Comunidade de Capão Redondo é refém do tráfico

Conviver com a violência sem deixar que ela interfira na educação de filhos, netos e sobrinhos é uma preocupação constante para quem se vê refém das brigas entre traficantes, bandos rivais e a polícia. Nas vielas do Capão Redondo, no extremo sul da capital, onde o medo predomina entre os moradores, não é difícil ouvir relatos de quem já foi vítima do que eles chamam de guerra."Perdi meu filho quando ele começou a ser recrutado pelos traficantes, ainda com 12 anos. Mas foi bem mais tarde, com 18, que a polícia pôs fim à vida dele", diz uma moradora, que pediu para não ser identificada.Ela começou a perceber mudanças no comportamento do filho quando ele passou a fugir da escola. "Ficou viciado, não parava em casa. Começou a roubar para sustentar a droga. Não consegui mudar a vida dele", diz a mãe.As histórias se repetem na região, principalmente quando o que as famílias chamam de "más companhias" se aproveitam da carência para recrutar novos soldados para o tráfico.Foi o que aconteceu com o líder comunitário José Grigório de Jesus, de 66 anos. Presidente da Sociedade Assistencial e Promocional do Capão Redondo, ele viu o filho Reginaldo se envolver com o tráfico, em 1985.Acostumado a viver num bairro onde menores de 18 anos são conhecidos por cometer até 40 homicídios, Jesus diz que o filho morreu quando tentou largar o tráfico. "Ele foi morto no primeiro dia de trabalho. A polícia encontrou o corpo num matagal, tinha três tiros e o crachá da firma onde ele começou a trabalhar ainda estava com ele", conta.Jesus, metalúrgico aposentado, é o representante de uma comunidade acuada pelo medo de lidar com a guerra do tráfico e com as raras blitze da polícia. "Aqui ninguém me desrespeita porque respeito todo mundo." O respeito a que o líder comunitário se refere é o silêncio diante dos crimes. "Quem é informante, morre. Cada um tem que levar a sua vida sem interferir na vida de ninguém."

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