Giovana Girardi / EstadÃO
Giovana Girardi / EstadÃO

'Como a dor vai passar?'; histórias de Brumadinho, 1 mês após tragédia

A tragédia de Brumadinho completa um mês nesta segunda com saldo de 177 mortos já identificados e 133 desaparecidos

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 03h00

Luiz de Oliveira Silva faria 44 anos em 2 de fevereiro. Foi sepultado um dia antes, vítima do desastre em Brumadinho. Funcionário da Vale, era conhecido na cidade como Luiz Sorriso, por estar sempre disposto a ajudar quem precisasse. Membro de um grupo de voluntários da empresa, cruzava a cidade na sua brasília reformando casas, ajudando a arrecadar cestas básicas ou remédios para quem precisasse, ou fazendo qualquer outra coisa que fosse necessária

Há 14 anos trabalhando na Vale, voltava do almoço, em um ônibus, quando foi arrebatado pela onda de rejeitos. A empresa era a principal fonte de emprego da família, onde também trabalhavam seus dois irmãos, que escaparam: um estava de licença médica e o outro só entraria mais tarde naquela sexta-feira, 25 de janeiro.

“Trabalhei na Vale por mais de 26 anos, comecei quando ainda era Ferteco, empresa de uma família de Brumadinho. Quando veio a Vale, cresceu muito, veio muita gente de fora, mas sempre foi uma empresa das famílias daqui. Na comunidade ao lado da mina, do avô ao sobrinho, todo mundo trabalhava lá”, conta Geraldo “são José” de Oliveira Silva, que estava no hospital em Belo Horizonte, recém-operado da coluna, quando soube do acidente. “Corri para lá de qualquer jeito, sou bombeiro-voluntário, tentei ajudar no resgate, mas não encontrei meu irmão.”

Na comunidade onde Luiz estava construindo uma casa, crianças pintaram nesta semana em um muro a sua famosa brasília, seu xodó. Geraldo conta que Luiz sonhava em fazer um curso de eletricista automotivo para poder cuidar ele mesmo do carrinho. Agora Luiz Otávio, seu filho de 12 anos, que sempre quis trabalhar na Vale, como os tios, já faz planos para realizar o sonho do pai.

“Além do meu irmão de sangue, perdi aquelas pessoas todas com quem trabalhei por quase 27 anos. Amigos que eu encontrava no bar, na igreja, no futebol, em Inhotim. A maioria deles está lá embaixo da lama ainda. Já sepultei muitos. O rio está sangrando junto com a gente. Por ali só vejo urubus sobrevoando. Como essa dor vai passar?”

'Não é vontade de Deus, mas da ganância'

Em dez anos vivendo em Brumadinho, o professor Jorge Rasuck, de 48 anos, tinha se acostumado com a vida tranquila da cidade do interior. Como gerente de banco e professor universitário, dedicava parte do seu tempo também a ser diácono da Igreja Católica, responsável pelas exéquias – cerimônias fúnebres – e fazia no máximo um enterro por mês. Desde que a barragem da Vale se rompeu, porém, já participou de 25. 

“Não dá nem para fazer velório, só recomendo a Deus a alma das pessoas e já temos de enterrar”, relata. Rasuck e muitos religiosos também têm feito visitas frequentes às famílias das vítimas para dar consolo. Só ele já visitou mais de cem casas, mas a demanda por um ouvido, um abraço, uma palavra amiga está em toda a cidade. 

“Na faculdade ASA, perdemos alunos, ex-alunos. Só em uma turma se foi um aluno, o pai de outro e os tios de outros dois. Batizei há três meses um bebê cuja mãe está desaparecida. Fui a casas que perderam três, quatro familiares. Uma senhora que perdeu três netos, um de cada filho. Uma mãe que perdeu dois filhos e um genro. Cada casa de Brumadinho perdeu ao menos um conhecido”, conta. 

“Às vezes rezamos, lemos trecho da Bíblia, às vezes conversamos. Outras só ouvimos, vemos fotos. Tem gente que chora o tempo todo e a gente chora junto. Não tem muito o que fazer. É abraçar e dizer que essa nunca foi a vontade de Deus. É a vontade humana, da ganância, de sempre ter mais, de falta de amor ao próximo”, afirma Rasuck, ele mesmo também precisando de apoio. 

“Até me afastei dessa tarefa por alguns dias. Estou com dores no corpo todo. Sonho com helicópteros, com as pessoas que ainda não foram encontradas, é um desespero. Penso se é um aviso de que vão ser achadas...”

'A vida toda mudou. É só tristeza'

A filha mais velha conseguiu se salvar, mas seu neto, sua caçula e seu genro, não. Entre dar apoio para Paloma ou chorar pelo netinho Heitor, de 1 ano e 6 meses, por Pâmela, de 13, e por Robson, de 26, o trabalhador rural Lucimar Ferreira da Cunha só tem se esforçado para não desabar. 

“A vida toda mudou, está tudo de pernas para o ar. É só tristeza... Tem hora que a gente acha que nem vale a pena continuar. Só não acabou tudo porque temos a Paloma”, conta, quase sem força na voz. 

