Comércio reabre e clima volta ao normal no Rio

O Rio voltou hoje à normalidade, com comércio, escolas e agências bancárias abertas. Houve apenas incidentes isolados em diferentes pontos da Região Metropolitana. Na capital e em Niterói tudo funcionou sem problemas. Em cada esquina, no entanto, o assunto principal era o episódio de ontem. A população se perguntava se o fechamento das lojas era fruto de boataria ou de intimidações reais dos criminosos.Em Ramos, zona norte, o supermercado Champion, próximo ao Complexo do Alemão, foi alvo de uma bomba lançada por bandidos. Lá, a ordem para encerrar o expediente na segunda-feira não fora obedecida. O artefato não explodiu, mas deixou os funcionários em pânico. Em Mesquita, na Baixada Fluminense, foram apreendidos avisos ameaçadores.No bairro Itaúna, em São Gonçalo, Grande Rio, o comércio não abriu por causa de uma violenta manifestação de bandidos na noite de ontem, quando oito ônibus das empresas Rio Ita e Tanguá foram queimados por um grupo de vinte homens encapuzados e armados. Funcionários e passageiros foram saqueados. O prejuízo calculado foi de R$ 1 milhão, segundo o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários.Hoje os coletivos mudaram de itinerário para evitar novos ataques, gerando revolta de passageiros que tiveram de andar até três quilômetros. Em Belford Roxo, na Baixada, criminosos também atearam fogo em ônibus ontem à noite. Uma passageira, a recepcionista Vera Lúcia Lafer, de 48 anos, ficou com 30% do corpo queimado e está hospitalizada.TurismoCancelamento de reservas em hotéis e telefonemas de turistas interessados em saber mais sobre o pânico que afetou o comércio ontem assustaram os empresários de turismo do Rio, que já começaram a se organizar para pedir medidas que melhorem a imagem da cidade no exterior e no resto do País.A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) recebeu vários pedidos de informações de turistas e reclamações de donos de hotéis entre ontem e hoje. Segundo Alfredo Lopes, presidente da associação, o episódio de ontem causa prejuízos muito graves para a cidade. "Nós somos o setor mais sensível a esse tipo de acontecimento. As pessoas não pararam de ligar para saber o que estava acontecendo aqui", contou.Lopes afirma que vai esperar passar as eleições para defender uma intervenção federal no Estado. "A reação do atual governo foi boa, mas a situação é antiga e o Rio precisa de ajuda para desarmar as favelas."Vera Potter, vice-presidente da Associação dos Agentes de Viagem, concorda que o empresariado tem que propor soluções. "Nós somos os mais afetados. Então, temos que agir e ajudar o governo.". Os efeitos da imagem negativa já foram sentidos no Hotel Luxor Regente, em Copacabana. Ontem, 16 paulistas cancelaram as reservas. "Eles ficaram assustados", disse Pedro Varella, gerente-geral. Apesar da preocupação dos empresários, alguns turistas ficaram alheios à crise, como foi o caso dos italianos Francesco Galli e Pietro Burigo, que embarcaram hoje no Rio para Veneza. Eles souberam do clima de terror pelos jornais e não perceberam que o comércio estava fechado, já que passaram o dia na praia. "Não acho que o Rio seja mais perigoso que as outras grandes cidades", disse Galli.Ligações anônimasA Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) investiga se a determinação para fechar o comércio partiu de traficantes. A chefe de investigação, Marina Magessi, disse que algumas das dezenove pessoas que foram presas ao ordenar o fim do expediente disseram ter agido depois de receberem ligações anônimas. Doze cartazes com ameaças, supostamente de criminosos, foram apreendidos pela polícia.De acordo com Marina, se a ação tivesse sido orquestrada pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, ele não a teria negado, já que é "um grande marqueteiro". "Ele não tem motivo para fazer isso." Ontem, no entanto, comerciantes disseram que as ameaças haviam sido feitas em nome do bandido.Alguns dos presos afirmaram em depoimento que, na ontem de manhã foram obrigados por traficantes a espalhar cartazes com ordens para encerrar o expediente nas lojas. InvestigaçõesAlém da DRE, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e a Polícia Federal também investigam o episódio. Com o auxílio da Telemar, os policiais estão fazendo um rastreamento na central telefônica do Instituto de Previdência do Rio de Janeiro (Iperj), de onde partiu um panfleto com supostas ameaças do Comando Vermelho a comerciantes, enviado por fax ao jornal Extra. Hoje um comunicado com a assinatura do CV foi distribuído à imprensa. Segundo o texto, que contém erros de português, "o fato de os comércios terem que fechar nesta segunda-feira, dia 30 de setembro de 2002, não foi por terrorismo, nem tampouco ato político, foi um manifesto contra o tratamento arbitrário sofrido pelos presos de Bangu 1, do Batalhão de Choque, e de todo o Estado." Diz ainda: "Caso não haja nenhuma providência nesse sentido, voltaremos sim a fechar todo o comércio no Rio de Janeiro, e caso venham a abrir suas portas, verão do que somos capazes." O comunicado foi distribuído por um rapaz que disse ter sido forçado por traficantes a entregá-lo.O Chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, afirmou que trata-se de "um manifesto de cunho político que visa a jogar a polícia contra a população." Para o Secretário de Segurança Pública, Roberto Aguiar, o texto não é do CV.

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