Combater álcool na direção é a saída

São inevitáveis os acidentes de trânsito relacionados ao álcool? Vamos lembrar de alguns casos famosos. Há cerca de um ano, um acidente na madrugada matou cinco jovens no Rio e alcançou manchetes em uma dimensão um pouco maior do que o típico - talvez porque morreram cinco pessoas, talvez porque eram todos jovens. O pai de uma das moças mortas confirma que o motorista estava alcoolizado e dirigia em alta velocidade. Este ano também se rememoraram os dez anos da morte da princesa Diana, em acidente relacionado ao álcool. Mas somado aos casos "célebres", não faltam histórias quase anônimas, a não ser, claro, para quem perdeu os entes queridos. O fato é que acidentes de trânsito relacionados ao álcool acontecem rotineiramente no mundo. Por outro lado, o beber e dirigir é uma das áreas mais estudadas e com mais evidências científicas em diversos países. Em função de décadas de pesquisa e ações de impacto significativo, a partir da década de 80 houve queda considerável no número de acidentes fatais relacionados ao álcool no Hemisfério Norte. É o caso dos Estados Unidos, em que a contribuição de mortes em acidentes relacionados ao álcool comparadas com as mortes no total de acidentes baixou 35% de 1982 para 2004. Essa redução foi ainda maior entre jovens na faixa dos 16-24 anos. Tal diminuição se deveu, principalmente, ao desenvolvimento e à implementação de uma série de medidas para lidar com a situação nos EUA, Canadá, Austrália, Japão e Europa. Dentre elas, algumas parecem trazer resultados especialmente positivos, como o uso do bafômetro, o aumento da idade legal para beber e a suspensão da habilitação. E no Brasil? Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizada em São Paulo, Santos, Diadema e Belo Horizonte, aponta que um em cada cinco motoristas estava dirigindo após ter bebido. Culpar apenas os motoristas desses acidentes não dá conta da complexidade da questão, mas o dirigir alcoolizado está longe de ser uma fatalidade. Acima de tudo, no entanto, a experiência positiva com o uso de medidas restritivas em vários países aponta que elas vão funcionar, se a população realmente acreditar que o motorista infrator será pego e se perceba que a penalidade será aplicada rapidamente. Assim, em vários países com políticas constantes nessa área, dirigir alcoolizado é agora evitado não unicamente para impedir problemas legais, mas porque a população considera esse um comportamento incorreto. Não é o que observamos no Brasil. Aqui, onde o automóvel é bastante utilizado como meio de transporte, o uso de álcool é tolerado e até estimulado e a fiscalização é falha. Assim, o hábito de beber e dirigir está longe de ser considerado um caso isolado de comportamento de uns poucos indivíduos anti-sociais. Mas, para o bem da saúde da população, principalmente dos jovens, esse deveria ser nosso objetivo.

Ilana Pinsky e Flávio Pechansky, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.