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Combatendo fake news

A primeira coisa que podemos fazer para lutar contra as notícias falsas é estourar nossa própria bolha

Daniel Martins de Barros *, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 03h00

Sempre existiram notícias falsas, tanto por engano como de propósito, e não é de hoje que elas são utilizadas como armas de combate na verdadeira guerra de informações em que estamos inseridos, querendo ou não. Todo mundo que tem uma agenda tenta conquistar os corações e as mentes das pessoas; se para tanto achar que precisa distorcer a verdade (ou mesmo mandá-la às favas), a tentação de espalhar mentiras é grande. Mas nunca elas foram tão fáceis de produzir, divulgar e confundir a opinião pública como hoje, após o surgimento da internet e, particularmente, das redes sociais. 

Seus impactos negativos podem ser graves. Se a questão fosse só as bobagens prosaicas que, disfarçadas de notícias sobre saúde, por exemplo, afirmam coisas como dormir com uma rodela de cebola nas meias cura enxaqueca, o efeito seria inócuo. Mas, mesmo nas bizarrices ligadas à saúde, as consequências são graves: na semana passada, a Procuradoria-Geral do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, abriu uma investigação contra uma mulher que propala as propriedades miraculosas de um suco fermentado de repolho.

Segundo ela, a diarreia explosiva que ele causa reverteria o processo de envelhecimento, diversas doenças e até o comportamento homossexual. Com dezenas de milhares de seguidores fiéis divulgando suas pretensas pesquisas como se fossem notícias, o risco para a saúde dos mais incautos é real.

O mesmo acontece nas editorias de política, economia, comportamento – nenhuma área está livre. Para além dos debates no mundo virtual, o mundo real é afetado quando as pessoas, tomando informações falsas por verdadeiras, decidem de forma errônea. Deixam de vacinar seus filhos, correm atrás de tratamentos inócuos, compram coisas para as quais não terão uso, aplicam o dinheiro em quimeras, votam motivadas por um medo irreal, estrategicamente alimentado por mentiras travestidas de notícias.

E os prejuízos não param aí. A desconfiança crescente macula a própria ideia de noticiário – se é difícil separar o joio do trigo na seara de notícias, corremos o risco de desacreditar de tudo, considerando todo veículo de comunicação como meio de propagação de mentiras interesseiras. Como, aliás, têm certeza tanto liberais como conservadores. Os primeiros acreditam que a grande mídia é controlada pelas corporações capitalistas e conservadoras; os outros também estão certos de que é controlada, mas por acadêmicos e intelectuais liberais. Ambos com o mesmo grau de certeza absoluta.

Esforços vêm sendo feitos para evitar o problema. Instrumentos de checagem própria ou pelos usuários, chancela de veículos com credibilidade, aviso sobre sites conhecidos por distribuir fake news são algumas das iniciativas das corporações. Mas existem algumas coisas que podemos fazer na outra ponta da linha, assumindo nós mesmos, leitores, posturas que nos protejam de acreditar em mentiras.

Podemos começar revendo nossas redes sociais. Sabemos que são altamente enviesadas – nos relacionamos só com pessoas que pensem como nós, banindo relacionamentos com pessoas e grupos diferentes. É cognitivamente mais confortável, claro, mas essa paz que vem da coesão entre as pessoas e de seu isolamento numa bolha de segurança é a fórmula perfeita para o surgimento do pensamento de grupo (groupthinking). Quando isso acontece, não só as pessoas caminham todas na direção de um pensamento homogêneo, mas essa conformidade é alcançada à custa da negação de evidências em contrário, da supressão voluntária do raciocínio crítico individual e da estereotipagem dos que discordam. Passa-se a crer que os opositores só podem ser burros ou mal intencionados. 

Eu sei: você acha que está livre de tal fenômeno. Mas infelizmente não está. Essa é uma característica humana que não conseguimos evitar. Uma vez dentro do grupo, tendemos a acreditar automaticamente em qualquer notícia veiculada nele, por mais estapafúrdia que seja. 

A primeira coisa que podemos fazer para combater as fake news, portanto, é estourar nossa própria bolha. E por mais difícil que seja, ter coragem de perguntar: “E se quem discorda de mim está certo?”.

* É PSIQUIATRA

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