Conflito de versões favorece defesa no julgamento de Bola

Delegado do caso nega que Eliza Samudio tenha sido esquartejada na casa do ex-policial

Aline Reskalla, Estadão

24 Abril 2013 | 18h59

CONTAGEM - A versão dada pelos investigadores para o que ocorreu na casa do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, no dia em que Eliza Samudio teria sido assassinada, deu novo fôlego à defesa neste terceiro dia de julgamento, no Fórum de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. O delegado que comandou o trabalho da polícia na época do desaparecimento da amante de Bruno, Edson Moreira, que hoje é vereador, negou em seu interrogatório que a modelo tenha sido esquartejada por Bola em sua residência, em Vespasiano, e que seu braço tenha sido jogado para os cães.

O depoimento difere daquele apresentado pela principal testemunha do caso, o primo de Bruno, Jorge Luiz Sales. Na época menor de idade, Jorge disse ter visto o ex-policial jogar seu braço para cães após matá-la por asfixia. Após cinco horas e meia de interrogatório, o advogado de Bola, Ércio Quaresma, alegou cansaço e os trabalhos foram interrompidos. Moreira continuará a ser interrogado a partir das 9h desta quarta-feira.

O interrogatório do delegado era a grande aposta da defesa de Bola para tentar levantar possíveis falhas durante a investigação. O advogado Ércio Quaresma, que defende Bola, tem afirmado que Moreira conduziu intencionalmente as investigações para incriminar seu cliente e notório desafeto. O depoimento foi recheado de ironias e trocas de farpas entre os dois.

O momento mais intenso veio logo após Quaresma ter pressionado o delegado por detalhes das investigações na época do crime, ocorrido em junho de 2010. Ele perguntou se nas “facas ou qualquer outro instrumento, como machado, encontrados na casa de Bola, foi feito exame com luminol (produto químico que aponta a presença de sangue) e encontrado sangue”.

Moreira respondeu que, de acordo com o laudo de constatação feito por peritos, não foi encontrado sangue no local. “Concluiu-se que naquela casa ninguém foi picado, dissecado. Podia ter morrido por asfixia, mas ninguém foi partido lá. Foi usado luminol, para identificar se havia vestígio de sangue”, afirmou a testemunha.

Quaresma não perdoou e questionou diretamente Edson Moreira se alguma das mãos de Eliza foi jogada aos cães na casa de Bola. O depoente disse que não. “Fez-se imaginar ao menor que isso teria ocorrido”. Moreira pede para explicar. “Nós estamos diante de um especialista da arte de matar e de dissimular. Então, asfixiaram a vítima, quase não sai sangue. E ele pediu para que os dois saíssem do recinto que ele iria dar um jeito na vítima, picar a vítima. Passou-se um tempo,  o pessoal já estava no ponto de pular pela parede. Sai o autor, segurando um saco nas costas, vai em direção aos cães e fala assim: olha a mão dela aí”, disse Edson Moreira”, relatou o delegado aposentado, que a pedido da defesa está sendo interrogado na condição de testemunha e não como autoridade policial, o que exige compromisso com a verdade.

Pela manhã, foi interrogado o jornalista José Cleves, também a pedido da defesa. Quaresma pretendia mostrar falhas no caráter de Edson Moreira, que apontou Cleves como assassino de sua própria mulher. O jornalista acabou sendo inocentado.

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