Condenado motoboy do caso Chokr

Escândalo desencadeou investigação de pagamento de propina a DPs; réu recorrerá ao TJ

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

O motoboy Cleverson Rodrigo Camargo Ricardo foi condenado a 13 anos e 4 meses de prisão por tentativa de latrocínio (roubo seguido de morte) contra o advogado Jamil Chokr, pivô de um dos maiores escândalos de corrupção da Polícia Civil de São Paulo. Em 25 de maio de 2007, Chokr se envolveu em um acidente de carro na Marginal do Tietê e, dentro de seu Vectra blindado, policiais militares apreenderam R$ 38 mil e envelopes com as inscrições "DP", supostamente endereçados a distritos policiais da capital.O advogado sempre negou as acusações de corrupção e disse ter perdido a direção do veículo ao tentar escapar de uma tentativa de assalto. A alegação do motoboy, preso em flagrante, era a de que Chokr havia tentado atropelá-lo. Ricardo acabou indiciado por tentativa de latrocínio e permaneceu preso. Até que, em 17 de setembro de 2008, ele resolveu prestar novo depoimento. Em troca da deleção premiada, contou o que supostamente sabia sobre a máfia dos caça-níqueis e o pagamento de propina a policiais.O motoboy disse que o dinheiro era entregue aos policiais em um shopping na zona norte, em postos de gasolina e em uma empresa de blindagem. Pelo serviço, ele ganhava R$ 1.500 da máfia dos caça-níqueis e mais uma "caixinha" dos policiais. Ricardo contou que a arrecadação do dinheiro com os donos das máquinas ocorria entre os dias 20 e 30 de cada mês. A propina era paga a partir do dia 5. E, por fim, apontou nove investigadores para quem entregaria os envelopes com dinheiro. As listagens apreendidas com Chokr indicavam que, dos 93 DPs da capital, 84 estariam no esquema.As informações fornecidas pelo motoboy mudaram o rumo das investigações, dadas por encerradas pela Corregedoria da Polícia Civil sem que ninguém houvesse sido punido. Meses depois, no entanto, Ricardo encaminhou à Promotoria uma carta em que negava tudo o que havia dito. Pouco antes de ser levado a julgamento, o réu apresentou uma nova versão: disse que, por orientação de sua advogada, voltou atrás em seu depoimento para tentar escapar da condenação por latrocínio. "Segundo a dra. Cristiane Linhares, eu e meus familiares corriam (sic) risco de vida. E que, por sua vez, o dr. Jamil iria retirar todas as acusações e me indenizar", escreveu Ricardo.A nova versão do motoboy foi confirmada por seus familiares à Justiça. Na audiência final, em 9 de março, o promotor pediu mais prazo para analisar o caso e solicitou a abertura de inquérito para apurar eventuais crimes de falsidade e patrocínio infiel por parte da ex-advogada de Ricardo, que foi substituída por um defensor público. Os pedidos foram indeferidos pelo juiz Maurício Valala, da 27ª Vara Criminal da capital. A defesa do motoboy vai recorrer ao Tribunal de Justiça. Chokr e Cristiane Linhares não foram localizados pela reportagem. NÚMEROS 84 DPsestariam envolvidos no esquema de recebimento de propinas da máfia dos caça-níqueis13 anose 4 meses é a pena a que foi condenado o motoboy Cleverson Rodrigo Camargo RicardoR$ 38 milforam encontrados no carro de Jamil Chokr, além de envelopes com as inscrições ?DP?

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