Condecorar visitantes era rotina e Che levou medalha de 2ª classe

Ordem do Cruzeiro do Sul ao líder cubano foi 'um ato midiático' de Jânio que, para analistas, [br]acabou supervalorizado

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2011 | 00h00

BRASÍLIA

Foi, ironicamente, um ato quase de rotina. A concessão da Ordem do Cruzeiro do Sul, em qualquer dos seus graus, a visitantes estrangeiros, era comum na diplomacia brasileira dos anos 50 e 60. Antes de Che Guevara, pelo menos dois representantes do governo revolucionário cubano, o presidente Oswaldo Dorticós e o chanceler Raúl Roas, tinham sido agraciados com a comenda, em 1960, ainda no governo Juscelino Kubitschek.

Eram apenas novos homenageados, em uma lista que incorporaria nomes como o do presidente Leopold Senghor, do Senegal, condecorado em decreto do mesmo dia de Che. Senghor, aliás, recebeu a medalha no grau máximo, Grande Colar, enquanto o guerrilheiro foi homenageado apenas com a Grã-Cruz, segunda mais importante.

A Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração do Brasil, surgiu no Império, criada por Dom Pedro I, foi extinta pela Constituição da República, em 1891, e recriada em 1932 por Getúlio Vargas.

"Jânio quis fazer uma simbologia", interpreta o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Paulo Vizentini. "Poderia dar a medalha entre quatro paredes e não fazer alarde. Ou poderia chamar a imprensa e dizer que estava dando alguma coisa muito especial. Às vezes, a política tem algum incidente, que é minimizado. Se não há crise por trás, se não há ninguém interessado em explorar, o fato em si não é tão sério. Agora, quando há um acumulado de tensões, às vezes uma coisa pequena desencadeia o processo."

A professora Maria Celina D"Araújo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), insere o gesto de Jânio no cenário internacional e nacional do período. "Jânio se vestia como (Gamal Abdel) Nasser (presidente egípcio que nacionalizou o Canal de Suez em 1956), o Nasser era o herói da época", diz ela, referindo-se ao hábito do presidente de usar conjuntos do tipo safári, assemelhados a fardas.

"Tem esse lado dele, de querer ser uma dessas celebridades autoritárias e personalistas. Ele apostou que ia fazer aqui o que se estava fazendo no Egito." Segundo a pesquisadora, Jânio apostou que os militares e o Legislativo, após a renúncia, o reconduziriam ao poder, por medo do "esquerdista" João Goulart, mas o Congresso, diz, estava "doido para se livrar" do presidente, que perdera também a confiança da caserna. "A condecoração de Che Guevara entra no pacote de querer ser um líder terceiro-mundista e fazer uma política midiática", explica. Já durante a campanha eleitoral, Jânio havia visitado Cuba e estivera com Guevara e Fidel Castro.

Udenistas. Outro problema, para Maria Celina, foi a própria UDN, o único partido grande, de expressão nacional, a apoiar a eleição de Jânio, em 1960, em uma aliança também integrada por PTN, PDC, PR e PL, legendas pequenas e de expressão política apenas local.

Os udenistas logo perceberam, afirma, que tinham ganhado, mas não levado, embora a política externa independente fosse conduzida por um udenista histórico, Affonso Arinos de Mello Franco. "O que preocupava Lacerda é que a UDN não controlava o governo, e Jânio era uma liderança concorrente de Lacerda."

Após a renúncia, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, mobilizou a "Cadeia da Legalidade", grupo de rádios que transmitiam, a partir do Palácio Piratini, pronunciamentos em favor do cumprimento da Constituição e da posse de Goulart. Filiado ao PTB e tido como homem de esquerda,, à época, estava na China, em missão diplomática, e não era aceito como novo presidente pelos ministros Silvio Heck, da Marinha, Odílio Denys, do Exército, e Grün Moss, da Aeronáutica.

Atribui-se a oficiais da Força Aérea Brasileira a organização da "Operação Mosquito", na qual jatos abateriam o avião presidencial com Jango a bordo, quando voltasse. Uma emenda instituindo o parlamentarismo foi votada rapidamente, e em 7 de setembro de 1961 Goulart assumiu apenas como chefe de Estado, ficando a chefia de governo com Tancredo Neves (PSD), sucedido por Brochado da Rocha e Hermes Lima. O parlamentarismo foi revogado por plebiscito em janeiro de 1963, quando Goulart recuperou os poderes presidenciais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.