Confronto entre tráfico e milícia mata nove em favela no Rio

Dominada por uma milícia formada por soldados da PM e do Corpo de Bombeiros, a favela Kelson, na Penha, foi palco neste domingo de mais um violento confronto entre milicianos e traficantes, que deixou nove mortos: cinco traficantes e quatro membros da milícia, entre eles o cabo da PM Luiz Claudio de Souza Vargas, de 34 anos, que não estava em serviço. O carro em que ele estava, uma caminhonete Chevrolet A-20, foi metralhado com mais de 70 tiros. O confronto não é visto pelo delegado titular da 22ª DP, Alcides Iantoro, como uma tentativa dos traficantes de retomada do controle da favela, de onde foram expulsos no fim do ano passado. Para o delegado, eles buscavam apenas enfraquecer o comando miliciano. Os traficantes usaram um Peugeot preto, ocupado pelos cinco que morreram, e um Corola, que passou pelo cerco policial. Calcula-se que eram em torno de dez. Os cinco mortos, segundo a polícia, tinham sido expulsos da favela pela milícia e se escondiam na Vila Cruzeiro, também na Penha, no outro extremo do bairro, junto ao Complexo do Alemão. A polícia está em busca de testemunhas que consigam definir a cronologia dos fatos. Para o delegado Iantoro, o primeiro a morrer teria sido o cabo PM, cujo corpo, jogado na mala de seu carro, foi achado às 9h10 por uma patrulha, também de PM, na pista lateral da Avenida Brasil, que dá acesso à favela. A A-20 branca estava completamente perfurada. Somente na parte dianteira havia 48 marcas de tiros. No interior, havia folhas com reproduções de fotos de bandidos procurados e capturados, impressas a partir da página da Polícia Civil na internet. Também havia material de propaganda eleitoral do deputado federal eleito Leonardo Picciani (PMDB), filho do presidente da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani. O panfleto era do tipo "dobradinha" com o candidato à Alerj Waltinho Paixão, do PHS, não eleito. Muros Na favela, segundo a polícia apurou, os traficantes foram direto à casa do pedreiro Noelson Ribeiro de Azevedo, de 53 anos. Ele foi responsável pela construção, a mando dos milicianos, de dois muros em entradas da favela: na Rua Alpiste e na rua Eugênio de Araújo Sales, este ainda não concluído. Noelson foi levado para a rua e assassinado na frente dos moradores. Houve confronto com outros milicianos e duas outras vítimas: Adão Mario Rodrigues, de 26 anos, e Sidnei Moreira de Azevedo, de 32, que, segundo relato de moradores, eram ligados aos milicianos. Depois do tiroteio, os traficantes deixaram a favela pela Rua Lobo Jr, uma avenida que margeia o Centro de Instrução Almirante Alexandrino, da Marinha de Guerra. Ao chegarem à pista lateral à Avenida Brasil, foram perseguidos por carros da PM. O tiroteio foi intenso e os cinco ocupantes do Peugeot, roubado no bairro de São Cristóvão, foram mortos. Com eles havia quatro revólveres calibre 38 e uma granada. Os ocupantes do Corola fugiram. Policiais da 22ª DP dizem que os mortos não tinham documento. Eles seriam da facção criminosa Comando Vermelho, que controlava a Kelson. Segundo a PM, entre os mortos está Alex Silva de Oliveira, o Perereca, antigo chefe do tráfico na favela. Alguns moradores dizem que traficantes do conjunto Habitacional Cidade Alta, em Cordovil, também participaram do ataque. Foram estes traficantes que, em dezembro, em represália à dominação da Kelson pelos milicianos, promoveram o incêndio de um ônibus da Viação Itapemirim, no qual oito passageiros morreram carbonizados. Invasão social O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, afirmou neste domingo que o governo não irá tolerar o envolvimento de policiais em qualquer ato ilegal, seja ele ligado ao tráfico ou milícia. "A milícia é tão perigosa quanto qualquer outro poder paralelo." Ele defendeu uma "invasão social" do governo nas favelas para conter o avanço da violência no estado. E citou como exemplo o projeto para a Rocinha, que prevê um hospital funcionando 24 horas para atender a população da favela. "O poder público precisa estar presente para contrapor qualquer outro", disse. Cabral anunciou ainda que já solicitou à Secretaria de Segurança uma investigação sobre o episódio na favela Kelson, apontada como uma 92 comunidades ocupadas por integrantes de milícias. "Segurança é informação e inteligência. Uma investigação bem feita depende disso", explicou.

Agencia Estado,

11 Fevereiro 2007 | 19h00

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