Consumo de cocaína cresce mais de 30% no Brasil

Segundo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime, o consumo não pára de crescer

Vannildo Mendes, de O Estado de S. Paulo,

25 de fevereiro de 2008 | 21h37

O consumo de cocaína cresceu mais de 30% no Brasil - média de 6% ao ano entre 2002 e 2007 - conforme estimativa divulgada nessa segunda-feira, 25, pelo diretor do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), Giovanni Quaglia. "Nunca se consumiu tanta cocaína como atualmente no Brasil", afirmou. "O problema é preocupante porque o consumo não pára de crescer, na contramão do que ocorre no mundo, onde os índices estão estabilizados, e em países como os Estados Unidos, onde as taxas até estão caindo", disse Quaglia.   Segundo estimativa da ONU, a cocaína movimenta 0,4% do PIB dos países. Seu consumo já foi diagnosticado em 80% das nações do planeta, indicando que a globalização do tráfico o tornou um problema mundial. Por ano, esses consumidores espalhados pelo mundo cheiram 600 toneladas de cocaína, movimentando um mercado de cerca de R$ 80 bilhões. Pelo Brasil, circulam 80 toneladas de cocaína ao ano, quase toda produzida em países andinos vizinhos como Colômbia, Peru e Bolívia. O tráfico da droga movimenta cerca de US$ 5 bilhões no Brasil.   Desse total, 40 toneladas (metade do que aqui transita e 6,5% do consumo mundial) ficam no Brasil para consumo interno e o restante é exportado para grandes mercados como Estados Unidos, Europa e Ásia. São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre estão entre os maiores centros consumidores. O levantamento da ONU mostra que em toda parte do mundo há relação entre crescimento econômico e aumento do consumo de drogas, principalmente cocaína, uma das mais caras. O fenômeno, para ele, pode explicar em parte o aumento do consumo no Brasil.   O exemplo mais notório é o da Espanha, que se tornou o maior consumidor per capita do mundo após 15 anos de boom econômico nas décadas de 80 e 90. Hoje a Espanha tem uma média de 3 consumidores para cada grupo de 100 habitantes entre 15 e 64 anos. No Brasil, o índice já atingiu a 2,6 consumidores para cada grupo de 100, contra 1 em 2001.   Aproximadamente 40% da droga que chega ao mercado europeu usando o Brasil como Rota, passa antes pela África. Para sufocar essa importante rota com o combate integrado às quadrilhas, a Polícia Federal, em parceria com o órgão da ONU, começou a treinar peritos e agentes de países sul-americanos e africanos de língua portuguesa.   A aula inaugural do curso, que durará quatro meses e meio, foi dada ontem na Academia Nacional da PF pelo diretor-geral do órgão, delegado Luiz Fernando Corrêa. Essa primeira turma tem 27 representantes de Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, além de países sul-americanos. "O treinamento de policiais cria uma rede de policiais para melhorar o combate ao crime organizado países e fortalecer os laços com países incluídos nessa rota", disse Quaglia.   Para ele, de todas as drogas, a cocaína é a mais perversa e a que mais causa preocupação às Nações Unidas. "Além dos graves danos à saúde, o tráfico de cocaína tem a característica de levar consigo o crime organizado", disse. O dirigente explicou que a atividade está geralmente associada a outros crimes, como tráfico de pessoas e de armas, a lavagem de dinheiro, a corrupção e o controle de territórios, fenômeno observado nas favelas do Rio de Janeiro.   A ONU verificou que o consumo de cocaína vem crescendo na europa e em países emergentes, como Brasil, ao passo que vem caindo nos Estados Unidos, tradicionalmente o maior consumidor mundial. Na América Latina, o consumo na Argentina e Uruguai cresce na mesma proporção do Brasil.   No caso de grandes produtores, como Colômbia, Perú e Bolívia, o dinheiro movimentado pela droga atinge de 2 a 3% do PIB. O Brasil, apesar do aumento no consumo, ainda está abaixo da média mundial, movimentando cerca de 5 bilhões ao ano. Isso porque, embora o País seja rota de passagem e mercado emergente, a produção interna ainda é inexpressiva. Mas o País, adverte Quaglia, pode vir a se tornar pólo produtor em razão do crescimento elevado do consumo.   Conforme relatório do UNODC em 2007, os países mais citados da rota da cocaína que sai da América do Sul para a Europa via África são: Brasil (mais citado que a Colômbia), Peru e Venezuela. Autoridades na Guiné estimam que cerca de 60% da cocaína que chega ao país vem do Brasil e 40% vêm direto da Colômbia. "A cooperação entre diversos países que fazem parte desta rota é fundamental para uma ação eficaz. Cremos que o curso vai aproximar as agências de investigação e ajudar a enfrentar o crime organizado", disse Quaglia.   Os países mais vulneráveis do oeste da África se tornaram ponto importante nas rotas do tráfico de cocaína que vem da região andina para os consumidores europeus. Só em Guiné Bissau, o valor do comércio ilegal de drogas já é maior que todo o PIB do país, segundo dados do UNODC. Um quarto de toda a cocaína consumida na Europa chega via África. Em 2007, cerca de 40 toneladas foram apreendidas no oeste africano. A droga é contrabandeada por cerca de U$ 1.8 bilhão de dólares e chega ao consumidor europeu com valor de revenda até dez vezes superior.

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