JB NETO/ESTADÃO - 28/05/2012
JB NETO/ESTADÃO - 28/05/2012

Parte das comunidades para tratar usuários de droga impõe religião e tem viés manicomial, diz estudo

Análise do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) destaca forte presença de grupos religiosos na atividade e critica ‘imposição de fé como política pública’; entidades do tipo têm registrado aumento de vagas

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2022 | 17h00
Atualizado 26 de julho de 2022 | 03h43

RIO - Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 25, pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) critica duramente as comunidades terapêuticas (CTs) - entidades que recebem dependentes químicos para tratamento - no Estado do Rio de Janeiro. Segundo o trabalho, muitas desses grupos, financiados com dinheiro público, reproduzem a lógica dos manicômios, o que contraria a Reforma Psiquiátrica. 

Baseadas na abstinência, no isolamento social e na rotina religiosa, essas instituições são administradas em sua maioria por líderes religiosos, sobretudo evangélicos. O estudo aponta ainda que, em alguns casos, há resistência à ação de profissionais com visões alternativas. 

"O que observamos é que, apesar (as CTs) de terem os certificados exigidos por lei, muitas irregularidades permanecem”, afirma Paula Napolião, coordenadora da pesquisa. “É o caso de CTs que acolhem (usuários) fora da faixa etária permitida ou reproduzem violências de gênero, por exemplo. As mudanças que ocorreram nas CTs habilitadas para o financiamento foram escassas e superficiais. O cerne do trabalho dessas instituições segue sendo a reforma moral do indivíduo através da religião."

A pesquisa aponta quais são e como operam as comunidades terapêuticas do Rio habilitadas a receber recursos do poder público. Também mostra como os administradores dessas entidades respondem às exigências legais para obter certificações e concorrer a editais para receber verbas. 

Por lei, para funcionar, uma comunidade terapêutica precisa de certificados do Conselho Municipal Antidrogas e da Vigilância Sanitária. Mas o estudo mostra que, em vez de fiscalizar as CTs, as instituições públicas passaram a ser parceiras dessas entidades. 

Histórico 

As comunidades terapêuticas existem no Brasil desde a década de 1970. Cresceram de forma significativa a partir da década de 1990. Não têm vínculos com o Sistema Único de Saúde nem com o Sistema Único de Assistência Social. São alvo frequente de denúncias de violações de direitos humanos. 

Em 2011, desde o lançamento do programa federal “Crack, é possível vencer”, durante a presidência de Dilma Rousseff, o governo  passou a financiar vagas em comunidades terapêuticas para “pessoas com transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas”. 

Mas foi em 2019, no governo Jair Bolsonaro (PL), que elas alcançaram o maior investimento desde sua criação. Foram R$ 560 milhões repassados via governos federal, estaduais e municipais. 

No início de 2018, o governo federal financiava 2,9 mil vagas. Em dezembro de 2021 esse número saltou para 10.657. A meta para 2022 era chegar a 24.320 vagas. No município do Rio, foram destinados mais de R$ 3 milhões para o financiamento de 450 vagas em comunidades terapêuticas de 2019 a 2021. 

O estudo mapeou as comunidades terapêuticas existentes no Estado do Rio. Foram identificadas 109 unidades em 16 municípios. São 38 na capital. Foram entrevistados 24 dirigentes de CTs e três funcionários de órgãos reguladores e fiscalizadores.  Os servidores são ligados à Vigilância Sanitária da capital fluminense, à Subsecretaria de Prevenção à Dependência Química do Estado do Rio e à Coordenadoria de Cuidado e Prevenção às Drogas do município do Rio. 

Também foram mapeados todos os editais lançados pela Prefeitura do Rio para financiamento de vagas em Comunidades Terapêuticas. Durante três meses, foram feitas visitas a nove comunidades terapêuticas na cidade do Rio. Uma é católica de filiação carismática, e as outras, evangélicas, de diferentes denominações. Quatro delas são administradas diretamente por pastores. 

