Comércio da Avenida Pacaembu funciona na clandestinidade

Como se estivesse oferecendo um produto ilegal ou perigoso, o funcionário de uma loja na Avenida Pacaembu, na zona oeste da capital, aborda as pessoas que passam pela calçada e olham para o local. "O que você está procurando pode ser encontrado naquela porta ali", diz, apontando para os fundos de um casarão lacrado por ordem da Prefeitura. "Não precisa ter medo, eu garanto." O tal produto, na verdade, não passa de bichos de pelúcia, bonecas, carrinhos e outros brinquedos. É dessa forma, às escondidas, que as lojas de um dos endereços mais conhecidos de São Paulo estão funcionando. A PBKids, que passou a vender brinquedos pela porta dos fundos para não chamar a atenção de fiscais ou da Justiça, é apenas um exemplo. Tudo porque o Ministério Público resolveu, há duas semanas, colocar em prática a Lei de Zoneamento da cidade, que proíbe que seja aberto qualquer tipo de comércio na Avenida Pacaembu. Os fiscais distribuíram multas, lacraram algumas lojas e intimaram outras. O resultado prático dessa "caça às bruxas" é uma Avenida Pacaembu cada vez mais deserta e desvalorizada. Quinze imóveis estão atualmente à venda ou para alugar, todos com mais de 500 m2. Se o Ministério Público fechar as lojas irregulares, serão mais 18 imóveis abandonados. "O metro quadrado na Pacaembu, que custava R$ 1.300 na semana passada, deve estar valendo agora apenas R$ 900", diz o corretor Douglas Bozzi. "Já faz um tempo que as empresas estão se mudando daqui. Para piorar, o varejo está fechando e as pessoas não querem mais investir na região." A briga entre o Ministério Público e os lojistas sacramentou de vez a decadência comercial da Avenida Pacaembu. A Lei de Zoneamento classifica o endereço como Z8-CR1-1, ou seja, corredor para prestação de serviços. Clínicas, escritórios, bancos e showrooms podem ficar. Já lojas, livrarias e drogarias nunca deveriam ter se instalado lá. "A lei precisa ser cumprida. Caso contrário, as ruas de todo o bairro serão tomadas por esses tipos de estabelecimentos", diz Iênides Benfati, coordenadora da associação de moradores Viva Pacaembu por São Paulo. "Eles acabam depreciando toda a região. Isso sem falar na poluição visual e no trânsito que as lojas provocam." Temendo prejuízos em pleno Natal, porém, os lojistas tentam de todos os modos manter seus estabelecimentos em funcionamento por mais alguns dias. "Não dá para fechar nesta época do ano", afirma Léia Moreira, gerente da loja de brinquedos PBKids. A dona da loja infantil Petit Ami, que apesar da lacração também resolveu abrir as portas, é ainda mais incisiva. "Não adianta lacrar", reclama. Ela estava exaltada e não quis se identificar. "Se eles quiseram fechar a loja, vão ter de me prender."

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