Contador nega ter pedido acesso a dados de Verônica

Suposto responsável pela bisbilhotagem fiscal contra a filha de Serra, Ademir Cabral rompe silêncio e desafia seu acusador

Bruno Tavares, Marcelo Godoy e Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

 No centro do escândalo da violação do sigilo fiscal de Verônica Serra, o contador Ademir Estevam Cabral negou ontem ter sido o autor do pedido de acesso a cópias de declarações de renda da filha do candidato José Serra (PSDB).  

 

 

                                                                        

  "Não conheço (Verônica), nunca tinha ouvido falar", ele afirmou, rompendo o silêncio ao qual se impôs desde a semana passada, quando teve seu nome citado por Antonio Carlos Atella Ferreira, também contador e filiado ao PT por quase 6 anos.

Atella declarou à Polícia Federal que foi Cabral quem lhe entregou em 29 de setembro de 2009 pedido de acesso a 18 declarações de pessoas físicas na Receita - na lista estaria o nome de Verônica. Cabral se diz indignado. Passou os últimos dias praticamente recluso, acuado, desorientado. Sumiu de Francisco Morato, onde tem seus negócios e amigos, sumiu do escritório da Rua Dom José de Barros, centro da capital, onde dava expediente, sumiu dos portões e arredores da Junta Comercial, onde assediava a freguesia a R$ 50 por consulta e documento tirado.

Ontem, ele apareceu de repente na Delegacia Seccional de Polícia de Santo André, que investiga a fraude. Apresentou-se ao delegado José Emílio Pescarmona, que dirige o inquérito e a quem identificou-se como office boy e contou que foi dono de "pequeno escritório" na Praça Marechal Deodoro.

Cabral assinou seu nome em uma folha de papel para exame grafotécnico - a polícia vai comparar sua escrita com a do falsário que forjou a assinatura de Verônica. Pescarmona, 35 anos de carreira, ouviu o relato de Cabral. Agora quer ouvir Atella, o que deverá ocorrer hoje.

Acareação. Uma acareação entre Cabral e Atella está nos planos do delegado. Os dois trabalham em parceria faz cinco anos, mas em escritórios diferentes. A ideia de ficar frente a frente com seu acusador não intimida Cabral. "Precisamos colocar os pingos nos is", desafia.

Depois de prestar contas à polícia, ele falou ao Estado. O que mais o intriga é por que Atella atribuiu a ele o pedido de acesso às declarações de renda da filha de Serra. "Quero resolver o problema dele e o meu. Ele tá dizendo que sou eu, mas eu sei que não sou eu. Se fosse minha (a procuração) estaria no meu nome", observou. "Como ele tem vários clientes, quero ver se consegue achar alguma coisa para poder se safar dessa. Eu tenho plena convicção de que esse documento não é meu. Todos os meus documentos eu olho (o conteúdo)."

Cabral afirma que por esses dias anda "muito cansado", a cabeça dói. Quebrou sua rotina de tantos anos, tem evitado aparições em público desde que uma foto sua foi divulgada.

O contador negou que tenha repassado a Atella 18 pedidos de cópias de declarações. "Dezoito procurações em nome dele não. Se eram 18 teria que aparecer as outras, né? Por que só apareceu essa? É isso que não entendo."

Incomoda-o a suspeita de que agia em conluio com gente da Receita em Mauá e Santo André, foco da trama. Conhece Adeildda Leão, a servidora do Serpro que acessou quase 3 mil declarações, entre elas a de Verônica? "Nunca vi na vida", ele diz. Conhece Antônia Aparecida Neves, envolvida na onda de violações? "Nunca fui a Mauá e nem a Santo André."

Uma dúvida o persegue desde que sua vida virou um inferno - afinal, por que Atella apontaria apenas seu nome? "Não sei. Vai ver que o primeiro nome que veio na cabeça dele foi o meu. Com um monte de gente ele foi citar bem o meu nome? Como a gente fazia muita pesquisa juntos, só pode ser isso. Mas esses documentos grandes eu nunca passei para ele."

É veemente ao refutar envolvimento na fraude. "Eu teria certeza se essa procuração fosse minha. Ela estaria em meu nome, não em nome dele. Para que eu ia colocar o nome dele?"

Diz não saber quem são os clientes do antigo parceiro. "Ah, não conheço. O que eu fazia para ele é empresa. Eu dava entrada na Junta e retirava. Ele tem bons clientes, uma carteira boa de clientes."

Atella disse que Cabral pediu pressa na obtenção do documento porque era de interesse de um pessoal de Brasília e de Minas. "Desconheço totalmente isso aí. Meus clientes são todos aqui de São Paulo. Eu estranhei quando ele falou isso."

O contador se disse surpreso com a revelação sobre filiação partidária de Atella. "Eu nem sabia que ele era do PT. O cara nunca discutiu política comigo."

Cabral frisou que sua filiação ao PV "não tinha interesses políticos". Foram amigos que o apresentaram ao partido em Morato. "Minha cidade é pequena, tenho amigos e eles me filiaram ao PV. Nunca fui candidato a nada. Fui em festa, comício na rua. Só isso."

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