Confiantes e otimistas, mas exigentes

Embora mostre entusiasmo ao relatar conquistas dos últimos anos, nova classe média não poupa críticas aos serviços de educação e saúde

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

Em conversas com pessoas de famílias que migraram ou estão migrando das classes D e E para a C, e vivem com renda familiar em torno de R$ 2 mil, a primeira impressão é a de um refrescante otimismo. Além do entusiasmo que demonstram quando falam de conquistas recentes, relacionadas sobretudo ao consumo, parecem olhar o futuro de forma confiante. O tom vibrante baixa e murcha, porém, quando a conversa adentra o terreno dos serviços públicos e o da política. Quando se fala de saúde e educação, vira desalento.

No Jardim Marquesa, periferia da zona sul de São Paulo, a vendedora desempregada Solange Ferreira Luz, de 36 anos, é capaz de listar em minutos uma dúzia de boas coisas que aconteceram em anos recentes com ela, o marido e os filhos - a menina de 12 anos e o garoto, de 10. Com uma renda familiar em torno de R$ 1.800, eles conseguiram reformar e pintar a casa e comprar o primeiro carro da família, um Corsa 2007, além de uma TV de plasma, uma geladeira nova, um computador e outras coisas. O marido, com carteira de trabalho assinada, retomou os estudos. Com parte das despesas escolares custeada pelo patrão, agora cursa direito.

Nesse cenário, o que não vai bem? A resposta de Solange sai de bate-pronto: "A maior preocupação é a escola dos filhos. Não poderia faltar professor do jeito que falta. Se tivesse dinheiro, matriculava em escola particular."

A mãe de Solange trabalhou quase toda a vida como faxineira e não concluiu o primeiro grau. A filha foi além, até o ensino médio, e agora sonha com a universidade para os filhos. Foi essa preocupação com a educação que a levou a adquirir o computador, com acesso à internet, e a se tornar mais exigente em relação à rede pública de ensino.

Solange já avalia, por exemplo, que as escolas técnicas da rede estadual são melhores que as da rede municipal: "Quando chegar a época, vou tentar matricular minha filha numa Etec."

Em relação à política, o que incomoda mais é a corrupção. "Isso come muito dinheiro", diz ela. "Come dinheiro que poderia ser aplicado nas escolas e na saúde. Você sabe que se precisar de tomografia no SUS pode esperar até oito meses na fila? Precisei de um nefrologista e eles marcaram consulta para daqui a dois meses."

Impactos. O salto educacional em relação à geração anterior que ocorre na família de Solange é outra característica que chama a atenção em quase todas as conversas - e que já foi detectada em pesquisas. "Na classe C, 68% dos filhos estudaram mais que os pais. Na classe A, foram 10%", informa Renato Meireles, do instituto de pesquisas Datapopular.

Essa diferença acaba exercendo impactos culturais e políticos no grupo, segundo o estudante Adriano Francisco de Carvalho Lira, de 20 anos, matriculado no terceiro ano do curso de jornalismo da PUC-SP. Ele fala a partir de sua própria experiência.

Morador da comunidade Heliópolis, maior favela de São Paulo, também na zona sul, Adriano estudou numa Etec, obteve boas notas nas provas de avaliação do Enem e conseguiu uma bolsa de estudos patrocinada pelo governo federal, por meio do ProUni. É o primeiro membro da família, com pai, mãe e dois filhos e renda familiar que se aproxima dos R$ 3 mil, a chegar à universidade.

Ele diz que as perspectivas de sua geração são muito melhores que as de seu pai - dono de um pequeno bar, que comprou agora, aos 52 anos, seu primeiro carro, um Prisma zero quilômetro. Reconhece a importância de políticas que ativaram a economia e levaram mais fregueses para sua mãe, que trabalha em casa como costureira. Também é grato ao ProUni, sem o qual não teria adentrado a PUC.

Nada disso, porém, o impede de cultivar uma posição crítica sobre o governo. "Sou grato, mas também sou realista", diz.

Em sua avaliação as Etecs são boas, mas ainda estão aquém da propaganda feita pelo governo estadual. Por outro lado, acha que o dinheiro público seria mais bem empregado se, em vez de comprar vaga em escola particular, por meio do ProUni, o governo investisse em escolas públicas.

"Meus pais não têm uma visão crítica como a minha", diz. "Mas eu tenho uma visão utópica. Acho que vou conseguir melhorar, mesmo que seja devagar, daqui a alguns anos, a consciência deles sobre o uso dos impostos que nós pagamos e sobre outros assuntos. Hoje, se digo que a homofobia é um absurdo, meu pai diz que não é bem assim."

Marli Gaspar, de 43 anos, moradora do Morro Grande, zona norte, conta que realizou há pouco um dos maiores sonhos de sua vida: conseguiu enfim fazer um curso superior, de pedagogia, com o auxílio do Prouni. Isso provocou mudanças em sua vida, especialmente no aspecto salarial, o que permitiu outra conquista, a da primeira máquina de lavar roupa.

Ela afirma ter gostado do governo Lula, mas diz que as mudanças apenas começaram. "Há muita coisa para fazer, na área da saúde, da educação, da segurança. Nós temos de cobrar, sempre."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.