Comemoração e Dor

Parentes de desaparecidos elogiam condenação do País e cobram justiça

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

Familiares de mortos e desaparecidos na guerrilha do Araguaia se reuniram ontem em São Paulo para comentar a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (OEA). No encontro, uma coletiva de imprensa convocada às pressas e pouco concorrida, uma das pessoas que mais chamaram a atenção foi João Carlos Grabois, administrador de empresas, conhecido como Joca.

Normalmente avesso a eventos públicos, ele deu um depoimento que emocionou os outros familiares e fez vários deles chorarem. "A decisão de uma corte instalada longe daqui, lá na Costa Rica, fez a gente sentir, finalmente, que não estamos sozinhos. Há 37 anos eu procuro justiça no meio de uma sociedade que parece querer passar uma borracha no que aconteceu, como se o problema só interessasse aos familiares, como se fosse uma questão revanchista, e não tivesse nada a ver com o Brasil e sua história."

Joca nasceu em uma prisão, em fevereiro de 1973, num dos períodos mais duros da ditadura militar. A mãe dele, Crimeia de Almeida, havia sido presa um pouco antes, por sua militância no PC do B e envolvimento com o movimento guerrilheiro que era combatido pelo Exército sem que o País soubesse. Censurada, a imprensa estava impedida de divulgar qualquer fato sobre a guerra no Sudeste do Pará.

O pai dele, o guerrilheiro André Grabois, morreu sem ver o filho, durante um confronto com um destacamento militar, em dezembro de 1973. Seu corpo nunca foi encontrado.

Quando Joca disse que há 37 anos busca o pai, se referia na verdade à mãe, que desde o primeiro instante em que deixou a prisão passou a organizar ações para esclarecer os fatos sobre a morte do companheiro e localizar seus restos mortais. Chegou a usar uma parte do dinheiro que recebeu da indenização como vítima da ditadura para a montagem de um arquivo particular com informações sobre os militares envolvidos na guerra.

Ao lado do filho, no encontro de ontem, Crimeia, com 64 anos, parecia aliviada e mais esperançosa de ver a Justiça punir os eventuais responsáveis por violações de direitos humanos ocorridos naquela guerra. "Recebi a sentença com muita satisfação", disse. "Espero que a decisão da corte leve à abertura dos arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, o que vai nos ajudar muito."

Nos depoimentos dos familiares, nenhum governo do período de abertura democrática, que já dura 25 anos, fez boa figura. Todos foram acusados de ter medo do poder dos militares brasileiros. Os menos poupados foram o de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Por terem sido perseguidos pela ditadura, deveriam ter se esforçado mais pelo esclarecimento dos fatos e punição dos culpados, segundo os presentes no encontro.

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