Confirmadas 14 mortes em Trancoso

Dez vítimas eram da família de Roger Wright; testemunhas dizem que avião parecia avariado já na aproximação

Vitor Hugo Brandalise e Eliana Frazão, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

O Departamento de Polícia Técnica de Salvador confirmou ontem que 14 pessoas morreram na queda do bimotor Super King Air B-350. O acidente ocorreu por volta de 21 horas de sexta-feira, durante manobra de aterrissagem no Aeroporto Terravista, em Trancoso, litoral sul da Bahia. Por enquanto, a Aeronáutica só conseguiu descartar que a chuva e problemas de visibilidade tenham colaborado com a tragédia. Morreram no local dez adultos e quatro crianças. Dez vítimas pertenciam à família do empresário Roger Ian Wright, de 56 anos, além do piloto, do copiloto, de uma babá e da neta de 3 anos de sua mulher, Lucila Lins (mais informações nesta página). O empresário planejava festejar o aniversário de um dos netos.Na tarde de ontem, um aparelho de CVR - a caixa-preta do avião, que registra os diálogos dos pilotos - foi encontrado intacto. Os peritos, porém, não adiantaram prazos para a realização da perícia. O material deve ser encaminhado hoje, juntamente com os dois motores do King Air 350, para o Centro Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos.O resgate foi concluído por volta das 15 horas de ontem. Os corpos das vítimas foram levadas para o Instituto Médico-Legal de Salvador. "O trabalho oficial de identificação começa agora, apesar de as famílias terem fornecido uma lista de quem estava a bordo", afirmou o diretor, Raul Barreto. Os 35 peritos locais foram convocados e o IML de São Paulo se prontificou a ajudar nos trabalhos - coletando DNA das famílias das vítimas. Os corpos ficaram carbonizados e será necessária análise de arcada dentária.Em depoimento a oficiais do 2º Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes (Seripa-2), testemunhas disseram que o avião pilotado por Jorge Lang Filho, de 56 anos, parecia estar "fora do lugar" quando se aproximou da pista - o avião parecia ter problemas mecânicos. "Parecia estar com problema no motor, com a velocidade mais baixa que o normal", disse o gerente do resort Terravista, James de Souza, que presenciou o acidente. "Entrou de asa, de lado, cambaleou no momento final e, no que encostou no chão, explodiu. Foi um barulho horrível, uma coisa medonha."Para o fiscal de pista do aeroporto, Pedro Peixoto, de 37 anos - que passou o dia emocionado com a perda do "Comandante", como chamava Wright - o avião se aproximou "completamente torto". "Quando deveria ter seguido reto, parece que balançou para o lado direito, balançou de novo para o lado esquerdo e caiu", disse Peixoto. "Baixou muito rapidamente e depois foi baixando mais devagar até cair", contou o taxista Neílson Santos, de 39 anos, que aguardava a família Wright para levá-la à residência. Segundo o coronel João Carlos Dias Biesniek, chefe do Seripa-2, o conteúdo dos depoimentos será analisado em conjunto com os outros dados periciais coletados no local. "Um acidente aéreo normalmente ocorre por uma soma de fatores. Somente teremos certeza quando tivermos todos os resultados da perícia à mão para elaborar o relatório final, que pode levar até um ano para ficar pronto."Durante todo o dia de ontem, cerca de 30 homens do Corpo de Bombeiros, além de policiais civis e 20 oficiais da Aeronáutica, estiveram no aeroporto do resort removendo destroços da aeronave e realizando o resgate dos corpos. A Aeronáutica já descartou que a forte chuva que caiu em Troncoso na noite do acidente tenha provocado a queda - na avaliação, havia "perfeitas condições para pousos e boa visibilidade na pista". Às 20h51, quatro minutos antes da queda do avião, o piloto informou que "tinha alinhamento com a pista, que o trem de pouso já estava travado e havia boa visibilidade". Uma segunda hipótese, de que a iluminação da pista seria ineficiente, também foi descartada, após testes ontem com o jato HS do Grupo Especial de Inspeção em Voo (GEIV) do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).Outro fator analisado pela perícia foi o diâmetro da clareira criada na queda - de cerca de 20 metros, distante cerca de 200 metros da cabeceira da pista. Como se trata de diâmetro relativamente pequeno, segundo peritos ouvidos pelo Estado, uma das hipóteses é de que, no momento da queda, o avião teria mais força no plano vertical, de cima para baixo, do que no horizontal - ou seja, poderia estar preparando o pouso mesmo fora do local adequado. Isso pode indicar, segundo peritos, que o piloto estivesse "desorientado".De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a aeronave estava regular, tanto na manutenção quanto no seguro. A Inspeção Anual de Manutenção (IAM) do bimotor teria vencido no último dia 14, mas, segundo a agência, ela havia sido feita em uma oficina autorizada e a documentação teria sido encaminhada ao órgão, aguardando só atualização dos dados. A situação da tripulação também estava regularizada.FAMÍLIAO avião pertencia ao empresário Roger Ian Wright, dono da Arsenal Investimentos, que viajava com a família para um fim de semana no condomínio de luxo de Troncoso. Consternados, parentes de algumas vítimas prestaram depoimento à polícia no saguão do aeroporto ontem, mas evitaram comentários. Entretanto, um amigo da família que preferiu o anonimato confirmou que Roger viajava com frequência para Trancoso, às vezes duas vezes no mês. Ele tinha a permissão de aterrissar na pista do condomínio.

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