Comissão fará recomendações aos envolvidos na queda do avião da Gol

As análises do conteúdo das caixas-pretas do Boeing 737-800, da Gol Linhas Aéreas, e do jatinho Legacy, da ExcelAir, podem ainda não ser conclusivas, mas elas indicam que recomendações devem ser feitas a todas as partes envolvidas na tragédia do vôo 1907, o que inclui o controle do tráfego aéreo brasileiro.Essa informação foi passada neste domingo, na capital canadense, pelo coronel Rufino Antônio da Silva Ferreira, chefe da Divisão de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Dipaa) e presidente da comissão que investiga as causas do acidente com o vôo 1907 da Gol. "Sempre há algo que pode ser melhorado", afirmou Ferreira em entrevista ao Estado, realizada no lobby do hotel em que está hospedado, nos arredores de Ottawa.Ferreira lidera uma equipe que investiga desde a cultura gerencial das empresas envolvidas no acidente até o trabalho feito pelo controle aéreo brasileiro. "Tudo deve ser questionado e revisto", resumiu. Ainda entram nessa lista de recomendações os aviões e equipamentos que foram instalados neles. Até a infra-estrutura dos aeroportos de São José dos Campos e Manaus, de onde decolaram o Legacy e o Boeing 737-800, respectivamente, vai ser analisada. De acordo com Ferreira, algumas recomendações podem ser feitas antes mesmo do fim das investigações que, por enquanto, não têm data para terminar.Análises continuamNos 45 minutos que conversou com a reportagem do Estado, Ferreira falou sobre as investigações e sobre as análises do conteúdo das caixas-pretas. A retirada e a análise desses dados continuam sendo feitas nos laboratórios do Conselho de Segurança dos Transportes do Canadá (Transportation Safety Board), perto do aeroporto de Ottawa. Não há data prevista para o fim dos trabalhos.Por conta disso, o coronel Rufino Ferreira, que está em Ottawa desde o começo da semana passada, também não tem data para voltar ao Brasil. Isso porque, assim que for encontrado, o cilindro contendo as gravações de voz da cabine do Boeing 737-800 já tem destino certo: ele vai ser enviado imediatamente para a capital canadense. "Se eu ainda não estiver dentro do avião quando o cilindro com as gravações da cabine do Boeing for encontrado, fico por aqui", contou o coronel. "Já tenho uma equipe preparada para nos enviar esse cilindro."Caixas-pretasSobre as caixas-pretas dos dois aviões, Ferreira afirmou que todo seu conteúdo foi recuperado, incluindo os dados de vôo do Boeing 737-800, cujo cilindro ficou danificado com o impacto. Com o conteúdo de três das quatro caixas-pretas, os técnicos dos laboratórios do Conselho de Segurança dos Transportes produziram gráficos e animações próximas da realidade. Todo esse material vai ser levado para o Brasil quando os trabalhos em Ottawa terminarem.Nem a falta do cilindro com a gravação das vozes do piloto e do co-piloto do Boeing parece ter dificultado as análises. Como explicou Ferreira, numa investigação dessa importância e complexidade, "trabalha-se com o que tem". "Nunca está faltando nada, tudo que conseguimos é acréscimo", contou. Mesmo assim, ele disse que aguarda a localização e o envio da outra caixa-preta do Boeing 737-800.Questionado se as caixas-pretas do Legacy indicavam se houve variação na altitude de vôo ou se estão gravados os contatos que o controle aéreo afirma ter feito com os pilotos do jatinho executivo, ele foi evasivo: "Dados separados não servem para nada", afirmou o coronel. "É preciso cruzar esses dados com o que está sendo pedido, por exemplo, ao controle do tráfego aéreo no Brasil." Logo em seguida, completou: "A expectativa de chegar a resultados a curto prazo é impossível".Por diversas vezes durante a entrevista, ele falou sobre a complexidade do trabalho feito pelos militares brasileiros, que contam com a ajuda de dois outros países (Canadá e Estados Unidos). "Não existe nenhum aspecto que vá me fazer ir por um caminho ou por outro", explicou.Três fatoresPara entender o que provocou a tragédia, Ferreira estuda três fatores: humano, material e operacional. O fator operacional, explicou o coronel, é a relação que existe entre os dois primeiros.Ferreira lembrou ainda que a investigação sobre a tragédia do vôo 1907 "não é um trabalho de brasileiros para brasileiros, mas sim do Brasil para o mundo". "Tudo que for questionado, tudo que for levantado vai ser usado pela comunidade internacional", explicou.Em Ottawa, Ferreira trabalha com o coronel Mounir Rahman, que investiga os problemas de radionavegação dos aviões. Além dos dois militares, há representantes da Gol Linhas Aéreas, ExcelAir, Boeing e Embraer. Dos Estados Unidos, vieram ainda representantes da Federal Aviation Administration (FAA), agência que administra a aviação civil americana, e da National Transportation Safety Board (NTSB), agência independente que investiga acidentes aéreos.

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