Confrarias se espalham pela cidade

Mas só participa quem é amigo ou está na lista

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

03 de maio de 2009 | 00h00

O programa é vip. Para participar, é preciso figurar numa lista de e-mails, ou ser amigo do dono da casa. Vale também ser amigo do amigo do dono. Aí sim é possível participar das confrarias gastronômicas que se espalham pela cidade. Esses encontros são promovidos por chefs ou simplesmente por paulistanos que adoram cozinhar e reunir pessoas ao redor de uma mesa. E fazem tanto sucesso que muitos já têm até lista de espera. "Eu fico sem graça, mas tenho de dizer não para muita gente. Minha casa não comporta mais de 30 pessoas" , explica Ariela Doctor, que organiza todo dia 29, desde novembro de 2007, uma das confrarias paulistanas, a do Nhoque.Ariela recebe em sua casa, um sobrado reformado com ares de residência de campo, muito rústica e ensolarada. Os encontros acontecem na cozinha, que fica na parte de baixo da casa, e é integrada com um jardim gramado. Nesse dia, ela retira o sofá e mais alguns móveis, para dar espaço às mesas, que são arrumadas como num restaurante. A cada almoço, serve um tipo diferente de nhoque. Na quarta-feira passada, fez um de funghi com molho branco. Também serviu de entrada berinjela no forno com tomate, cebola e tomilho, acompanhada de pão. Para beber, o marido preparou umas caipiroscas, mas havia também vinho e cerveja. Os convidados pagam R$ 50 na porta, antes de entrar.Num esquema mais formal e exótico, a mexicana Lourdes Hernández Fuentes, de 48 anos, organiza quatro jantares por mês em sua casa, mais conhecida como Casa dos Cariris. "Comecei em São Paulo há três anos, testando sabores do México. A nossa comida não é tão doce, tão cheia de molho de tomate e de pimentão como os brasileiros imaginam." Lourdes veio para o Brasil em 2001, acompanhando o marido, Felipe, que na época aceitou o convite de ser adido cultural na Embaixada do México. O cardápio dos jantares está muito longe dos pratos populares mexicanos famosos no País. Na quinta-feira, por exemplo, entre as iguarias que preparou, crepes de huitlacoche, uma trufa mexicana. "É um parente do milho, só que não é doce." Havia também frango temperado com pasta de urucum, alho e orégano, embrulhado na folha de bananeira e, depois, preparado durante três horas numa panela de barro, que leva água em baixo, sobre uma churrasqueira (R$ 45, em média). "Hoje tem gente que vem do Rio e do interior para conhecer pratos diferentes." Os 34 lugares que abre para os jantares são bem disputados. "Disparo por e-mail os convites e 40 minutos depois a noite fica lotada." Os preços variam de acordo com o cardápio (contatos pelo guisandeira@gmail.com)."Sempre digo para as pessoas trazerem algo para mostrar, seja uma poesia ou uma música", diz Ariela. "A intenção é transformar nossos encontros num espaço para as pessoas se mostrarem. Eu já faço isso, abrindo a casa e cozinhando para todos." No final do ano, Ariela resolveu fazer o nhoque à noite, e a confraria virou uma balada (www.confrariadonhoque.blogspot.com). INTIMIDADE O sucesso das confrarias não se deve apenas ao talento dos chefs. "O paulistano não tem tempo para cozinhar e está cansado de comer em lugares impessoais", explica Silvana Boccalato, que começou cozinhando paellas para fora. Aos poucos, sua casa foi se transformando num ponto de encontro, até que os móveis da sala subiram para o segundo andar da casa, dando lugar a quatro mesas. Batizada como La Lydia - nome de sua avó - , a confraria virou um restaurante fechado, que funciona de quarta a domingo, só com reservas (3672-7633; R$ 44, a paella para duas pessoas). "Mas aqui ainda é minha casa. Por isso, quando alguém liga reservando, pergunto sempre quem indicou", diz Silvana .Os clientes de Silvana começam a refeição na sala e acabam na cozinha, pegando bebida direto da geladeira antiga. "Eles ficam tão à vontade que entram no meu computador e ouvem meus CDs", diz Silvana. A artista plástica Mari Pini, de 55 anos, foi a amiga que convenceu Silvana a abrir as portas de casa pela primeira vez. "Pedi para comemorar meu aniversário na casa dela. A festa foi o máximo e todo mundo quis voltar lá." O artista plástico Otávio Pistelli, de 58 anos, também é amigo de Silvana. Ele levou uma outra amiga, carioca, para conhecer sua paella, que depois chamou o irmão, a cunhada e as filhas, que levaram mais amigos. "Não tenho lugar na minha casa para receber", diz a funcionária pública Marcilha Bortulan Karan, de 35 anos, que mora num apartamento de dois dormitórios com o marido e o filho recém-nascido. "Também não tenho tempo para cozinhar. Todas as datas eu comemoro no La Lydia. Eu me sinto em casa e não tenho trabalho."ESPECIAIS"Todo mundo gosta de se sentir especial", resume o chef Demian Figueiredo, autor do projeto Les Amis de Portas Fechadas (www.lesamiscozinha.blogspot.com; R$ 120 por pessoa, sem bebidas), que organiza degustações vips em seu apartamento. "Essas confrarias fechadas têm esse poder. Eu cozinho especialmente para meus convidados e, além de tudo, abro as portas da minha casa para eles. Não tem nada mais especial do que isso." Para os convidados conta ainda poder se deliciar com a alta gastronomia praticamente no aconchego do lar.

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