Conjunto residencial é construído em solo contaminado

As obras de um conjunto residencial, com 50 edifícios já entregues, em Mauá, na Grande São Paulo, foram embargadas hoje pelo governo do Estado por causa de contaminação do solo. Cerca de 6 mil pessoas moram no condomínio, erguido sobre um depósito de resíduos industriais da empresa Cofap.A secretaria estadual do Meio Ambiente detectou 44 compostos orgânicos (ou seja, que contêm carbono) voláteis no solo do Conjunto Residencial Barão de Mauá, no Parque São Vicente. Entre os compostos estão o benzeno, que pode causar câncer, o trimetil-benzeno, o decano e o clorobenzeno. A estimativa dos técnicos é de que cerca de 33 mil dos 160 mil metros quadrados do terreno estejam contaminados. A construtora SQG, responsável pela obra, terá de fazer exames médicos com os moradores para saber se eles foram afetados pelas substâncias.ExplosãoSegundo o secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Tripoli, os problemas com a área começaram a aparecer em abril do ano passado. Durante a limpeza de uma caixa d´água subterrânea houve uma explosão que causou a morte de um funcionário do condomínio e ferimentos em outro. Técnicos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) fizeram medições na área e encontraram gás metano, provavelmente resultante da decomposição de resíduos sólidos.Na época, a secretaria denunciou o caso ao Ministério Público Estadual em Mauá e multou a SQG em 10 mil Unidades Fiscais do Estado de São Paulo (Ufesps) - R$ 98.300, em valores atuais. A partir disso, técnicos passaram a preparar um relatório, divulgado hoje.A secretaria proibiu a venda de apartamentos no condomínio. Além dos 50 prédios, o projeto prevê a construção de outros 22. Por determinação do Estado, a SQG também terá de monitorar a qualidade do ar nos ambientes externos do conjunto e remover a camada superficial de solo na área.O presidente da Cetesb, Dráusio Barreto, disse que a resolução do problema não deve exigir, em princípio, a remoção dos condôminos. Ele descartou a hipótese de novas explosões. "As substâncias são altamente nocivas e o risco é que as pessoas sejam afetadas pelo ar."O governo vai intimar a Cofap a apresentar um histórico da utilização do local como depósito de resíduos. "Não dá para aceitar esse tipo de conduta", disse Tripoli, segundo o qual a Cofap também pode ser responsabilizada por usar o local como aterro clandestino.A prefeitura de Mauá autorizou a obra em 1994. Na ocasião, o engenheiro responsável da SQG teria apresentado laudo que garantia que a área não fora utilizada para depósito de lixo orgânico ou de produtos que poderiam trazer riscos à saúde dos futuros moradores.Em nota, a SQG disse que paralisou hoje as obras no condomínio. Também alegou que o terreno foi comprado sem que soubesse do aterro clandestino. A nota informou ainda que a SQG deve processar os responsáveis pela contaminação.Em outra nota, a Cofap afirmou reconhecer a gravidade dos fatos noticiados. A empresa informou que iniciou "imediatamente" o levantamento exigido pela secretaria.MapaPelo menos 4 mil áreas no Estado são suspeitas de estarem contaminadas, segundo o documento Gestão dos Resíduos Sólidos em São Paulo e o Desafio do Desenvolvimento Sustentável, produzido pela Cetesb em 1996.Daquele total, 1.500 eram áreas industriais em uso; 800, áreas industriais abandonadas; 116 eram depósitos de resíduos e 2 mil, áreas de tanques. Ainda segundo o estudo, em 150 dessas áreas foi comprovado alto nível de contaminação, por meio de substâncias como mercúrio e chumbo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.