Congresso vira fardo e parlamentares desistem de reeleição

Congresso vira fardo e parlamentares desistem de reeleição

Cinco deputados e um senador criticam sistema eleitoral e avisam que não voltam à vida pública no próximo mandato

Roberto Almeida, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Pelo menos seis parlamentares já desistiram de disputar a reeleição este ano. Eles vão dispensar seus salários de R$ 16,5 mil ao mês, suas verbas indenizatórias de R$ 15 mil e as cotas de passagens aéreas para voltar à vida sem mandato, a qual alguns não sentem na pele há mais de 30 anos. Alegam que o custo de campanhas está muito alto e criticam a criminalização da atividade política.

O deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), no holofote por conta da emenda que redistribui royalties, é um deles. Depois de 16 anos no Congresso e 33 desde sua estreia na política como vereador em,Porto Alegre, passou a criticar a "criminalização da atividade pública" e disse que não irá se submeter ao financiamento privado de campanha. "A metade dos deputados não volta para o Congresso e a outra metade vai ter de arrumar advogado para se defender", afirmou.

Procurador de Justiça aposentado, Pinheiro deve voltar à advocacia. Brinca ao dizer que colocou o partido na parede e pediu um cargo majoritário que não precisasse buscar doações de campanha ou nada. A resposta foi nada. "Não admito o patamar a que chegou o sistema político eleitoral. Eu me recuso a pedir dinheiro para empreiteiras", afirmou.

Já o deputado Fernando Coruja (PPS-SC) avisou que deixará o cargo após três mandatos porque se sente "inútil". "Não estou desmotivado nem cansado. Eu acho que a ação parlamentar está muito desimportante", disse, criticando o excesso de medidas provisórias do Executivo.

"E o que piorou também é que os trambiques no Congresso aumentaram", enfatizou. Para Coruja, ser caracterizado como político virou um fardo. "Tem de ter uma reforma política. Hoje a gente não decide, não influencia, é mal visto e tem pouco prazer na atividade. O debate político hoje no Congresso é o mais fraco do mundo", avaliou.

Mesmo assim, o parlamentar não dispensará a vida política. Diz que continuará participando das ações do partido em seu Estado de origem, Santa Catarina, e que deve apoiar a campanha à Presidência do governador de São Paulo, José Serra (PSDB). E continuará a atender seus pacientes, como de praxe. "Nunca deixei a medicina", disse.

Desestimulados. O secretário-geral do PT, deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP), que desiste do cargo após oito anos de Congresso, avisou que não dispensará a atividade política. Militante do partido há 30 anos, Martins Cardozo avisou que estará "ativamente" engajado na campanha presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

O motivo de sua desistência, aponta, é o abuso do poder financeiro em campanhas e a interpretação jurídica de regras eleitorais. Seu posicionamento "estritamente pessoal" indica que está "desestimulado" a concorrer novamente ao cargo.

O mesmo afirma o deputado Roberto Magalhães (DEM-PE), 16 anos de Congresso, mais de 40 na vida pública. Seu primeiro mandato foi de vice-governador de Pernambuco em 1979. Foi prefeito de Recife chegou a governar o Estado em 1986. Hoje é também crítico do sistema eleitoral.

O único senador a desistir publicamente da reeleição até agora é Sérgio Zambiasi (PTB-RS). Ele deixa o cargo após um mandato na Casa.

Desabafo

IBSEN PINHEIRO

DEPUTADO (PMDB-RS)

"A metade dos deputados não volta para o Congresso e a outra metade vai ter de arrumar

advogado para se defender."

"Eu me recuso a pedir dinheiro para empreiteiras."

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