Paloma Prates da Cunha, de 22 anos, estava em casa com o marido, Robson Máximo Gonçalves, funcionário da pousada Nova Estância, o bebê e a irmã, quando ouviu um estrondo. Teve tempo apenas de se levantar. A irmã e o filho estavam na sala, assistindo TV. Ela estava sentada ao lado do marido, na cama. De repente, tudo ficou escuro. 

A jovem dona de casa foi arrastada por mais de 200 metros e acabou conseguindo emergir ao lado da pilastra do pontilhão da estrada de ferro, que também foi arrastado pela força da onda de rejeitos. Dois funcionários da Vale estavam por perto, a viram e conseguiram resgatá-la com uma corda – uma imagem dramática que acabou se tornando uma das mais marcantes da tragédia.

O corpo de Robson foi encontrado no dia seguinte e o de Pâmela, alguns dias depois. O bebê, porém, ainda não foi localizado, o que só aumenta a tristeza da família. Paloma está abatida e não quer conversar com ninguém. Ela, o pai e a mãe estão morando juntos, em uma casa que a Vale alugou, já que a de Lucimar também foi interditada após o desastre. “A gente era tudo muito unido, não sei o que vai acontecer.”

'Não tinha ideia que havia uma mineradora tão perto'

O casal de paulistanos Noeli Mendes e Leandro Oya se preparou para sair logo cedo da Pousada Nova Estância. O plano era completar na manhã daquela sexta, 25 de janeiro, a visita ao Inhotim, iniciada no dia anterior, voltar na hora do almoço e deixar a filha Laura, de 7 anos, aproveitar a piscina no restante do dia. 

A pequena só falava disso e atazanou os pais para voltarem logo para a pousada. Quando estavam prontos para isso, porém, Oya sugeriu que almoçassem no Inhotim mesmo. Tinha ouvido falar bem do restaurante local e queria testá-lo. Foi o que os salvou. Na pousada localizada no Córrego do Feijão, palco da tragédia da Vale, pelo menos 12 pessoas morreram.

“Mal colocamos a comida no prato, a chef veio a nossa mesa e nos disse que uma barragem havia rompido no Córrego do Feijão. Eu não tinha consciência do que aquilo significava, não sabia que a pousada ficava bem abaixo da Vale. Só que o córrego passava quase dentro da pousada. Meu marido tinha tentado pescar lá no dia anterior, a piscina ficava quase ao lado do córrego”, conta Noeli, ainda desnorteada com o que aconteceu.

Enquanto o museu era evacuado, a família foi tentar descobrir se poderia voltar à pousada para pegar as coisas, ainda sem saber que o local havia sido atingido. “A gente ainda não tinha noção da gravidade. Um tenente dos bombeiros só nos disse que não poderíamos voltar. Foi quando comecei a ler as notícias e tremi.” 

Um mês depois do desastre, Noeli diz que “ainda não caiu a ficha” sobre o que aconteceu. “É tudo muito surreal. Vendo as fotos, a gente nem consegue identificar onde ficava a pousada”, diz. "E a empresa sabia que isso podia acontecer, tinha aquele relatório com previsão de perdas. Não foi tragédia, foi crime. Isso me dói muito mais.”

Naquela manhã, ela havia tomado café com Maria de Lurdes de Costa Bueno, a Malu, ainda desaparecida, que estava hospedada na Nova Estância com o marido, Adriano Ribeiro da Silva, e os filhos dele – Luiz e Camila. Luiz saíra cedo para Belo Horizonte para buscar a namorada, Fernanda Damian de Almeida, grávida de cinco meses, que estava chegando da Austrália, onde os dois viviam. “O voo dela tinha pousado às 10 horas. Eles tinham acabado de chegar à pousada quando tudo aconteceu.”

Sítio de 150 anos guardava história de família

O sítio em Córrego do Feijão estava havia 150 anos com a família Coelho e nos últimos anos tinha virado um refúgio de fim de semana para quem vivia em Belo Horizonte. Na hora do rompimento da barragem não havia ninguém em casa, mas o local foi totalmente tomado pela lama.

Passadas três semanas do acidente, Arthur Alves de Sousa Netto, de 37 anos, abordou o capitão dos Bombeiros Leonard de Castro Farah e perguntou se seria possível tentar resgatar bens de valores sentimentais, como um quadro de fotos antigas e uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que estava há gerações na família da sua mulher, Erika Coelho, de 43 anos. A casa é dos pais dela. Sua mãe é prima de Cleosane Coelho Mascarenhas, dona da pousada Nova Estância, que morreu no desastre com o marido e o filho.

“Eles perderam os primos, a casa onde começou a história da família. Queriam ao menos algumas lembranças”, disse Arthur ao Estado. Farah aceitou o desafio. “Quando digo que estamos preparados para qualquer missão, não é da boca pra fora”, escreveu o capitão em seu perfil no Instagram.

Um bombeiro de São Paulo, da equipe da corporação paulista destacada para ajudar nas buscas, se prontificou a liderar o resgate. Era uma operação arriscada para eles. Os militares chegaram de helicóptero o mais perto possível do local, que ainda estava cercado por lama em estado fluidificado.

A parte da frente da casa, onde ficavam sala, cozinha, estava toda destruída, mas os quartos foram preservados. Ali estavam a santa e fotos de Erika e sua irmã ainda pequenas, além de outras imagens. Tudo foi recuperado.

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