Como foi o toque de recolher em São Paulo

Os ladrões e traficantes que moram no Glicério, região central da cidade, decretaram na manhã de ontem o toque de recolher em parte do bairro, como represália pela morte de dois integrantes de uma quadrilha acusada de atacar apartamentos e lojas, e de vender drogas. Os primeiros avisos do toque de recolher foram feitos pelo telefone, no fim da noite de anteontem. Depois, de carro e de moto, ontem pela manhã, os bandidos passaram pelos estabelecimentos avisando os comerciantes e seus funcionários. Deveriam fechar e abrir somente após o velório e o enterro dos ladrões e traficantes Paulo Sérgio dos Santos, 28 anos, nascido na cidade de Montados, na Paraíba, e José Iranildo Casemiro da Costa, de 34, de Capela, Alagoas. Os dois foram mortos no começo da noite de anteontem por militares das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), na frente do prédio 223 da Rua Oscar Cintra Gordinho, onde a quadrilha ocupava dois apartamentos. Com os oito bandidos presos e com os dois mortos, os PMs apreenderam uma metralhadora, quatro pistolas semi-automáticas, um fuzil HK 7.62 e um revólver. A decisão dos criminosos de obrigar o comércio a fechar deixou os moradores do bairro impressionados. Na região estão o Tribunal de Justiça, o Fórum João Mendes, a Secretaria da Segurança Pública e a sede da Prefeitura. Responsável pelas delegacias do centro da cidade, o delegado Marco Antonio Novaes de Paula Santos disse estar investigando para esclarecer os crimes dos oito presos. "Não há nada até agora que os ligue ao Primeiro Comando da Capital (PCC)", declarou. Os cúmplices dos bandidos mortos ameaçaram velar os corpos em um salão de beleza, o que teria originado o toque de recolher. "Os familiares e amigos foram avisados ontem que o velório seria no cemitério do Araçá", disse Santos. O coronel Noel Castro, comandante do 7.º Batalhão da Polícia Militar, reforçou o esquema no bairro mandando 200 policiais chefiados pelo capitão Alberto Tamashiro. Segundo o oficial, mesmo após dar garantias, alguns comerciantes decidiram que continuariam com os estabelecimentos fechados. "A padaria e a escola ficaram abertas e não houve nada de anormal", explicou o oficial. QuadrilhaNa tarde de anteontem, os PMs da Rota foram informados de que os moradores de um dos apartamentos do prédio 223 da Rua Oscar Cintra Gordinho faziam parte de uma quadrilha de ladrões e estavam "fortemente" armados. Os militares chegaram no prédio pouco depois das 15 horas e prenderam Aline Cristina Ramos da Silva, condenada a 11 anos por assalto e assassinato, em liberdade condicional desde abril deste ano; Érica Karini Rodrigues Amorim, processada por assaltos; Luana Almeida Cintra, sem antecedentes criminais; Davi Franca Fontes, processado por roubo; Marcelo Silva, condenado a 5 anos por tráfico; Luís Eduardo Marcondes Machado de Barros, condenado a 4 anos por roubo e tráfico; Abimael Antônio de Brito e Iranildo Ferreira, processados por assalto. LiberdadeApós apreenderem um revólver calibre 38, um dos PMs perguntou onde estavam as outras armas: um fuzil, uma metralhadora e as pistolas. Machado de Barros propôs aos militares entregar algumas armas, mas os oito deveriam ser colocados em liberdade. Os militares concordaram e foram levados para outro apartamento, no mesmo prédio, onde os bandidos entregaram quatro pistolas. De posse das armas, os PMs insistiram no fuzil e na metralhadora. Machado de Barros pediu um tempo e, pelo celular, telefonou para um Centro de Detenção Provisória (CDP), possivelmente da capital, perguntando a um preso com quem estavam as armas que os militares queriam. A resposta do CDP foi que ele esperasse. Paulo Sérgio Santos e José Iranildo Casemiro Costa estavam viajando de Mongaguá, no litoral sul, para a capital, com o fuzil e a metralhadora. Os dois chegaram no fim da tarde. Os militares mandaram Érica descer para conversar com os cúmplices e pegar as armas. Quando viram os policiais, Santos e Costa correram e foram perseguidos. Segundo os militares, durante a perseguição, houve "troca de tiros e os bandidos foram baleados". Um deles foi levado para Hospital Dom Pedro, no começo da Avenida Alcântara Machado. O outro, para o Pronto-Socorro de Santana. Os dois chegaram mortos.

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