praticantes de religiões de matizes africanas. Isso corresponde a 23% do total das denúncias, porcentual alto, quando se considera que 63% das notificações não determinam a religião da pessoa. Até junho de 2017, foram 66 denúncias. 

Cenário que Akin, o idealizador do aplicativo, quer ajudar a mudar. A inspiração para isso foi o Nós por Nós, criado pelo Fórum da Juventude, para denunciar a violência policial. Akin já entrou em contato com o Ministério Público e com a Defensoria Pública, para que os casos registrados não fiquem impunes. "O intuito é fazer uma rede completa de apoio. Eu não quero que seja apenas mapeado, quero a apuração desses crimes."

Atualmente, o aplicativo soma mais de mil downloads. Gabriela Santos, de 28 anos, é uma das que têm o aplicativo no celular. "Felizmente, nunca precisei usar o recurso de denúncia, mas li sobre os direitos e as leis, o que me ajudou a esclarecer dúvidas."

Formado em Políticas Públicas, Felipe Brito diz que a iniciativa infelizmente não consegue evitar os ataques. Mas tem papel importante ao facilitar as notificações.  "A rapidez da denúncia, é muito importante. Ainda mais, dada a urgência e o grau de violência que tem ocorrido",  diz Brito.  "Este recurso denuncia o quão ausente é o Estado no combate aos crimes de ódio religioso. A iniciativa é legítima, mas parte da vítima, não de quem tem obrigação legal de zelar pela liberdade religiosa."  

* FINALISTA DO 12º PRÊMIO SANTANDER JOVEM JORNALISTA, JHENIFFER APARECIDA CORRÊA FREITAS É ESTUDANTE DA UNIVERSIDADE DE MOGI DAS CRUZES (UMC)

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