Concepção de Estado separa Lula de Alckmin, diz FHC a jornal suíço

O que separa o PT do PSBD não é tanto projetos econômicos nem a política social, mas a democracia e a concepção de Estado. A avaliação foi feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em uma entrevista, publicada nesta quarta-feira, em um dos principais jornais suíços, Le Temps. "O PT não tem uma visão democrática", afirmou o ex-presidente, que não poupou críticas a Luiz Inácio Lula da Silva, à "promiscuidade" do PT e à estagnação da economia. Para Fernando Henrique, "o PT ainda pensa que precisa ocupar a máquina estatal para reformar a sociedade. É exatamente por causa dessa promiscuidade que nasceram os escândalos em que está implicado (o PT)", afirmou. Na avaliação do ex-presidente, a sociedade deve ser independente do Estado e transformações devem ser "frutos de um diálogo". "É nisso que eu estimo ser à esquerda de Lula", disse.DiferençasFernando Henrique lembra que foi o PT que se recusou a fazer uma aliança com o PSDB quando foi eleito em 2002. "O PT decidiu que seríamos os adversários e preferiu comprar o apoio dos pequenos partidos por clientelismo", afirmou. Entre os candidatos Geraldo Alckmin e Lula, Fernando Henrique Cardoso acredita que as maiores diferenças não estejam no conteúdo de suas propostas econômicas ou sociais. "Os estilos são diferentes. O PSDB faz menos retórica e tem uma visão mais republicana na relação entre partido e o Estado", afirmou, lembrando que não existem escândalos na gestão de Alckmin.Para Fernando Henrique, a divisão de votos no Brasil não é entre ricos e pobres. "A divisão é entre um Brasil atrasado e um mais moderno", apontou, lembrando que no Nordeste ricos e pobres votaram por Lula. Divisão de classesPara provar que não há essa divisão de classe nas eleições, Fernando Henrique deixa claro que as bolsas de valores também teriam subido se Lula tivesse vencido no primeiro turno. "Lula é ao mesmo tempo o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Ele não ameaçou seus interesses, muito pelo contrário", afirmou. O ex-presidente não acredita que se Lula perder a eleição ocorrerá uma tensão social no País. "O PT não tem a capacidade de mobilização como antes e o PSDB é favorável à reforma agrária", disse. Sobre os projetos de assistência social, Fernando Henrique insiste que foi ele quem os criou. Já no plano econômico, o ex-presidente reconhece "a política econômica responsável" mantida pelo PT. "Mas o crescimento ficou estagnado, apesar da abundância de liquidez no mercado mundial", disse. "Para combater inflação, o governo manteve taxas de juros elevadas, quando já não era necessário. Lula tem uma margem de manobra para baixá-las maior que eu tinha. Não há mais hiperinflação nem crise financeiras internacionais que eu tive de enfrentar", concluiu.

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