Confissões de um apaixonado

Nas escutas da PF, Pedro Paulo Dias revela seus delitos em conversas carinhosas com a amante

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Um homem saudoso, deslumbrado com o luxo da recepção feita na Indonésia por empresários estrangeiros interessados em se instalar no Amapá. Nesse estado de ânimo, o governador Pedro Paulo Dias (PP) liga da suíte do hotel em Jacarta para a amante, Livia Bruna Gato, cujos telefonemas em Macapá vinham sendo monitorados pela Polícia Federal.

O homem apaixonado se empolga e revela suas intenções que vão parar no inquérito policial. Pedir para o Grupo Salim, que planejava investir na produção de dendê em larga escala no Amapá, R$ 30 milhões para a campanha ao governo do Estado. "Assim, amor, deixa eu falar uma coisa. Tu não tem ideia do que os caras têm... Porque, no dia seguinte, amor, R$ 30 milhões para esses caras não é nada. E qual é o custo da minha campanha? Eu, por mais que gastando uma fortuna, não consigo gastar mais do que US$ 20 milhões". O orçamento anual das polícias Civil e Militar e do Corpo de Bombeiros do Amapá é de R$ 20 milhões.

As conversas indiscretas do governador com sua amada, além de revelar segredos, mostravam aos investigadores o descaso do político com o dinheiro. Nelas aparecem as façanhas do filho, Luiz Henrique de Carvalho, nas compras no exterior. "Ele (Luiz) comprou um sapato pra ela (namorada) (...) de US$ 1500". "Eu quero levar um óculos pra ti. (...) Comprei um óculos muito bonitinho pra mim (...) Me custou US$ 900." Inseguro, o governador ainda gasta um bom tempo tentando sondar se a amada gostaria de um modelo Armani.

Mas os excessos também deixavam Pedro Paulo preocupado. Ele pede ao irmão, Benedito Dias, para mandar o filho tirar do Orkut as fotos que havia colocado no site de relacionamentos. Governador e filho sorriam na primeira classe do avião. As fotos foram parar no inquérito da PF.

Família. No inquérito, a PF percebeu que os parentes dos envolvidos na suposta quadrilha tiveram papel importante para garantir a continuidade dos desvios de cerca de R$ 300 milhões dos cofres públicos. Quando deixou a Secretaria de Saúde para se candidatar ao governo, em março, o governador colocou para sucedê-lo na pasta o irmão Elpídio Dias de Carvalho.

Outras duas pastas investigadas tinham parentes do governador no cargo: Denise Nazaré Freitas de Carvalho, mulher do governador, titular da Secretaria de Inclusão e Mobilização Social; Ruy Santos Carvalho, primo e titular da Superintendência Federal de Agricultura no Amapá. O outro irmão, Benedito Dias, era secretário Especial de Governo.

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