Conjunto de casas alaga antes de inaugurar

Banco construiu 250 moradias perto do Rio Poti, em Teresina

Ricardo Brandt, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

O Conjunto Habitacional Canaxuê foi construído no bairro Todos os Santos, na região sudeste de Teresina, muito próximo às margens do Rio Poti. As 250 residências acabaram de ser concluídas e ainda não estão habitadas. Com as chuvas e as enchentes que castigam o Estado há sete dias, o sonho de ter uma moradia própria se transformou em pesadelo. A área onde foram erguidas as casas alagou. As águas subiram até a metade das paredes e avançaram para um conjunto de casas vizinho, o Novo Milênio, de onde mais de 200 famílias foram removidas.Numa das piores enchentes da história do Piauí, o total de desabrigados já chega a 65 mil e o número de cidades em emergência cresce diariamente. Anteontem, 38 prefeitos haviam decretado situação de calamidade. Com a trégua dada pelas chuvas, os rios começam a voltar ao nível normal e começam os trabalhos de recuperação.Nesta semana, o prefeito de Teresina, Silvio Mendes (PSDB), e o governador Wellington Dias (PT) têm reunião marcada com ministros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para buscar recursos para projetos emergenciais. Em mãos, o prefeito levará uma lista de 11 itens, como ampliação de diques e obras de drenagem, com um custo total de R$ 51 milhões. A área dos conjuntos Canaxuê e Novo Milênio ficou de fora."Vou alugar minha casa aqui e vou viver em outro lugar. Quando comprei da Caixa (Econômica Federal), ninguém disse que aqui alagava", reclama o policial militar Valdinar do Nascimento, de 35 anos. Todos seus bens foram removidos da casa no Novo Milênio. "Vamos nos organizar e constituir um advogado para processar a Caixa e vamos até a promotoria."O Canaxuê e o Novo Milênio se tornaram exemplo perfeito dos problemas de falta de projetos adequados que levem em consideração os riscos de alagamento em áreas próximas dos rios de Teresina, cercada pelo Poti e pelo Parnaíba. Governador e prefeitos levaram um "puxão de orelhas" do próprio presidente Lula, em sua visita ao Estado na terça-feira, após avistar os conjuntos alagados no sobrevoo que fez. "Na hora que a gente vai construir um conjunto habitacional novo, nós temos de levar em conta que a gente não pode construí-lo em área que vai dar enchente. Nós não poderemos construir casa em lugares que sabemos que mais dia menos dia vai dar enchente", disse Lula, na ocasião. O presidente só não sabia que os dois conjuntos foram feitos pela Caixa.Pedro dos Santos, de 44 anos, foi um dos removidos do Novo Milênio e um dos pedreiros que trabalharam nas obras do conjunto Canaxuê. "Mina água desse solo. Durante a obra, todo mundo já sabia que aqui alagava. Tem muita família cadastrada, que já fez negócio e agora não quer mais vir para cá", conta, mostrando o nível da água na parede da casa.Tanto a prefeitura, que autorizou as obras no local, como a Caixa, que comprou os terrenos e ergueu as casas, alegam que o local "historicamente não era atingido pelas enchentes". A Caixa informou ainda que as avaliações técnicas não apontaram riscos de enchente. Em 2004, quando houve uma outra enchente, as águas já tinham alagado o Novo Milênio. A superintendente de Desenvolvimento Urbano da Região Sudeste, Cristiane Lima, informou também que os dois conjuntos não faziam parte da lista de 353 famílias que viviam em condições de risco nessa parte da cidade.

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