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Congonhas é "tridente do diabo", dizem moradores

A queda de um avião bimotor nesta terça-feira, na Rua Barão de Aguiar, próxima ao Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, e que provocou a morte do piloto Alessandro Buceme, reacendeu as discussões sobre a localização do aeroporto, que tem 65 anos de operação e uma média de 680 pousos e decolagens por dia. Entre os moradores que pedem alterações no funcionamento do aeroporto, estão os integrantes do MoviBelo, composto por residentes do bairro de Campo Belo.O grupo, filiado ao movimento Defenda São Paulo, luta por mudanças na estrutura de Congonhas há cinco anos. Há um mês, representantes do MoviBelo estiveram reunidos com a prefeita Marta Suplicy (PT) e o secretário de Governo, Rui Falcão.Na ocasião, segundo o presidente do MoviBelo, Antônio Cunha, o grupo entregou para Marta um dossiê, que apresenta análise do problema viário, ambiental e urbanístico provocado pelo aeroporto. No estudo, os moradores apontaram para as autoridades municipais as interferências e os impactos provocados pelas operações do aeroporto."Não fizemos um estudo pontual. Fizemos uma análise completa e holística e propusemos para a prefeita a realização de um seminário em agosto para discutir um Plano Diretor para a área aeroportuária de São Paulo, o que envolveria também discussões em torno dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e do Campo de Marte, além de Congonhas", disse Cunha.Segundo ele, Marta mostrou-se sensível e sinalizou com a possibilidade de discutir com a população a questão. Para o presidente do MoviBelo, é fundamental que as discussões sejam feitas o mais rápido possível para que possam ocorrer alterações na estrutura de funcionamento de Congonhas.Entre os problemas do aeroporto, ele observa que praticamente não existe área de escape nas cabeceiras."De um lado a área de escape é o viaduto da Avenida Bandeirantes, e do outro é um barranco na Avenida Pedro Bueno. Aquilo lá (Congonhas) não é mais um aeroporto. É um porta-aviões", disse, afirmando que os estudos apontam que as pistas são curtas e muito próximas uma das outras. Cunha afirma também que a operação de segurança do aeroporto é ultrapassada. "A tecnologia é da década de 40", diz. "A operação de Congonhas extrapola os limites óbvios de uma operação equilibrada."Ao lado dos problemas de segurança, o presidente do MoviBelo afirma que a poluição ambiental é intensa, além do impacto sobre o viário."Também tem a especulação imobiliária, que cada vez mais quer colocar gente nas imediações, o volume de tráfego aéreo e de passageiros e a prioridade para que o acesso ao local seja feito por automóveis. É um verdadeiro tridente do diabo", diz o presidente do MoviBelo.O presidente do movimento dos moradores do Campo Belo acredita que a mudança de localização de Congonhas "não é a saída mais lúcida"."A solução mais viável seria operar com restrição e reduzir o volume de passageiros para no máximo 5 milhões de pessoas por ano."Outra necessidade, segundo ele, é que a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), que opera as atividades do aeroporto, invista em tecnologia."Moro a 500 metros do aeroporto e quando decidi viver lá assumi o risco de estar indo residir nas imediações. Mas a solução não pode ir para o simplismo. O aeroporto não pode pensar que nós (moradores) é que devemos sair do local e nem a gente tem de querer que Congonhas saia daqui." Cunha sustenta ainda que o sistema urbanístico nas imediações de aeroportos seja de baixa densidade, além de o sistema viário ser multimodal. "A circulação em toda a zona sul tem de ser revista e não pode haver prioridade para os automóveis particulares." "A intenção é conviver harmonicamente", diz. Segundo ele, se confirmado o projeto de a Infraero aumentar o volume de operações em Congonhas, a situação ficará insustentável.A Infraero, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que o projeto existente destina-se a melhorar as instalações internas no terminal de passageiros, aumentando a segurança e o conforto dos usuários.Não há, segundo a empresa, nenhum planejamento para aumento de pista ou tráfego aéreo. Segundo informou a Infraero, as empresas aéreas têm, gradativamente, substituído suas aeronaves, em geral por modelos maiores e, conseqüentemente, com capacidade para transportar mais passageiros. Desta maneira, poderá haver aumento no volume de passageiros, mas não do tráfego aéreo. A Infraero afirma ainda que toda a fiscalização das atividades do aeroporto é feita pelo Departamento de Aviação Civil (DAC) e que a empresa segue as determinações impostas pelo órgão. Por dia, 24 mil pessoas embarcam e desembarcam em Congonhas, segundo a Infraero. A população flutuante calculada é de 40 mil pessoas. O aeroporto tem 11 empresas aéreas instaladas e emprega direta e indiretamente 60 mil pessoas.O acidente ocorrido nesta terça foi o segundo nas proximidades do aeroporto nos últimos seis meses. Em dezembro do ano passado, cinco passageiros e dois tripulantes morreram na queda de um bimotor. O acidente mais grave aconteceu em outubro de 1996, quando 99 pessoas morreram na queda de um Fokker-100 da TAM, que ia de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Agencia Estado,

06 de junho de 2001 | 17h20

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