Como Garotinho se desentendeu com o governo sobre ajuda ao Rio

Diante das câmaras de TV, o secretário nacional de Segurança, Luiz Fernando Corrêa, e o secretário de Segurança do Estado do Rio, Anthony Garotinho, falaram em parceria, no final da tarde ontem. No bastidor, porém, discordam frontalmente e, ao contrário do que pareceu à primeira vista, não houve acordo quanto à presença das tropas no Rio, informa a colunista Dora Kramer. Dora Kramer reconstituiu os bastidores que culminaram com a falta de acordo entre os governos federal e estadual para combater a violência no Estado do Rio: ?O embate surdo evidenciou-se, durante a entrevista, no nítido constrangimento do secretário nacional e nas ironias de Garotinho em relação ao "interesse de ajudar" manifestado pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, com quem havia tido horas antes uma conversa difícil pelo telefone. Em resumo, a situação é a seguinte: o governo do Estado exige que a ação dos soldados siga o plano estipulado pela Secretaria de Segurança Pública - com a distribuição dos homens em quatro grandes conglomerados do crime - e o governo federal - a pedido do próprio Exército - não trabalha com a possibilidade de embates diretos, pretendendo uma operação ostensiva nas vias de acesso e nas grandes avenidas da cidade. Ambos os lados sabem que suas pretensões são excludentes e, nessa base, desenvolve-se um choque de interesses em que a imposição da ordem no Rio de Janeiro fica em segundo plano. Até o momento da apresentação oficial do plano para a ação do Exército, ontem à tarde, a tensão foi a tônica das tratativas entre Estado e União. De manhã, Garotinho telefonou para o general Manoel Castro, comandante do Leste, para informar que, diante do oferecimento federal, o plano estadual era que 4 mil soldados fossem distribuídos em grupos pelas áreas de potencial conflito. Ou seja, nos morros. Surpreso e atônito, o general apelou ao secretário para que não apresentasse a proposta daquela forma, porque o Exército não estava preparado para esse tipo de confronto e não queria se envolver no combate direto com criminosos. Anthony Garotinho retrucou que ao governo estadual só interessaria a ajuda subordinada a um plano de ação elaborado, coordenado pela Secretaria de Segurança e com operações pontuais. O general insistiu no apelo ao secretário, mas foi inútil. Duas horas depois, Garotinho recebeu telefonema do ministro Thomaz Bastos, que fez ponderações semelhantes às do general. Pediu que a solicitação de ajuda à União não fosse condicionada à presença do Exército nos morros, pois isso tornaria inexeqüível a ajuda federal. O secretário não cedeu e, embora não tenha dito ao ministro, manteve a posição porque considera que o governo federal faz "jogo de cena" e impõe constrangimento ao Estado quando oferece auxílio. Com isso, temos que jogo de cena mesmo foi a falsa demonstração de intenções cooperativas protagonizada ontem à tarde pelos secretários estadual e nacional de Segurança Pública. Considerando que a União não atenderá às exigências do governo do Estado; que o Ministério da Justiça continua achando que a solução é a federalização da área de segurança do Rio; que as autoridades locais nem sequer aceitam pensar nessa hipótese; que a intervenção unilateral é politicamente inviável; que o poder público não se entende e se relaciona na base da desconfiança entre suas esferas; considerando estas e mais tantas outras variantes, noves fora mais uma vez não acontecerá nada.?

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