Construtoras miram gays e evangélicos

Lançamentos de condomínios voltados a públicos específicos ganham adeptos em Rio, São Paulo e outros Estados; inspiração é européia

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

24 Agosto 2008 | 00h00

Um promete ser o "metro quadrado menos quadrado da Bahia". O outro oferece vizinhança "cristã". Apesar de terem alvos bem diferentes, dois empreendimentos recentes chamam a atenção ao seguir a última tendência do mercado imobiliário - oferecer condomínios a públicos cada vez mais segmentados. Na Bahia, a Plena Empreendimentos está prestes a entregar as chaves do primeiro village gay do País, o Aldeia Saint Sebastien, em Arembepe. No Rio, a Tenda lançou em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, o Comandante Life 1, "primeiro residencial clube evangélico", conforme anúncio voltado a pastores. As vendas do residencial evangélico começaram em 9 de agosto, após culto de lançamento da pedra fundamental, que reuniu cem pessoas sob chuva. Em 11 dias, metade dos 224 apartamentos já estava vendida. O condomínio tem todas as facilidades de um clube residencial convencional - piscinas, churrasqueira, salão de festas, espaço gourmet, parque infantil. O diferencial é que terá também uma Bíblia de bronze e os apartamentos só são oferecidos a fiéis evangélicos. "Não é um projeto discriminatório. O que queremos é oferecer qualidade de vida, com vizinhança boa e confiável. Quem não for evangélico pode comprar. Mas vai saber que a maioria evangélica vai votar na convenção e estabelecer regras, como proibir álcool, fumo e palavras de baixo calão nas áreas comuns", diz o secretário-geral da União Nacional Evangélica (UNE), Alcindo Plácido. O projeto existe desde 1995. Plácido e Roberto Guarnier, donos da Taipá Planejamento e Construção, chegaram a lançar um conjunto habitacional nesses moldes num dos feirões da Caixa Econômica. Mas o financiamento estava em baixa, e o imóvel não deslanchou. O convênio com a Tenda permitiu que ele saísse da prancheta. "A média da Tenda é iniciar as construções com cerca de 30% dos contratos fechados. Vamos esperar para ultrapassar os 50% para garantir o caráter evangélico", disse. Na primeira etapa, não houve anúncio público do condomínio. A UNE, que congrega evangélicos de diferentes denominações, apresentou o projeto a pastores, que indicaram fiéis "em campanha de orações pela casa própria" com o perfil econômico necessário - renda familiar de R$ 1.800. Os apartamentos têm entre 56 m2 (dois quartos) e 78 m2 (três quartos dúplex) e custam a partir de R$ 79 mil. A cobertura permite instalação de piscina. A entrada é de R$ 1.100, as prestações iniciais saem a R$ 300. A professora de Educação Física Kellen Damasceno Ribeiro, de 32 anos, e o assistente jurídico Adams da Luz Ribeiro, de 42, moram de aluguel e souberam do imóvel pelo pastor da igreja que o pai dela freqüenta. Os dois serão vizinhos do pai da moça, de dois casais e de um "rapaz solteiro" - todos da Igreja do Evangelho Quadrangular. "O lar deve ser ambiente de sossego, descanso. Se os vizinhos têm a mesma disposição, é mais fácil se entenderem", disse Kellen. O sucesso do negócio fez com que Plácido e Guarnier fossem procurados por construtoras até de fora do Estado. "Estão percebendo que o evangélico é bom cliente, persevera. Além disso, tem maior poder aquisitivo porque não bebe, não fuma e não tem segunda família", diz Plácido. SEM PRECONCEITO Na Bahia, a Plena também apostou num público com bom poder aquisitivo - os gays. O Aldeia Saint Sebastien, homenagem ao santo escolhido pelos homossexuais, foi anunciado como o "metro quadrado menos quadrado" da Bahia. O condomínio fica de frente para o mar, na Praia do Piruí, e tem 68 apartamentos - o de três quartos com mezanino custa a partir de R$ 125 mil. Entre os compradores, apenas sete mulheres e um terço de estrangeiros. A construtora inspirou-se em modelos comuns na Europa. Pesquisas revelaram o que público gay queria - cozinha americana, área de lazer ampla, ofurô, espaço gourmet, fitness e home theater. "Não é para família tradicional. A cozinha é americana, porque não se cozinha ali todo dia. Não tem parquinho para as crianças, mas tem espaço gourmet, onde as pessoas podem se reunir", diz a arquiteta Mila de Azevedo, uma das autoras do projeto. Com a proposta de agradar a um "público mais aberto", alguns dos apartamentos são como lofts, com espaços livres. "Nada impede, por exemplo, que, na convenção do condomínio, a maioria decida por estender horário de festas, já que a regra tradicional é que o som seja reduzido a partir das 22 horas", diz o diretor-financeiro da Plena, Iranildo Machado. O funcionário público Cláudio Teixeira, de 46 anos, vendeu um apartamento em Salvador para mudar-se para Arembepe. "Em 2006, passei seis meses nos EUA e conheci essa proposta de moradia. Achei muito interessante. Quando vi que lançaram uma igual aqui, decidi que era hora de mudar de vida. Pedi transferência no emprego e vou trabalhar perto da casa nova." A entrega das chaves está prevista para a primeira quinzena de setembro.

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