Isolamento

Localizadas em sua maioria em locais de difícil acesso, as CTs replicam a lógica manicomial de isolamento, aponta o estudo. Nesses espaços, as substâncias psicoativas são encaradas como um grande “mal”. Deve ser exterminado por meio da abstinência, não só de drogas, como de sexo e outros prazeres “mundanos”.  

O tratamento nas CTs é definido como “submissão” por uma das técnicas entrevistadas. Isso contraria a reforma psiquiátrica e a Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e outras Drogas,  em vigor desde 2003. 

O estudo mostra que alguns responsáveis técnicos pelas CTs se opõem ao acompanhamento dos usuários por psicólogos dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras drogas (CAPSad). 

O objetivo dessa ação seria evitar contato com visões alternativas à abstinência. Ao contrário das Comunidades Terapêuticas, os CAPSad fazem parte do Sistema Único de Saúde (SUS). Há anos estão em situação de sucateamento. devido à falta de investimento público, diz a pesquisa. 

Os centros surgiram com uma abordagem múltipla. Ela não prioriza o isolamento e a abstinência, mas a sociabilidade e a redução de danos. 

Religião

A maioria das comunidades terapêuticas é cristã. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre os perfis das CTs no Brasil mostrou que 40% são de orientação pentecostal; 27% são católicas. Há ainda 7% evangélicas de missão (luterana, presbiteriana, congregacional, batista, metodista ou adventista). 

"Apesar de gestores de CTs caracterizarem o trabalho feito nesses espaços como  'desenvolvimento da espiritualidade', o que se vê na prática é a  imposição da fé cristã”, diz a pesquisadora Giulia Castro.

 “O sucesso do 'tratamento' proposto nas CTs depende da aderência a uma rotina de participação em cerimônias religiosas. Isso é inaceitável, porque uma política pública precisa ser laica e o uso problemático de drogas precisa ser encarado como uma questão de saúde pública".

Outro lado

Em nota divulgada na tarde desta segunda-feira, 25, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro afirmou que “não tem nenhuma forma de contratualização com comunidades terapêuticas”. Segundo a pasta, o planejamento para cuidar de pessoas que têm sofrimento causado pelo uso de drogas é a “expansão da rede de atenção psicossocial, notadamente as equipes de Consultório na Rua, centros de atenção psicossocial álcool e outras drogas (CAPSad III) e Unidades de Acolhimento Adulto (UAA), respeitando os princípios do cuidado em liberdade e o apoio às pessoas em situação de vulnerabilidade psicossocial”.

Na tarde desta segunda-feira a reportagem também consultou a secretaria estadual de Saúde, que apenas às 17h52 informou que a política para comunidades terapêuticas não está sob sua alçada, e sim sob a gestão da secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. Consultada apenas a partir daí, a pasta não havia se manifestado até a publicação desta reportagem.

Por meio de nota, a secretaria estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, por meio da Subsecretaria de Prevenção à Dependência Química, afirmou que o governo do Estado “lança mão de parcerias com comunidades terapêuticas para oferecer um serviço de qualidade à população” e que “as instituições aptas a prestar serviço são habilitadas nos Conselhos de Política Sobre Drogas, contam com  profissionais capacitados e são fiscalizadas”.

“Mesmo que a instituição parceira seja confessional, o acolhido não é de forma alguma obrigado a participar de práticas religiosas, isso sequer pode fazer parte dos programas terapêuticos da instituição”, segue a nota. “As parcerias são fundamentais para atender a demanda. O Estado é favorável à diversidade nas formas de tratamento para álcool e drogas. A proposta é ampliar esse atendimento, garantindo a essa população um tratamento digno e amplo”, conclui a nota.

Também consultados pelo Estadão, o Ministério da Saúde e a Federação das Comunidades Terapêuticas do Estado do Rio de Janeiro não haviam se manifestado até a publicação desta reportagem.

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