Confrontos diretos azedaram a relação de Marina e Dilma

Para o assédio petista sobre Marina Silva ter alguma chance de vingar, os aliados de Dilma Rousseff enfrentarão uma missão quase impossível: superar um distanciamento antigo entre as duas, estabelecido na passagem de Marina pelo governo Lula.

Bastidores: Marta Salomon, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2010 | 00h00

O grande obstáculo a uma aproximação no segundo turno das eleições presidenciais vem da época em que, chefe da Casa Civil, Dilma culpava o licenciamento ambiental, sob comando da então ministra do Meio Ambiente, por atrapalhar obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

Antes mesmo de deixar o PT para sair candidata pelo PV, Marina Silva já havia afastado a hipótese de se engajar na campanha da antiga colega da Casa Civil, à época lançada informalmente pré-candidata ao Planalto. E a escolha precoce da candidata de Lula contribuiu para que Marina deixasse o partido que havia ajudado a fundar, quase 30 anos antes.

No discurso que fez quando se desfiliou do PT, em agosto de 2009, Marina deixou clara a divergência. "A ministra Dilma tem os pontos de vista dela, os defende. Eu tenho os meus", disse a senadora, sutil.

Numa tradução livre, era como se Marina dissesse que ela e Dilma habitavam universos diferentes.

A versão difundida por Dilma de que a área ambiental travava o desenvolvimento azedou a relação das duas ex-colegas e foi responsável por um primeiro pedido de demissão entregue por Marina a Lula - e que o presidente teve a chance de recusar, no primeiro ano de seu segundo mandato. O pivô foi o processo de licenciamento das hidrelétricas do rio Madeira, em Rondônia.

As usinas de Santo Antônio e Jirau só tiveram a licença prévia ambiental liberada depois de mudanças nos projetos da obra, seguindo o roteiro definido pela ministra do Meio Ambiente. Mas Dilma Rousseff cobrava pressa e minimizava preocupações dos ambientalistas. Diante das pressões, Marina declarou que "perderia o pescoço, mas não o juízo".

Marina e Dilma tiveram outros confrontos diretos no governo, como no debate para fixar o valor a ser pago por empreendimentos na área de infraestrutura por impactos causados no meio ambiente. A então ministra do Meio Ambiente queria a cobrança de 2% sobre o valor das obras. Dilma engavetou a proposta até desidratá-la.

Mas nem todos os conflitos que Marina viveu no governo tiveram Dilma Rousseff como protagonista. O maior deles -e que definiu a decisão de deixar o ministério em maio de 2008 - foi com o próprio Lula. O desmatamento na Amazônia voltara a crescer no final do ano anterior, mas Lula ameaçava atenuar medidas de combate à ação das motosserras.

Lula soube da demissão em caráter irrevogável pela imprensa, e a relação ficou arranhada.

Marina foi praticamente ignorada pela cúpula do governo e do partido até resolver mudar de partido e cogitar se lançar candidata ao Planalto. A decisão provocou um assédio petista semelhante ao visto agora, depois do resultado do primeiro turno das eleições ao Planalto.

Petistas alegaram que a candidatura Marina poderia "inviabilizar" o projeto histórico do partido. "Acho que vocês estão superestimando", respondeu a senadora na época em que resistiu ao primeiro assédio petista e se lançou candidata pelo PV.

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